Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 541 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Modulação na via nociceptiva

apresentem atividade antiemética (ver Capítulo 31).

 

Figura 43.1 Ativação dos neurônios nociceptivos. Diferentes estímulos (físicos e químicos), alguns mostrados aqui, podem iniciar ou aumentar a taxa de disparo de potencial de ação nos neurônios aferentes primários nociceptivos (i. e., induzir dor). Essas fibras aferentes projetam-se para o corno dorsal da medula espinal, onde fazem sinapse nos neurônios que se projetam para os centros superiores. 5-HT, 5-hidroxitriptamina; CGRP, peptídio relacionado com o gene da calcitonina; GRD, gânglio da raiz dorsal; NGF, fator de crescimento neuronal. (Adaptada de Julius, D., Basbaum, A.I., 2001. Nature 413, 203-210.)

 

MODULAÇÃO NA VIA NOCICEPTIVA

A dor resultante de traumatismo, inflamação ou câncer, em geral, é bem

explicada no que se refere à nocicepção – estímulo nociceptivo excessivo

originando sensação intensa e desagradável. Diferentemente, os estados

dolorosos neuropáticos associam-se a aberrações da via fisiológica normal,

dando origem a hiperalgesia (aumento da intensidade da dor associada a

estímulo nocivo leve) e alodinia (dor provocada por estímulo não nocivo).

Alguns dos principais mecanismos encontram-se resumidos na Figura 43.3. Hiperalgesia e alodinia

▼ Qualquer pessoa que tenha sofrido uma queimadura ou um entorse de

tornozelo experimentou hiperalgesia e alodinia. A hiperalgesia envolve

sensibilização das terminações nervosas nociceptivas periféricas e

facilitação central da transmissão no nível do corno posterior e do

tálamo. O componente periférico deve-se à ação de mediadores como a

bradicinina e as prostaglandinas atuando sobre as terminações nervosas.

O componente central reflete a facilitação da transmissão sináptica no

corno posterior da medula espinal (Yaksh, 1999). As respostas

sinápticas dos neurônios do corno posterior aos estímulos nociceptivos

exibem o fenômeno de somação temporal tipo wind-up

(“espalhamento”) – ou seja, os potenciais sinápticos aumentam

constantemente em amplitude com cada estímulo – quando estímulos

repetidos chegam a frequências fisiológicas. Esta facilitação de

transmissão dependente de atividade tem características em comum com

o fenômeno de potencialização a longo prazo, o que é descrito no

Capítulo 39, e os mecanismos químicos subjacentes a isso também

podem ser semelhantes. No corno posterior, a facilitação é bloqueada

por antagonistas e também, em parte, por antagonistas da substância P e

por inibidores da síntese do óxido nítrico (NO) (ver Figuras 43.2 e

43.3).

Figura 43.2 Efeito do glutamato e de antagonistas da substância P sobre a

transmissão nociceptiva na medula espinal de rato. A pata de rato é inflamada por irradiação ultravioleta 2 dias antes do experimento, procedimento este que induz hiperalgesia e facilitação na medula espinal. A resposta sináptica foi registrada a partir da raiz anterior em resposta à estimulação de fibras C na raiz posterior com estímulos únicos (A) ou estímulos repetitivos (B). São mostrados os efeitos do antagonista do receptor

NMDA D-AP-5 (ver Capítulo 39) e do antagonista da substância P RP 67580 (seletivo para receptores de neurocinina tipo 2, NK ). O componente lento da resposta sináptica é 2 reduzido pelos antagonistas (A), assim como a expansão temporal (wind-up) da resposta à estimulação repetitiva (B). Estes efeitos são muito menos pronunciados no animal normal. Desse modo, o glutamato, atuando sobre receptores NMDA, e a substância P, atuando sobre os receptores NK , envolvem-se na transmissão nociceptiva, e sua contribuição 2

aumenta em decorrência da hiperalgesia inflamatória. (Registros gentilmente fornecidos por L. Urban e S.W. Thompson.)

 

Figura 43.3 Resumo dos mecanismos modulatórios na via nociceptiva. 5-HT, 5-hidroxitriptamina; BK, bradicinina; CGRP, peptídio relacionado com o gene da calcitonina; IL-1β, interleucina 1β; NE, norepinefrina; NGF, fator de crescimento neural; NO, óxido nítrico; AINE, anti-inflamatório não esteroide; PG, prostaglandina; SP, substância P; TNF-α, fator de necrose tumoral α.

