Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 108 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Balanço de riscos e benefícios

(Naylor, 1997), sendo as principais a suscetibilidade do relatório

seletivo dos resultados e a “tendenciosidade da publicação”, pois

estudos negativos (ou achados desfavoráveis) apresentam menor

probabilidade de publicação do que as pesquisas positivas, em parte

porque são considerados menos interessantes ou, mais seriamente,

porque sua publicação afetaria o negócio da companhia farmacêutica

que efetuou o estudo.15 A contagem dupla, que ocorre quando os

mesmos dados são incorporados em mais de um relatório, é outro

problema.

A literatura publicada de estudos clínicos contém ensaios mal

desenhados e não confiáveis. A “Cochrane Collaboration”

(<www.cochrane.org>) revisa cuidadosamente a literatura e produz

revisões sistemáticas que coletam e combinam apenas dados dos

estudos (de fármacos e outras intervenções terapêuticas) que obedecem

a critérios de qualidade estritos. Estão disponíveis cerca de 7.000

sumários com essa qualidade-padrão, que fornecem os dados mais

confiáveis de avaliação de estudos em uma vasta gama de fármacos

terapêuticos.

 

BALANÇO DE RISCOS E BENEFÍCIOS

 

Índice terapêutico

▼ O conceito de índice terapêutico tem por objetivo fornecer uma

medida da margem de segurança de um fármaco, chamando a atenção

para a relação entre as doses efetivas e tóxicas:

Índice terapêutico = DL50/DE50

em que DL50 é a dose letal em 50% da população e DE50 é a dose

“eficaz” em 50%. Obviamente, isso só pode ser medido em animais, e

não se trata de um guia útil para a segurança de um medicamento em

uso clínico, por vários motivos:

• 16 A DL não reflete a incidência de efeitos adversos no uso terapêutico

50

• A DE , em geral, não é definível, pois depende da medida de eficácia adotada. Por exemplo, 50

a DE do ácido acetilsalicílico usado para cefaleia leve é muito menor do que para seu uso 50

como fármaco antirreumático

• A eficácia e a toxicidade estão sujeitas à variabilidade entre indivíduos. As diferenças

individuais na dose eficaz ou na dose tóxica de um fármaco tornam este inerentemente menos previsível e, portanto, menos seguro, embora isso não se reflita no índice terapêutico.

Ensaios clínicos

 

• Um ensaio clínico é um tipo especial de bioensaio realizado para se comparar a e cácia

clínica de um novo fármaco ou procedimento com a de um fármaco ou procedimento

conhecido (ou placebo)

• Simpli cando, seu objetivo é a comparação direta do desconhecido (A) com um padrão (B)

em um só nível de dose. O resultado pode ser: “B melhor que A”, “B pior que A” ou

“nenhuma diferença detectada”. Compara-se a e cácia, e não a potência

• Para evitar tendenciosidade, os ensaios clínicos devem ser:

– Controlados (comparação de A com B, e não um ensaio apenas com A)

– Ao acaso (os pacientes são divididos aleatoriamente entre A e B)

– Duplos-cegos (nem o paciente nem o assistente sabem o que está sendo usado, A ou

B)

• Podem ocorrer erros do tipo I (ao se concluir que A é melhor que B quando a diferença se

deve ao acaso) e erros do tipo II (ao se concluir que A não é melhor que B porque não se

detectou a real diferença); a probabilidade de ocorrer um desses erros diminui à medida

que a qualidade metodológica, o tamanho da amostra e o número de pontos aumentam

• A análise intermediária dos dados, realizada por um grupo independente, pode ser

utilizada como base para encerrar o ensaio prematuramente, se os dados já forem

conclusivos ou se for improvável a obtenção de um resultado con ável

• Todos os experimentos realizados com seres humanos necessitam da aprovação de um

comitê de ética independente

• Os ensaios clínicos exigem planejamento e execução muito cuidadosos, sendo

inevitavelmente caros

• As medidas dos resultados clínicos podem ser:

– Medidas siológicas (p. ex., pressão sanguínea, testes de função hepática, função

respiratória)

– Resultado a longo prazo (p. ex., sobrevida ou livre de recorrência)

– Avaliações subjetivas (p. ex., alívio da dor, humor)

– Medidas de “qualidade de vida” global;

– “Anos de vida ajustados à qualidade” (QALY), que combinam sobrevida com qualidade

de vida

• A metanálise é uma técnica estatística adotada para reunir os dados de diversos ensaios

independentes.

