Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 592 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Efeitos tróficos e neuroplasticidade

Sugere-se que a redução dos níveis do fator neurotrófico derivado do

cérebro (BDNF; do inglês, brain-derived neurotrophic factor) ou o mau

funcionamento de seu receptor, TrkB, desempenhem papel importante na

patologia da depressão. O comportamento depressivo está geralmente

associado à redução da expressão de BDNF, e o tratamento com

antidepressivos eleva esses níveis. A glicogênio sintase quinase 3 (GSK3β)

tem sido implicada na patogênese da depressão, após a sua identificação

como alvo da terapia estabilizadora do humor com lítio (p. 620).

Alterações na transmissão glutamatérgica também podem estar

envolvidas na depressão. Foi observado que os indivíduos que sofrem de

depressão apresentam elevados níveis corticais de glutamato. O tratamento

antidepressivo pode reduzir a liberação do glutamato e deprimir a função do

receptor NMDA. De fato, a cetamina, um antagonista NMDA, tem

atividade antidepressiva (p. 618). Os efeitos dos antidepressivos na indução

da potencialização a longo prazo (LTP; ver Capítulo 39) nas sinapses

glutamatérgicas no hipocampo são complexos – tanto a depressão quanto a

facilitação têm sido observadas e podem ocorrer rapidamente após a

administração de antidepressivos.

Outra visão (Racagni e Popoli, 2008) é que a depressão maior se associa

à perda neuronal em hipocampo e córtex pré-frontal, e que as terapias

antidepressivas de diferentes tipos atuam por inibirem ou realmente

reverterem essa perda por estimularem a neurogênese.1 Essa ideia

surpreendente é apoiada por várias linhas de evidências:

 

• Estudos do cérebro por imagens e post mortem mostram aumento

ventricular e encolhimento do hipocampo e do córtex pré-frontal em

pacientes depressivos, com perda de neurônios e de glia. Imagens

funcionais revelam redução da atividade neuronal nessas regiões • Em animais, produz-se o mesmo efeito pelo estresse crônico de vários

tipos ou pela administração de glicocorticoides, simulando o aumento

da secreção de cortisol na depressão humana. A secreção excessiva de

glicocorticoides (síndrome de Cushing; ver Capítulo 34) costuma causar

depressão

• Em animais experimentais, os antidepressivos, ou outros tratamentos,

como as eletroconvulsões (ver seção adiante, Terapias de estimulação

cerebral), promovem neurogênese nessas regiões e (assim como em

seres humanos) restauram a atividade funcional. Impedir a neurogênese

hipocampal evita os efeitos comportamentais dos antidepressivos em

ratos

• A 5-HT e a norepinefrina, cujas ações são intensificadas por muitos

antidepressivos, promovem neurogênese provavelmente por meio da

ativação dos receptores 5-HT1A e dos receptores α2-adrenérgicos,

respectivamente. Esse efeito pode ser mediado pelo BDNF

• Foi demonstrado que exercícios podem promover a neurogênese em

animais e ser eficazes em alguns pacientes com depressão leve a

moderada.