Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 406 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Novos enfoques da terapia da obesidade

Usos clínicos dos fármacos antiobesidade

 

• O principal tratamento da obesidade é dieta adequada e aumento dos exercícios

• O orlistate, que causa má absorção de gordura, é usado em conjunto com restrição

dietética em indivíduos obesos e também em pacientes com excesso de peso que tenham

fatores de risco cardiovascular adicionais (p. ex., diabetes melito, hipertensão)

– A terapia com orlistate deve ser interrompida após 12 semanas se o paciente não

tiver sido capaz de perder pelo menos 5% do seu peso corporal desde o início do

tratamento

• Muitos supressores do apetite que atuam centralmente (p. ex., fen uramina, sibutramina)

têm sido retirados do mercado por causa de dependência, hipertensão pulmonar ou

outros efeitos adversos graves

• A cirurgia gastrintestinal (“bariátrica”) para a obesidade in uencia a secreção de incretina

e é efetiva na obesidade acentuada.

 

NOVOS ENFOQUES DA TERAPIA DA OBESIDADE

Como se pode imaginar, a busca por agentes antiobesidade mais eficazes é

alvo de esforços prodigiosos por parte da indústria farmacêutica. Casos

raros de deficiência de leptina tiveram sucesso com tratamento a longo

prazo com esse hormônio, mas é provável que seu uso seja mais que

limitado no futuro. Diante disso, muitos outros enfoques estão sendo

tentados (Kang e Park, 2012). Alguns visam explorar a ação ou a produção

de sinais de saciedade neuroendócrina, como a CCK, para produzir

supressão do apetite. Muitos desses hormônios de saciedade do TGI

produzem tais efeitos quando administrados sistematicamente em seres

humanos ou roedores, embora nem sempre sejam úteis; por exemplo, a

CCK reduz o tamanho da refeição, mas aumenta a frequência (West et al., 1984). Os peptídios do tipo glucagon, como a liraglutida, que é utilizada

para tratar o diabetes melito tipo 2 (ver Capítulo 32), têm também ações

anoréxicas (Astrup et al., 2009) e foram aprovados nos EUA para o

tratamento da obesidade (por injeção apenas). Outros peptídios testados

incluem análogos de amilina, oxintomodulina e de leptina e antagonistas

NPY. Até a vacinação contra grelina ou somatostatina tem sido sugerida

como uma estratégia terapêutica (Bhat et al., 2017).

Outras estratégias visam alterar os níveis de neurotransmissores no

SNC, como o NPY ou as melanocortinas, que transduzem sinais hormonais

normais, regulando o apetite (Halford, 2006). A possibilidade de tratamento

do próprio receptor MC 4 como alvo medicamentoso, juntamente com a

observação de que defeitos na sinalização de MC 4 são prevalentes na obesidade, tem atraído muito interesse da indústria farmacêutica.

Devido à importância do sistema nervoso simpático no controle da

regulação energética, pode-se prever que os agonistas dos receptores β3-adrenérgicos possam ser úteis. No entanto, de modo decepcionante, apesar

de terem sido investigados extensivamente (Arch, 2008), até o momento

eles falharam em produzir uma vantagem terapêutica aceitável. Em

contraste, o sistema serotoninérgico continua diretamente no quadro para o

desenvolvimento de agentes antiobesidade adicionais (Oh et al., 2016).

Kang e Park (2012) destacam o valor da combinação de terapias que

visam às vias complexas envolvidas na regulação do apetite. A maioria das

terapias farmacológicas é muito mais eficaz quando usada em conjunto com

modificações do estilo de vida e de outros comportamentos. A importância

dessa abordagem conjunta foi resumida por Vetter et al. (2010).

Em resumo, no momento em que este livro é escrito, é desanimador

relatar que o número de fármacos licenciados para utilização na obesidade,

pelo menos no Reino Unido, parece ser inversamente proporcional à magnitude crescente dos problemas de saúde associados. Em alguns outros

países, como os EUA, a situação é um pouco melhor (Daneschvar et al.,

2016), embora tenha havido algum debate sobre quão útil este último grupo

de fármacos irá realmente provar ser (Kim, 2016). No seu todo, é

deprimente que, apesar de todo o trabalho inovador no controle

neuroendócrino da alimentação e perda de peso, tão poucos novos fármacos

tenham realmente encontrado o seu percurso no mercado. A ausência de

sucesso sustentado com as terapias farmacológicas conduziu à emergência

da cirurgia bariátrica como a opção mais promissora a longo prazo para

reduzir complicações, tais como hipertensão e diabetes melito, em pacientes

com obesidade grave.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Regulação do peso corporal e da obesidade

Adan, R.A., Vanderschuren, L.J., la Fleur, S.E., 2008. Anti-obesity drugs and neural circuits of

feeding. Trends Pharmacol. Sci. 29, 208–217. (Visão geral bem acessível sobre essa área.

Recomendado)

Ahima, R.S., Osei, S., 2001. Molecular regulation of eating behaviour: new insights and prospects

for future strategies. Trends Mol. Med. 7, 205–213. (Revisão sucinta e louvável; com figuras

excelentes e tabelas úteis dos mediadores envolvidos na estimulação e inibição do

comportamento alimentar)

Barsh, G.S., Farooqi, I.S., O’Rahilly, S., 2000. Genetics of body-weight regulation. Nature 404, 644–

651.