 

A substância P e o CGRP liberados dos neurônios aferentes primários

(ver Figura 43.1) também atuam na periferia, promovendo inflamação

por seus efeitos sobre os vasos sanguíneos e células do sistema imune

(ver Capítulo 19). Este mecanismo, conhecido como inflamação

neurogênica, amplifica e sustenta a reação inflamatória e a ativação de

fibras aferentes nociceptivas que a acompanha.

A facilitação central é um componente importante da hiperalgesia

patológica (p. ex., aquela associada a respostas inflamatórias). Os

mediadores responsáveis pela facilitação central incluem substância P,

CGRP, fator de crescimento neural (NGF; do inglês, nerve growth

factor), fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF; do inglês, brain-

derived neurotrophic factor) e NO, bem como muitos outros. Por

exemplo, NGF, um mediador semelhante às citocinas produzido pelos

tecidos periféricos, particularmente na inflamação, atua no receptor

associado às quinases (conhecido como TrkA) sobre os neurônios

aferentes nociceptivos, aumentando sua excitabilidade elétrica, a

quimiossensibilidade e o conteúdo de peptídios e também promovendo

a formação de contatos sinápticos. O aumento da produção de NGF

pode ser importante mecanismo pelo qual a transmissão nociceptiva

torna-se facilitada na lesão tecidual, levando à hiperalgesia (Mantyh et

al., 2011). Aumento da expressão genética nos neurônios sensitivos é

induzido por NGF e outros mediadores inflamatórios; os genes

suprarregulados incluem os genes para neuropeptídios e

neuromoduladores (p. ex., CGRP, substância P e BDNF), assim como

para os receptores (p. ex., potencial de receptor transitório TRPV1 e o

receptor de ATP P2X) e canais de sódio, e têm o efeito global de

facilitar a transmissão na primeira retransmissão sináptica no corno

posterior. O BDNF liberado das terminações nervosas aferentes

primárias ativa o receptor associado às quinases TrkB nos neurônios

pós-sinápticos do corno dorsal que levam à fosforilação dos receptores

de glutamato e da subunidade GluN1 do receptor NMDA e, portanto, à

sua sensibilização, o que resulta na facilitação sináptica no corno

posterior.

A excitação dos neurônios nociceptivos sensoriais depende, assim como

em outros neurônios (ver Capítulo 4), de canais de sódio dependentes de

voltagem. Indivíduos que expressam mutações não funcionais em

Nav1.7 são incapazes de vivenciar dor. A expressão e/ou atividade de

certos subtipos de canais de sódio (p. ex., canais Nav1.3, Nav1.7, Nav1.8

e Nav1.9) está aumentada nos neurônios sensitivos em diversos estados

fisiológicos de dor, e o aumento de sua atividade é a base para a

sensibilização a estímulos externos que ocorrem na dor inflamatória e

na hiperalgesia (para mais detalhes sobre os canais de sódio

dependentes de voltagem, ver Capítulo 4). Consistente com essa

hipótese é o fato de que muitos fármacos antiepilépticos e

antiarrítmicos, os quais atuam por meio do bloqueio dos canais de sódio

(ver Capítulos 22 e 46), também encontram aplicação como analgésicos.

 

Transmissão da dor para os centros superiores

Do corno posterior, os axônios ascendentes nervosos trafegam pelos tratos

espinotalâmicos contralaterais e fazem sinapse com neurônios presentes

principalmente nas partes anterior e medial do tálamo, a partir das quais

existem outras projeções para o córtex somatossensorial. No tálamo medial

em particular, muitas células respondem especificamente a estímulos nociceptivos na periferia, e as lesões nessa área causam analgesia. Estudos

funcionais do cérebro por imagens em indivíduos conscientes foram

realizados para localizar as regiões envolvidas no processamento da dor.

Estes incluem áreas sensitivas e discriminatórias, como o córtex

somatossensorial primário e secundário, tálamo e partes posteriores da

ínsula, assim como áreas afetivas, áreas cognitivas, como porções anteriores

da ínsula, córtex cingulado anterior e córtex pré-frontal (Apkarian et al.,

2013).

 

Controles inibitórios descendentes

As vias descendentes (Figura 43.4) controlam a transmissão de impulsos no

corno posterior. Uma parte-chave deste sistema descendente é a área

cinzenta periaquedutal (CPA) do mesencéfalo, pequena área de substância

cinzenta que envolve o canal central. Em 1969, Reynolds verificou que a

estimulação elétrica dessa área cerebral no rato causava analgesia

suficientemente intensa para que pudesse ser realizada cirurgia abdominal

sem anestesia e sem desencadear qualquer resposta acentuada. As respostas

a estímulos não dolorosos não eram afetadas. A CPA recebe impulsos de

muitas outras regiões cerebrais, inclusive do hipotálamo, amígdala e córtex,

sendo a principal via através da qual impulsos corticais e outros atuam

sobre o controle da “comporta” (gate) no corno posterior.

