Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 93 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Respostas inflamatórias e imunológicas indesejadas

encontrados nos macrófagos e em diversas células envolvidas na

resposta imune, embora as origens desses ligantes não sejam claras. Os

receptores opioides também são encontrados em células inflamatórias e

têm, igualmente, múltiplos efeitos em muitos aspectos da resposta

inflamatória (Liang et al., 2016)

• Neurônios sensoriais periféricos. Alguns neurônios sensoriais liberam

neuropeptídios inflamatórios mediante estimulação adequada. Esses

neurônios são aferentes delicados (fibras capsaicino-sensíveis de tipo C

e Aδ; ver Capítulo 43) dotados de receptores específicos em suas

terminações periféricas. As cininas, a 5-hidroxitriptamina (5-HT) e

outros mediadores químicos gerados durante a inflamação atuam nesses

receptores e estimulam a liberação de neuropeptídios, tais como

taquicininas (neurocinina A, substância P) e o peptídio relacionado com

o gene da calcitonina (CGRP; do inglês, calcitonin gene-related

peptide), que apresentam ações pró-inflamatórias e álgicas. Os

neuropeptídios são considerados novamente no Capítulo 19.

 

RESPOSTAS INFLAMATÓRIAS E IMUNOLÓGICAS

INDESEJADAS

A resposta imunológica precisa manter um equilíbrio delicado. De acordo

com uma corrente de pensamento, um sistema imune à prova de infecções

seria uma possibilidade, mas custaria caro ao hospedeiro. Diante de vários

milhões de potenciais pontos antigênicos existentes no hospedeiro, um

sistema “superimune” desse tipo seria mil vezes mais propenso a atacar o

próprio hospedeiro e desencadear doenças autoimunes. Não é incomum

encontrar pacientes nos quais a exposição a substâncias normalmente

inócuas, como pólen ou amendoim, inadvertidamente ativa o sistema

imunológico. Quando isso acontece, a própria inflamação resultante inflige autolesão, seja de forma aguda, como, por exemplo, na anafilaxia, seja de

modo crônico como, por exemplo, na asma ou na artrite reumatoide. Em

qualquer caso, pode haver necessidade de se instituir uma terapia anti-

inflamatória ou imunossupressora.

 

▼ As respostas imunes indesejadas, denominadas reações alérgicas ou

de hipersensibilidade, são geralmente classificadas em quatro tipos.

 

■ Hipersensibilidade de tipo I

▼ A hipersensibilidade de tipo I (com frequência conhecida

simplesmente como “alergia”), também chamada hipersensibilidade

imediata ou anafilática, ocorre em indivíduos cuja resposta

predominante ao antígeno é do tipo Th2, em vez de Th1. Em tais

indivíduos, substâncias que não são inerentemente nocivas (p. ex., grãos

de pólen, ácaros presentes na poeira doméstica, certos alimentos ou

fármacos, pelos de animais, entre outros) induzem a produção de

anticorpos do tipo IgE.11 Esses anticorpos fixam-se aos mastócitos

residentes nos pulmões, bem como aos eosinófilos. Um contato

subsequente com a substância problemática provoca liberação de

histamina, PAF, eicosanoides e citocinas. Os efeitos podem ficar

restritos ao nariz (febre do feno), à árvore brônquica (fase inicial da

asma), à pele (urticária) ou ao trato gastrintestinal. Em alguns casos, a

reação é mais generalizada e produz choque anafilático, que pode ser

uma condição grave envolvendo risco de morte. Alguns efeitos

indesejados importantes incluem as respostas de hipersensibilidade

anafilática (ver Capítulo 58).

 

■ Hipersensibilidade de tipo II

▼ A hipersensibilidade de tipo II, também chamada hipersensibilidade

citotóxica dependente de anticorpo, ocorre quando os mecanismos

anteriormente destacados são dirigidos contra células do hospedeiro que

são (ou aparentam ser) estranhas. Exemplificando, células ou proteínas

do hospedeiro modificadas pela ação de fármacos às vezes são

confundidas pelo sistema imunológico com organismos estranhos,

evocando a formação de anticorpos. A reação antígeno-anticorpo

desencadeia a ativação do complemento (e suas sequelas), além de

induzir o ataque das células NK. Esse mecanismo está envolvido na

modificação, induzida por certos fármacos, de neutrófilos, levando à

agranulocitose (ver Capítulo 57), ou de plaquetas, com consequente

púrpura trombocitopênica (ver Capítulo 25). Essas reações de tipo II

também estão implicadas em alguns tipos de tireoidite autoimune (p.

ex., doença de Hashimoto; ver Capítulo 35).

 

■ Hipersensibilidade de tipo III

▼ A hipersensibilidade de tipo III, também chamada hipersensibilidade

mediada por complexo, ocorre quando anticorpos reagem com

antígenos solúveis. Os complexos antígeno-anticorpo podem ativar o

complemento ou fixar-se nos mastócitos, estimulando a liberação de

mediadores inflamatórios.

Um exemplo experimental desse tipo de hipersensibilidade é a reação

de Arthus, que ocorre se uma proteína estranha for injetada SC em um

coelho ou cobaia que apresente altas concentrações séricas preexistentes

de anticorpos. No intervalo de 3 a 8 h, o local de injeção se torna

avermelhado e inchado, porque os complexos antígeno-anticorpo

precipitam-se nos pequenos vasos sanguíneos e ativam o complemento.

Os neutrófilos são atraídos e ativados (pelo fragmento C5a), gerando

espécies reativas de oxigênio e secretando enzimas.

Os mastócitos também são estimulados pelo C3a a liberar mediadores.

O dano causado por esse processo está envolvido na doença do soro.

Essa doença ocorre quando o antígeno persiste no sangue após a

sensibilização e provoca uma reação grave, semelhante à resposta ao

feno mofado (conhecida como pulmão de fazendeiro) e às reações que

ocorrem em certos tipos de doenças autoimunes renais e arteriais. A

hipersensibilidade de tipo III também está implicada no lúpus

eritematoso (doença inflamatória autoimune crônica).

 

■ Hipersensibilidade de tipo IV

▼ O protótipo da hipersensibilidade de tipo IV (também conhecida

como hipersensibilidade mediada por células ou tardia) é a reação da

tuberculina, que consiste em uma resposta inflamatória local, observada

quando proteínas derivadas de culturas de bacilo da tuberculose são

injetadas na pele de um indivíduo já sensibilizado por uma infecção ou

imunização prévia. Há estimulação de uma resposta imune celular

“inadequada”, acompanhada pela infiltração de células mononucleares e

liberação de várias citocinas. A hipersensibilidade mediada por células

também constitui a base da reação observada em outras infecções (p.

ex., caxumba e sarampo), bem como após a picada de mosquitos e

carrapatos. É igualmente importante nas reações cutâneas a fármacos ou

compostos químicos industriais (ver Capítulo 58), em que esses

compostos químicos (denominados haptenos) se combinam às proteínas

da pele para formar a substância “estranha” indutora da resposta imune

celular (Figura 7.3).