Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 66 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Farmacologia dos fármacos de proteínas e oligonucleotídios

Mecanismos de ação complexos, normalmente de

Relação entre dose e Em geral uma relação entre dose e efeito

ligação de elevada a nidade, taxas de ligação e

efeito previsível

dissociação baixas, curvas D/R com formas pouco usuais

Com frequência administração oral,

Normalmente administração parenteral, elevada

absorção e biodisponilidade variáveis,

Farmacocinética biodisponibilidade, meia-vida longa, biodistribuição e

metabolismo de fase 1 e fase 2, excreção

mecanismos de remoção atípicos

do fármaco na urina ou fezes

Toxicologia e efeitos Variável, interações farmacológicas Imunogenicidade, poucas interações farmacológicas,

adversos possíveis geralmente menos efeitos adversos

 

FARMACOLOGIA DOS FÁRMACOS DE PROTEÍNAS E

OLIGONUCLEOTÍDIOS

Existem diferenças importantes entre as propriedades farmacológicas dos

biofármacos de proteínas e oligonucleotídios e aqueles fármacos

convencionais com pequenas moléculas (Tabela 5.2), atribuíveis em parte à

sua diferença de massa molecular. A maior parte dos fármacos

convencionais tem massas moleculares menores que 1.000 e são em geral

menos de 500 – de fato, acredita-se que este fator seja importante para

alcançar uma distribuição ótima no corpo e para a atividade biológica do

fármaco. Por outro lado, mesmo o menor biofármaco proteico, a insulina,

tem massa molecular de quase 6.000. Os anticorpos normalmente têm

150.000 e os oligonucleotídios cerca de 2.000 a 3.000. Seu tamanho

claramente afeta a absorção e a biodisponibilidade dos biofármacos.

Outro fator de distinção é consequência da sua produção. Os fármacos

convencionais e oligonucleotídios curtos são produzidos por síntese

química total (ocasionalmente parcial), com características idênticas onde

quer que o composto seja fabricado. No entanto, isso não se verifica com

vários biofármacos baseados em proteínas. O sistema de expressão gênica usado para produzir proteínas terapeuticamente ativas difere de uma

empresa para outra – deliberadamente na maior parte dos casos, uma vez

que, ao contrário dos genes em si, é possível patentear as construções de

genes e sistemas de expressão proprietários, permitindo que as

farmacêuticas protejam sua propriedade intelectual. Cada sistema de

expressão produz um produto levemente diferente quanto a pureza,

modificações pós-traducionais e “impressão digital”4 da proteína. Isso tem

consequências importantes para a regulação do fármaco, porque, ao

contrário dos fármacos de pequenas moléculas sintéticos, cada biofármaco é

único, e um ditado comum na indústria de biotecnologia é que “o produto é

o processo”. Em comparação com os fármacos biológicos pioneiros, os

biológicos de entrada subsequente (SEB) ou biológicos de seguimento

(FOB), podem ser bioequivalentes (i. e., fármacos que são intermutáveis

com e terapeuticamente equivalentes à preparação original); mais ainda,

embora ainda terapeuticamente efetivos, eles têm propriedades clínicas

diferentes.5 No entanto, cada um necessita de aprovação reguladora

independente.

Outra questão de fabricação refere-se ao número de passos necessários

para preparar biofármacos. Com a síntese química, podemos avaliar a

pureza exata do produto final, mas as preparações de biofármcos podem

não ser homogêneas e poderiam conter misturas de glicoformas diferentes

da proteína ou, possivelmente, proteínas bacterianas ou endotoxinas. Tal

significa que existe a necessidade de maior controle de qualidade, o que

claramente tem implicações profundas na facilidade de fabricação e no

custo final (Revers e Furzcon, 2010).

Algumas ações de biofármacos assemelham-se às dos fármacos

convencionais: por exemplo, a insulina ou o hormônio do crescimento têm

ações idênticas à do seu hormônio nativo. Mas também existem diferenças. Alguns mAb imunoneutralizam substâncias indesejadas: por exemplo, o

infliximabe neutraliza diretamente a citocina TNF, impedindo-a de

produzir seu efeito terápico. No entanto, outro mAb, rituximabe, liga-se ao

CD20 nos linfócitos e causa destruição das células para diminuir a resposta

imune indesejada. O ibritumomabe tiuxetana também se liga ao CD20,

mas libera 90Y para matar as células.