 

Outras medidas de riscos e benefícios

▼ Formas alternativas de se quantificarem os riscos e benefícios dos

fármacos no uso clínico têm recebido muita atenção. Uma estratégia útil

é estimar, com base em dados de ensaios clínicos, a proporção de

pacientes do grupo de teste e do grupo-controle que apresentarão (A)

um nível definido de benefício clínico (p. ex., sobrevida superior a 2

anos, alívio de dor em um nível predeterminado, determinada redução

da perda cognitiva) e (B) um grau definido de efeitos adversos. Essas

estimativas da proporção entre pacientes que exibem reações benéficas

e aqueles com reações adversas podem ser expressas como o número

necessário para tratar (NNT; isto é, o número de pacientes que

precisam ser tratados para que um apresente determinado efeito,

benéfico ou adverso). Por exemplo, em um ensaio recente de alívio de

dor por fármacos antidepressivos comparados com placebo, os

resultados foram: para benefício (um nível determinado de alívio da

dor), NNT = 3; para efeitos adversos leves, NNT = 3; para efeitos

adversos importantes, NNT = 22. Assim, de 100 pacientes tratados com

o fármaco, uma média de 33 apresentará alívio da dor, 33 terão efeitos

adversos leves e quatro ou cinco apresentarão efeitos adversos

importantes, informação que se revela útil para nortear as decisões Kirkwood, B.R., Sterne, J.A.C., 2003. Medical Statistics, second ed. Blackwell, Malden. (Livro

terapêuticas. Uma vantagem desse tipo de análise é que pode levar em

consideração a gravidade da doença ao quantificar o benefício. Assim,

se o fármaco A diminui a mortalidade de uma doença geralmente fatal

pela metade (reduzindo de 50% para 25%), o NNT para salvar uma vida

é 4; se o fármaco B reduz a mortalidade de uma doença raramente fatal

pela metade (reduzindo de 5% para 2,5%), o NNT para salvar uma vida

é 40. A despeito de outras considerações, o fármaco A é considerado

mais valioso que o fármaco B, ainda que ambos reduzam a mortalidade

pela metade. Além disso, o médico deve entender que, para salvar uma

vida com o fármaco B, 40 pacientes devem ser expostos a um risco de

efeitos adversos, enquanto apenas quatro são expostos para cada vida

salva pelo fármaco A.

 

Determinação dos riscos e benefícios

 

• O índice terapêutico (dose letal para 50% da população dividida pela dose e caz para 50%)

é insatisfatório como medida de segurança do fármaco porque:

– Baseia-se nas informações de toxicidade em animais, que podem não re etir formas

de toxicidade ou efeitos adversos clinicamente importantes

– Não leva em conta as reações tóxicas idiossincráticas

• Medidas mais so sticadas de análise risco-benefício para fármacos em uso clínico estão

aparecendo, inclusive o princípio do número necessário para tratar (NNT).

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Referências gerais

Colquhoun, D., 1971. Lectures on Biostatistics. Oxford University Press, Oxford. (Livro-texto

clássico)

introdutório e claro apresentando princípios e métodos estatísticos)

Walley, T., Haycocks, A., 1997. Pharmacoeconomics: basic concepts and terminology. Br. J. Clin.

Pharmacol. 43, 343–348. (Introdução útil aos princípios analíticos que estão se tornando cada

vez mais importantes para aqueles que elaboram as regulamentações terapêuticas)

Yanagisawa, M., Kurihara, H., Kimura, S., et al., 1988. A novel potent vasoconstrictor peptide

produced by vascular endothelial cells. Nature 332, 411–415. (Primeiro trabalho a descrever a

endotelina – uma caracterização notavelmente completa de um novo e importante mediador)

Métodos moleculares

Lohse, M.J., Nuber, S., Hoffmann, C., 2012. Fluorescence/bioluminescence resonance energy

transfer techniques to study G protein-coupled receptor activation and signaling. Pharmacol. Rev.

64, 299–336. (Revisão dos métodos modernos com base em fluorescência para o estudo da

função dos receptores acoplados à proteína G)

Nygaard, R., Zou, Y., Dror, R.O., et al., 2013. The dynamic process of β(2)-adrenergic receptor

activation. Cell 152 (3), 532–542. (Revisão que demonstra o uso das técnicas modernas de

espectroscopia para medir os efeitos dos ligantes na conformação dos receptores)

Modelos animais

Offermanns, S., Hein, L. (Eds.), 2004. Transgenic models in pharmacology. Handb. Exp. Pharmacol.

159. (Uma série de revisões abrangentes, descrevendo modelos de camundongos transgênicos

utilizados para estudar os diferentes mecanismos farmacológicos e estados de doenças)

Ristevski, S., 2005. Making better transgenic models: conditional, temporal, and spatial approaches.

