Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 510 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fisiopatologia

A interrupção prolongada do suprimento sanguíneo para o cérebro inicia a

cascata de eventos neuronais mostrada na Figura 41.2, que leva, por sua

vez, a consequências mais tardias, incluindo edema e inflamação cerebrais,

que também podem contribuir para a lesão cerebral. Lesão adicional pode

ocorrer após a reperfusão,4 por causa da produção de ERO, quando a

oxigenação é restaurada. A lesão pela reperfusão pode ser um componente

importante nos pacientes com AVE. Esses processos secundários

geralmente levam horas para se desenvolver, oferecendo uma janela de

oportunidade para a intervenção terapêutica. A lesão produzida pela oclusão

de uma importante artéria cerebral consiste em uma região central na qual

os neurônios sofrem rapidamente necrose irreversível, circundada por uma

penumbra de tecido comprometido, no qual a inflamação e a morte celular

apoptótica se desenvolvem, no período de várias horas. Presume-se que o

tratamento neuroprotetor oferecido em algumas horas possa inibir essa

lesão secundária na área de penumbra.

A excitotoxicidade do glutamato desempenha um papel crítico na

isquemia cerebral. A isquemia causa despolarização dos neurônios e a

liberação de grandes quantidades de glutamato. Ocorre acúmulo de Ca2+,

parcialmente como resultado da ação do glutamato nos receptores NMDA,

e tanto a entrada de Ca2+ quanto a morte celular seguida de isquemia são

inibidas pelos fármacos que bloqueiam os receptores ou canais NMDA (ver

Capítulo 39). O NO também é produzido em quantidades muito maiores

que as resultantes da atividade neuronal normal (i. e., em níveis que são

tóxicos, em vez de moduladores).

 

ENFOQUES TERAPÊUTICOS

O único fármaco aprovado para o tratamento de AVE é o ativador do

plasminogênio tecidual recombinante, alteplase, administrado por via

intravenosa, que ajuda a restaurar o fluxo sanguíneo pela dissolução do

trombo (ver Capítulo 25). Testes clínicos mostraram que ele não reduzia a

mortalidade, mas trouxe benefício funcional significativo para os pacientes

que sobreviveram. Para ser eficaz, ele tem de ser administrado em cerca de

4,5 horas desde o início do evento trombótico. Além disso, ele não deve ser

administrado nos 15% dos casos em que a causa é a hemorragia e não a

trombose; portanto, é essencial a realização de tomografia computadorizada

(TC). Essas exigências limitam gravemente a utilização dos agentes

fibrinolíticos para o tratamento de AVE, exceto quando instalações de

resposta rápida especializada estão disponíveis. A utilização de dispositivos

de resgaste de coágulos intra-arteriais (trombectomia mecânica), em

combinação com alteplase, revelou benefícios maiores, e esta tecnologia

está sendo lançada nos centros especializados de tratamento agudo do AVE.

Um enfoque alternativo seria o uso de agentes neuroprotetores, em

busca da recuperação das células na região de penumbra da lesão, que, de

outra forma, provavelmente morrerão. Nos modelos animais envolvendo

oclusão de artéria cerebral, muitos fármacos, visando aos mecanismos

mostrados na Figura 41.2 (para não mencionar muitos outros que foram

testados com base em teorias mais estratosféricas), agem dessa maneira

para reduzir o tamanho do infarto. Estes incluem antagonistas do glutamato,

inibidores dos canais de cálcio e sódio, removedores dos radicais livres,

fármacos anti-inflamatórios, inibidores das proteases e outros (Green,

2008). Aparentemente, quase tudo funciona nesses modelos animais. No

entanto, nenhum dos fármacos testados em mais de 100 ensaios clínicos foi

eficaz. A lista desanimadora de fracassos inclui os bloqueadores dos canais

de cálcio e sódio (p. ex., nimodipino, fosfenitoína), antagonistas do receptor NMDA (selfotel, eliprodil, dextrometorfano), fármacos que

inibem a liberação de glutamato (análogos da adenosina, lubeluzol),

fármacos que exacerbam os efeitos do GABA (p. ex., clormetiazol),

antagonistas 5-HT, quelantes metálicos e vários removedores de radicais

livres (p. ex., tirilazade). Há esperança de que os antagonistas de receptores

mGlu1 ou os moduladores alostéricos negativos possam ser efetivos no

tratamento da lesão isquêmica cerebral, mas as coisas têm estado calmas

nesta frente ultimamente.

Os ensaios clínicos controlados nos pacientes com AVE são

problemáticos e muito dispendiosos, parcialmente por causa da grande

variabilidade de desfechos em termos de recuperação funcional, o que

significa que grandes grupos de pacientes (em geral, milhares) precisam ser

observados por vários meses. A necessidade de começar o tratamento em

algumas horas desde o início da crise é um problema adicional.

O tratamento do AVE não é, certamente, pelo menos até agora, uma

história de sucesso farmacológico, e as esperanças médicas concentram-se

mais na prevenção (p. ex., controlando a pressão sanguínea, administrando

ácido acetilsalicílico, estatinas ou ticagrelor para evitar a aterosclerose

[ver Capítulo 25]) do que no tratamento.5

Uma área promissora é a utilização de doses subanestésicas de xenônio,

o qual tem propriedades antagonistas do receptor NMDA (ver Capítulo 42),

em combinação com hipotermia para tratar lesões cerebrais induzidas por

hipoxia em recém-nascidos (Esencan et al., 2013).