Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 183 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Captura e degradação das catecolaminas

Figura 15.2 Controle do mecanismo de retroalimentação da liberação de

norepinefrina (NE). 2+ O receptor α 2 pré-sináptico inibe o influxo de Ca em resposta à despolarização membranar por meio de uma ação das subunidades βγ da proteína G

associada aos canais de cálcio voltagem-dependentes (ver Capítulo 3).

 

CAPTURA E DEGRADAÇÃO DAS CATECOLAMINAS

A ação da norepinefrina liberada termina principalmente pela captura do

transmissor nas terminações nervosas noradrenérgicas. Parte da

norepinefrina é também sequestrada por outras células da vizinhança. A

epinefrina e a norepinefrina circulantes são degradadas enzimaticamente,

mas muito mais lentamente que a acetilcolina (ver Capítulo 14), em que a

acetilcolinesterase localizada na sinapse inativa o transmissor em

milissegundos. As duas enzimas principais que metabolizam as

catecolaminas estão localizadas intracelularmente; por isso, a captação

pelas células precede necessariamente a degradação metabólica.

 

Captura das catecolaminas

Cerca de 75% da norepinefrina liberada pelos neurônios simpáticos são

capturados e reempacotados dentro de vesículas. Esse processo serve para

encurtar a ação da norepinefrina liberada, assim como para reciclá-la. Os

25% restantes são capturados por células não neuronais nas proximidades,

limitando sua disseminação local. Esses dois mecanismos de captura

dependem de moléculas transportadoras distintas. A captura neuronal é

realizada pelo transportador de norepinefrina presente na membrana

plasmática (geralmente conhecido como NET [do inglês, norepinephrine

transporter], transportador de norepinefrina), que pertence à família das

proteínas transportadoras de neurotransmissores (NET, DAT, SERT etc.),

específicas para os diferentes transmissores aminados, descritos no Capítulo

13. Tais transportadores atuam como cotransportadores de Na+, Cl− e a

amina em questão, utilizando o gradiente eletroquímico para o Na+ como

força motriz. O empacotamento dentro de vesículas ocorre por intermédio

do VMAT, impulsionado pelo gradiente de prótons entre o citosol e o

conteúdo vesicular. A captura extraneuronal é realizada pelo transportador

extraneuronal de monoaminas (EMT; do inglês, extraneuronal monoamine transporter), que pertence a uma grande e amplamente distribuída família

de transportadores de cátions orgânicos (OCT; do inglês, organic cation

transporters – ver Capítulo 9). O NET é relativamente seletivo para

norepinefrina, com alta afinidade e velocidade máxima de captura pequena,

e é importante na manutenção dos estoques liberáveis de norepinefrina. O

NET é bloqueado por fármacos antidepressivos tricíclicos e cocaína. O

EMT tem menor afinidade e maior capacidade de transporte que o NET, e

transporta epinefrina e isoprenalina, bem como norepinefrina. Os efeitos de

vários fármacos importantes que agem em neurônios noradrenérgicos

dependem de sua capacidade ou de inibir o NET ou de entrar na terminação

nervosa com o seu auxílio. A Tabela 15.3 resume as propriedades das

capturas neuronal e extraneuronal.

 

Degradação metabólica das catecolaminas

As catecolaminas endógenas e exógenas são metabolizadas principalmente

por duas enzimas intracelulares: monoamina oxidase (MAO) e catecol-O-

metil transferase (COMT). A MAO (da qual existem duas isoformas

distintas, MAO-A e MAO-B; ver Capítulos 40 e 48) está ligada à

membrana externa das mitocôndrias. Ela é abundante nas terminações

nervosas noradrenérgicas, mas também é encontrada no fígado, no epitélio

intestinal e em outros tecidos. A MAO converte catecolaminas em seus

aldeídos correspondentes3 que, na periferia, são rapidamente metabolizados

pela aldeído desidrogenase ao ácido carboxílico correspondente (a

norepinefrina dá origem ao 3,4-di-hidroxifenilglicol; Figura 15.3). A MAO

pode também oxidar outras monoaminas, dentre as quais, dopamina e 5-HT.

Ela é inibida por vários fármacos, que são usados principalmente por seus

efeitos antidepressivos no SNC (ver Capítulo 48), em que essas três aminas

têm funções transmissoras (ver Capítulo 40). Esses fármacos têm efeitos nocivos importantes, que estão relacionados com distúrbios da transmissão

adrenérgica periférica. No interior dos neurônios simpáticos, a MAO

controla o conteúdo de dopamina e norepinefrina, e o estoque liberável de

norepinefrina aumenta caso a enzima seja inibida. A MAO e seus inibidores

são discutidos com mais detalhes no Capítulo 48.

A segunda mais importante via para o metabolismo de catecolaminas

envolve a metilação, pela COMT, de um dos grupos hidroxila do catecol,

produzindo um derivado metoxi. A COMT está ausente nos neurônios

noradrenérgicos, mas é encontrada na medula da suprarrenal e em muitos

outros tecidos. O produto final formado pela ação sequencial de MAO e

COMT é o 3-metoxi-4-hidroxifenilglicol (MHPG; ver Figura 15.3). Esse

composto é parcialmente conjugado a derivados sulfato ou glicuronídio,

que são eliminados na urina e refletem a liberação de norepinefrina no

cérebro, mas a sua maioria é convertida a ácido vanililmandélico (VMA;

ver Figura 15.3) e eliminada na urina nessa forma. Em pacientes com

tumores do tecido cromafim que secretam essas aminas (uma causa rara de

hipertensão arterial), a eliminação urinária de VMA encontra-se

acentuadamente aumentada, sendo utilizada como teste diagnóstico para

esses tumores.

Na periferia, nem MAO nem COMT são primariamente responsáveis

pelo término da ação do transmissor, e a maior parte da norepinefrina

liberada é rapidamente recaptada pelo NET. As catecolaminas circulantes

são sequestradas e inativadas por uma combinação de NET, EMT e COMT,

e a importância relativa de cada processo varia de acordo com o agente

envolvido. Assim, a norepinefrina circulante é removida principalmente

pelo NET, enquanto a epinefrina é mais dependente do EMT. Entretanto, a

isoprenalina não é substrato para o NET, sendo removida por uma

combinação de EMT e COMT.