Mol. Biotechnol. 29, 153–164. (Descrição de métodos para controlar a expressão transgênica)

Rudolph, U., Moehler, H., 1999. Genetically modified animals in pharmacological research: future

trends. Eur. J. Pharmacol. 375, 327–337. (Boa revisão da utilização de animais transgênicos em

pesquisa farmacológica, inclusive com o uso de modelos de doenças)

Ensaios clínicos

Beta-blocker Heart Attack Trial Research Group, 1982. A randomised trial of propranolol in patients

with acute myocardial infarction. 1. Mortality results. JAMA 247, 1707–1714. (Um ensaio

concluído precocemente quando surgiram evidências claras de benefício)

Echt, D.S., Liebson, P.R., Mitchell, L.B., et al., 1991. Mortality and morbidity in patients receiving

encainide, flecainide, or placebo. The Cardiac Arrhythmia Suppression Trial. N. Engl. J. Med.

324, 781–788. (Estudo importante que mostra que os fármacos antiarrítmicos, cuja expectativa

era a redução da morte súbita depois de um infarto, têm efeito oposto)

Enck, P., Bigel, U., Schedlowski, M., Rief, W., 2013. The placebo response in medicine: minimize,

maximize or personalize? Nat. Rev. Drug Discov. 12, 191–204. (Revisão abrangente sobre um

fenômeno enganoso)

Hackshaw, A., 2009. A Concise Guide to Clinical Trials. Wiley Blackwell. (Livro sucinto e

introdutório)

Howick, J., Friedemann, C., Tsakok, M., et al., 2013. Are treatments more effective than placebos? A

systematic review and meta-analysis. PLoS ONE 8, e62599.

Hrobjartsson, A., Gotzsche, P.C., 2010. Placebo interventions for all clinical conditions. Cochrane

Database Syst. Rev. CD003974.

Kaptchuk, T.J., Friedlander, E., Kelley, J.M., et al., 2010. Placebos without deception: a randomized

controlled trial in irritable bowel syndrome. PLoS ONE 5 (12), e15591. (Estudo que mostra que

os comprimidos placebo têm efeito significativo, mesmo que o paciente saiba que não há

ingrediente ativo)

Naylor, C.D., 1997. Meta-analysis and the meta-epidemiology of clinical research. Br. Med. J. 315,

617–619. (Cuidadosa revisão dos pontos fortes e fracos da metanálise)

Sackett, D.L., Rosenburg, W.M.C., Muir-Gray, J.A., et al., 1996. Evidence-based medicine: what it is

and what it isn’t. Br. Med. J. 312, 71–72. (Registro ponderado do valor da medicina baseada em

evidências – uma importante e recente tendência do pensamento médico)

____________

1 Considere os efeitos da cocaína no crime organizado, dos

organofosforados usados como “gases dos nervos” na estabilidade das

ditaduras ou dos anestésicos para a exequibilidade dos procedimentos

cirúrgicos como exemplos de interações moleculares que afetam o

comportamento de populações e sociedades.

2 Em 1988, um grupo japonês (Yanagisawa et al., 1988) descreveu, em um

único e notável artigo, o ensaio biológico, a purificação, a análise e a

síntese química, bem como a clonagem do DNA de um novo peptídio

vascular, a endotelina (ver Capítulo 23).

3 Exemplos mais pitorescos de unidades absolutas do tipo que fariam Burn

franzir as sobrancelhas são o PHI e a mHelen. A PHI, citada por Colquhoun

(1971), significa “índice de pureza de coração”, que mede a habilidade de

uma virgem de coração puro transformar, em condições apropriadas, um

bode em um jovem de extrema beleza. Já mHelen é uma unidade de beleza;

1 mHelen seria suficiente para lançar um navio ao mar.

4 Há muitos exemplos de fármacos que se mostram altamente eficazes em

animais experimentais (p. ex., na redução do dano cerebral após acidente

isquêmico), mas ineficazes em seres humanos (vítimas de derrame). Nessa

mesma linha, um trabalho recente sobre os antagonistas da substância P

(ver Capítulo 19) mostrou que são muito eficazes em testes animais de

analgesia, mas se mostraram inativos nos seres humanos. Nunca saberemos

quantos erros na direção oposta poderiam ter ocorrido, pois esses fármacos

nunca serão testados na espécie humana.

5 Com a tecnologia transgênica convencional, a anormalidade genética se

expressa durante o desenvolvimento, ocasionalmente demonstrando-se letal

ou causando anormalidades significativas. As alterações transgênicas condicionais (Ristevski, 2005) permitem que o gene modificado permaneça

não expresso até que seja desencadeado pela administração de um promotor

químico (p. ex., a doxiciclina, um análogo da tetraciclina, no sistema

condicional mais usado, o Cre-Lox). Essa estratégia evita as complicações

dos defeitos do desenvolvimento e adaptações a longo prazo, permitindo a

criação de modelos mais precisos de doenças de adultos.

6 Em 1753, James Lind fez um estudo controlado em 12 marinheiros,

demonstrando que laranjas e limões protegiam contra o escorbuto.