Em virtude desses diferentes modos de ação, a relação entre dose e

efeito, tão estimada pelos farmacologistas, é muito menos linear. Agoram

(2009) evidencia alguns dos problemas. No caso dos mAb, a ligação de alta

afinidade é usual (por vezes, uma mistura de ligação específica e não

específica), taxas lentas de ligação e dissociação são comuns, e o mAb pode

ser internalizado, modificando, assim, a sua célula-alvo. As relações dose-

resposta são, às vezes, em forma de “sino” ou de “U”. A eritropoetina

recombinante humana tem uma dose-resposta em sino e, no caso de muitos

mAb, existe uma dose ótima única na qual ocorre imunoneutralização

efetiva, em vez dos efeitos proporcionais a que estamos mais acostumados

quando lidamos com fármacos de pequenas moléculas. No caso dos

oligonucleotídios, também existem vários mecanismos de ação diferentes,

como visto anteriormente.

 

Tabela 5.3 Comparação da farmacocinética entre dois

fármacos de pequenas moléculas

convencionais e alguns biofármacos.

 

Tipo Fármaco Via T T Biodisponibilidade V máx 1/2 de doses a Frequência

Fármaco 20 mg

VO 1 por dia 0,7 h 1,5 h < 5% 215 l/kg

convencional sinvastatina

75 mg VO 1 a 2 por dia 2 a 3 h 2 a 3 h > 90% 1,0 l/kg indometacina

25 mg 1 a 2 por

IM 69 h 102 h 58% 6 a 11 l/kg

etanercepte semana

40 mg 1 a cada 2 10 a 20

Biofármaco IM 131 h 64% 4,7 a 6,0 l/kg

adalimumabe semanas dias

75 mg 7 a 8

IM 1 por mês 26 dias 62% 5,5 l/kg

omalizumabe dias

a Via de administração: IM, intramuscular; VO, via oral. Todos os dados aproximados a partir de informação dos fabricantes.

Tmáx, tempo até a concentração plasmática máxima; t1/2, meia-vida; V, volume de distribuição.

 

As diferenças na natureza e dimensões da maior parte dos biofármacos,

quando comparados com fármacos convencionais, também têm implicações

nas suas propriedades farmacocinéticas. Uma vez que as proteínas em geral

não sobrevivem à administração oral, a maior parte é administrada por via

subcutânea, intramuscular ou intravenosa, e, como tal, a biodisponibilidade

é normalmente elevada em comparação com muitos fármacos de pequenas

moléculas, frequentemente na faixa dos 80 a 100%. Contudo, exceto no

caso da administração intravenosa, a absorção do local da injeção é, na

maior parte das vezes, lenta, e o tempo necessário para atingir o T reflete máx

isso. Uma vez na circulação, no entanto, a meia-vida é normalmente longa.

Visto que os anticorpos se ligam ao seu alvo com elevada afinidade, o

volume de distribuição é, em geral, pequeno, mas o tráfego atípico e

transcelular pode redistribuir o fármaco para outros tecidos (Zhao et al.,

2012). Uma comparação da farmacocinética de fármacos de pequenas

moléculas convencionais com vários biofármacos é mostrada na Tabela 5.3.

Os biofármacos não são removidos do corpo após transformação

metabólica e excreção do tipo descrito no Capítulo 10, e, de fato, alguns anticorpos podem persistir na circulação durante semanas. Em vez disso, a

entrada de grandes biofármacos no sistema linfático é o primeiro passo

habitual, seguido de degradação lisossômica. No entanto, alguns

“pequenos” (< 69 kDa) mAb podem ser eliminados diretamente pelo rim. A

imunogenicidade é um assunto que assombrou o desenvolvimento inicial de

proteínas como fármacos, e apesar de isso ter sido amplamente ultrapassado

pela “humanização” dos anticorpos e proteínas, ainda é importante, pois

altera as propriedades farmacocinéticas do fármaco (Richter et al., 1999)

por meio do aumento da sua eliminação da circulação.

As interações farmacológicas são um problema menor com os

biofármacos, tal como problemas de toxicidade gerais e efeitos adversos,

uma vantagem que se reflete na sua aprovação relativamente rápida pelas

agências reguladoras. Em parte, isto se deve à sua extraordinária

especificidade. De fato, poucos fármacos se aproximam mais da ideia de

uma “bala mágica”6 do que os biofármacos, que, devido à especificidade do

sistema imune, conseguem inativar alvos únicos com um grau de precisão

extraordinário. Ironicamente, isso pode causar grandes problemas ao testar

estes fármacos.

 

▼ Em 2006, por exemplo, correu muito mal um ensaio clínico no Reino

Unido de um novo mAb (TGN 1412) desenhado para ativar células T

(ver Capítulo 7) e, portanto, tratar a leucemia linfocítica de células B.

Todos os seis participantes se tornaram gravemente doentes após uma

“tempestade de citocinas” e sofreram lesões de longa duração. O

incidente provocou publicidade generalizada da mídia7 e, embora a

investigação subsequente tenha culpado uma reação biológica

“imprevisível”, essa situação levou a que muitos refletissem

profundamente sobre como esses ensaios deveriam ser conduzidos no

futuro (Muller e Brennan, 2009). Reagentes altamente específicos,