A CPA projeta-se primeiramente para o bulbo rostroventral (RVM; do

inglês, rastroventral medulla) e, daí, através do funículo posterolateral da

medula espinal, para o corno posterior. Dois transmissores importantes

nesta via são a 5-hidroxitriptamina (5-HT; serotonina) e a encefalina, que

atuam, diretamente ou por meio de interneurônios, inibindo a descarga de

neurônios espinotalâmicos (ver Figura 43.4).

A via inibitória descendente provavelmente é local importante de ação

para analgésicos opioides. CPA e SG são particularmente ricas em

neurônios contendo encefalina, e os antagonistas de opioides, como a

naloxona (p. 549), podem impedir a analgesia induzida pela estimulação de

CPA, o que sugeriria que os peptídios opioides endógenos podem funcionar

como transmissores nesse sistema. O papel fisiológico dos peptídios

opioides em regular a transmissão da dor tem sido controverso,

principalmente porque, sob condições normais, a naloxona tem

relativamente pouco efeito sobre o limiar de dor. Sob condições

patológicas, contudo, quando o estresse está presente, a naloxona causa

hiperalgesia, significando que o sistema de opioides está ativo.

Os interneurônios no corno dorsal liberam GABA (ver Capítulo 39),

que inibe a transmissão pelos terminais primários aferentes.

Também existe uma via noradrenérgica a partir do locus coeruleus (LC;

ver Capítulo 40), a qual apresenta efeito inibitório semelhante sobre a

transmissão no corno dorsal. Surpreendentemente, os opioides inibem esta

via, em vez de ativá-la. A utilização de antidepressivos tricíclicos para o

controle da dor (p. 559) provavelmente depende da potencialização dessa

via.

Acredita-se que as vias purinérgicas inibitórias descendentes possam

liberar adenosina nos receptores A1 nos neurônios do corno dorsal e, dessa forma, produzir analgesia.

 

Analgesia placebo

A analgesia placebo é o fenômeno de sensação reduzida da dor quando o

sujeito acredita ter recebido um fármaco que suprime a dor, quando na

verdade nenhum fármaco foi administrado. É, com frequência, um efeito

substancial que apresenta problemas nos ensaios clínicos de fármacos analgésicos. A analgesia placebo é reduzida pela administração de um

antagonista de opioides como a naloxona, indicando que envolve a

liberação de peptídios opioides endógenos. O exame de imagens do cérebro

mostrou que a resposta placebo resulta de alterações na atividade neuronal

no córtex pré-frontal e CPA, resultando na ativação das vias inibitórias

descendentes para a medula espinal para suprimir o processo da informação

da dor.

Figura 43.4 Sistema de controle descendente da dor e locais de ação dos opioides

para alívio da dor. Os opioides induzem analgesia quando microinjetados no córtex insular (CI), amígdala (A), hipotálamo (H), região cinzenta periaquedutal (CPA) e bulbo rostroventral (RVM), assim como dentro do corno dorsal da medula espinal. A CPA recebe o estímulo dos centros superiores e é o principal centro de débito do sistema límbico. Ela se projeta para a RVM. Da RVM, as fibras inibitórias descendentes, algumas das quais contêm 5-hidroxitriptamina, se projetam para o corno dorsal da medula espinal. As áreas sombreadas em rosa indicam as regiões que expressam os receptores opioides . As vias ilustradas neste diagrama encontram-se muito simplificadas. (Adaptada de Fields, H., 2001. Prog. Brain Res. 122, 245-253. Para abordagem completa das vias descendentes de modulação da dor, ver. Todd e Koerber, 2013.)

 

A expectativa também pode modificar a resposta quando um fármaco

analgésico é administrado. Os indivíduos que receberam uma infusão

intravenosa de remifentanila, um analgésico opioide, mostraram maior

alívio da dor quando foram informados de que estavam recebendo o

fármaco do que quando o fármaco foi administrado sem eles saberem

(Bingel et al., 2012). Ainda mais surpreendente foi a observação de que,

quando os indivíduos receberam a mesma dose de remifentanila, mas lhes

foi dito que a infusão era de uma substância que iria aumentar a dor, eles

não mostraram resposta analgésica ao opioide.