Entretanto, passaram-se 40 anos antes que a Marinha Britânica agisse

segundo seu conselho, e outros 100 anos para que a Marinha dos EUA

fizesse o mesmo.

7 Em alguns lugares, é moda argumentar que exigir evidência da eficácia

terapêutica de procedimentos, na forma de estudos controlados, vai contra

os dogmas da medicina “holística”. Essa é uma visão fundamentalmente

anticientífica, pois a ciência só avança ao gerar previsões a partir de

hipóteses e submeter essas previsões a testes experimentais. Procedimentos

da medicina “alternativa”, como homeopatia, aromaterapia, acupuntura ou

“desintoxicação”, raramente foram testados – e, quando o foram,

geralmente não apresentaram eficácia. O movimento da medicina baseada

em evidências apoia o método científico (Sackett et al., 1996), que define

critérios rígidos para se avaliar a eficácia terapêutica com base em estudos

clínicos controlados e aleatórios, encorajando o ceticismo contra doutrinas

terapêuticas cuja eficácia não tenha sido demonstrada.

8 Até mesmo isso pode ser motivo de controvérsia, pois pacientes

inconscientes, com demência ou doenças mentais são incapazes de dar tal

consentimento. Mesmo assim, ninguém impediria a realização de ensaios

que poderiam oferecer melhores tratamentos a esses pacientes. Ensaios

clínicos realizados com crianças são particularmente problemáticos, mas são necessários se formos colocar o tratamento de doenças da infância na

mesma base de evidências considerada apropriada aos adultos. Existem

muitos exemplos em que a experiência mostrou que as crianças respondem

de maneira diferente em comparação aos adultos. Atualmente, há crescente

pressão sobre as indústrias farmacêuticas para que façam ensaios com

crianças, apesar de sua dificuldade. A mesma preocupação se aplica a

ensaios com pacientes idosos.

9 Não é fácil distinguir uma resposta farmacológica verdadeira de um efeito

clínico benéfico, sabendo-se (com base nos efeitos farmacológicos

produzidos pela substância) que é o fármaco ativo que está sendo

administrado, e não devemos esperar que um simples ensaio clínico resolva

um problema semântico tão sutil.

10 A manutenção do “cego” pode ser problemática. Em uma tentativa de se

determinar se a melatonina era eficaz na eliminação do jet lag, um

farmacologista selecionou um grupo de companheiros da mesma profissão

que estavam indo a um congresso na Austrália, fornecendo-lhes cápsulas de

melatonina ou placebo sem identificação, com um questionário sobre jet lag

a ser preenchido quando chegassem. Muitos (inclusive um dos autores),

com os recursos analíticos à mão, abriram as cápsulas e as jogaram no lixo

caso contivessem placebo. Os farmacologistas são apenas humanos.

11 Embora sem muito impacto até o momento nos hábitos de prescrição,

devido à força das indústrias farmacêuticas.

12 Como se pode imaginar, a relação entre duração e qualidade de vida

levanta discussões a respeito das quais provavelmente muitos de nós se

sentiriam desconfortáveis. Os economistas, porém, não se sentem assim.

Eles abordam o problema levantando questões como: “Quantos anos de

vida você estaria disposto a sacrificar para viver o resto da vida livre da

deficiência que está vivenciando no momento?” Ou de modo ainda mais perturbador: “Se você pudesse apostar entre viver livre de sua deficiência

pelo seu tempo normal de vida ou (caso você perca a aposta) morrer

imediatamente, quais probabilidades você aceitaria?” Imagine que seu

médico lhe perguntasse isso. “Mas eu só queria algo para minha dor de

garganta”, protestaria você timidamente.

13 Seu oposto, o efeito nocebo, descreve os efeitos adversos descritos com

medicamentos inertes.

14 De modo surpreendente, a decepção pode mesmo não ser necessária.

Kaptchuk et al. (2010) descobriram que, em relação aos sintomas da

síndrome do cólon irritável, os pacientes que receberam comprimidos de

açúcar inertes, assim descritos pelo médico, apresentaram melhora

ligeiramente superior em relação àqueles a quem não foi dado comprimido

algum. No entanto, o efeito foi pequeno, e os pacientes foram encorajados a

pensar que os comprimidos atuavam em “processos de cura mente-corpo”.

15 Para reduzir o viés, foram instituídas medidas para assegurar que a

maioria dos ensaios clínicos esteja registrada, e os resultados publicamente

disponíveis.

16 De modo irônico, a talidomida – provavelmente o fármaco mais nocivo

já comercializado – foi promovida especificamente com base em seu

excepcional índice terapêutico (i. e., matava ratos apenas quando

administrada em doses extremamente elevadas).

OceanofPDF.com