Colditz, G.A., Willett, W.C., Rotnitzky, A., Manson, J.E., 1995. Weight gain as a risk factor for

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Neuroendocrine regulation of metabolism. J. Neuroendocrinol. 28, 1–12. (Uma contribuição

legível dos desenvolvimentos mais recentes no campo do controle neuroendócrino do apetite e

alimentação. Cobre algum material não incluído aqui. Recomendado)

Duranti, S., Ferrario, C., van Sinderen, D., Ventura, M., Turroni, F., 2017. Obesity and microbiota: an

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na obesidade)

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papel da leptina no controle do comportamento alimentar e controle do peso)

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ratos, a ideia de que há um mecanismo homeostático localizado no hipotálamo para o controle

da gordura corporal)

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tenham mostrado estar associadas com a obesidade humana)

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404, 661–671. (Resumo de um modelo que apresenta os papéis dos hormônios e neuropeptídios

no controle da ingestão de alimentos. Diagramas extraordinários. Observe que há vários outros

artigos excelentes sobre a obesidade nesse suplemento da Nature Insight)

Spiegelman, B.M., Flier, J.S., 1996. Adipogenesis and obesity: rounding out the big picture. Cell 87,

377–389.

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(Excelente revisão sobre o controle do SNC no suprimento energético/peso corporal, obesidade

monogênica, fisiologia da leptina, circuitos neurais centrais, da via da melanocortina, do papel

da insulina e da termogênese adaptativa)

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Arch. Pharmacol. 378, 225–240. (Uma revisão abrangente que se concentra na demanda por

fármacos antiobesidade que atuam por intermédio de receptores adrenérgicos β . Comentários e 3

perspectivas úteis no domínio como um todo)

Astrup, A., Rossner, S., Van Gaal, L., et al.; NN8022-1807 Study Group, 2009. Effects of liraglutide

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potenciais agentes antiobesidade. Inclui hormônios e outros agentes)

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potenciais e figuras simples e úteis das vias centrais e periféricas da regulação da energia e da

regulação da termogênese)

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J. Clin. Pharmacol. 51, 13–25. (Visão geral – de uma perspectiva clínica – dos fármacos contra a

obesidade atualmente disponíveis e dos futuros fármacos potenciais; bem escrita)

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abordagens farmacológicas do tratamento da obesidade necessitam alterar o equilíbrio entre o

suprimento e o consumo energéticos e/ou alterar a divisão dos nutrientes entre tecido magro e

gordura)

Curran, M.P., Scott, L.J., 2004. Orlistat: a review of its use in the management of patients with

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aprovados recentemente pela FDA para o tratamento da obesidade. Cobre a maior parte da

farmacologia destes fármacos. Útil)

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Neurosci. 8, 585–589. (Uma discussão do papel putativo de endocanabinoides neste complexo

mecanismo fisiológico; considera também aplicações terapêuticas surgindo nesta área)

Halford, J.C., 2006. Obesity drugs in clinical development. Curr. Opin. Invest. Drugs 7, 312–318. Kang, J.G., Park, C.Y., 2012. Anti-obesity drugs: a review about their effects and safety. Diabetes

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para a obesidade)

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bastante crítico sobre alguns fármacos candidatos recentes que aponta para uma perda de peso

média de apenas 3 a 10% do peso inicial, em alguns casos)

Oh, C.M., Park, S., Kim, H., 2016. Serotonin as a new therapeutic target for diabetes mellitus and

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HT na regulação periférica do metabolismo dos tecidos e do seu potencial de exploração para

futuros agentes antiobesidade)

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Vetter, M.L., Faulconbridge, L.F., Webb, V.L., Wadden, T.A., 2010. Behavioral and pharmacologic

therapies for obesity. Nat. Rev. Endocrinol. 6, 578–588. (Esta avaliação salienta a importância

de mudanças de estilo de vida em combinação com a terapia medicamentosa para combater a

obesidade)

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Wilding, J.P.H. (Ed.). 2008. Pharmacotherapy of obesity. In: Parnham, M.J., Bruinvels, J. (Eds.),

Milestones in Drug Therapy. Birkhäuser, Basle. (Este livro cobre uma grande variedade de

tópicos associados à obesidade e ao seu tratamento. Os colaboradores são especialistas nesse

campo)

Recursos úteis na web

www.who.int. (Web page da OMS que traz dados sobre a prevalência da “globesidade” e sua

distribuição pelo mundo; clique no link “Health Topics” e navegue até “Obesity” na lista

alfabética de tópicos, para obter mais informações)

www.cdc.gov. (Essa é a página Web do Center for Disease Control and Prevention nos EUA. Há

uma ligação para uma lista de tópicos de saúde, na qual se pode selecionar “Obesidade”) ____________

1 “Pessoas que são naturalmente muito gordas podem morrer mais cedo que

aquelas que são mais magras”, observou Hipócrates.

2 A palavra é derivada do grego leptos, que significa magro.

3 A linguagem pode ser confusa. “Fome”, obviamente, refere-se à vontade

de comer. “Satisfação” é a sensação de ter comido o suficiente durante uma

refeição. “Saciedade” é a sensação, depois de uma refeição, de que ainda

não necessita de outra.

4 Assim denominados porque a administração de cocaína ou anfetamina

estimula a transcrição desse gene. Sua expressão no hipotálamo está

relacionada com o estado nutricional implicado no controle do apetite. Seu

receptor não é conhecido, mas, provavelmente, modula a ação do NPY e da

leptina.

5 Esse feito é responsável pela “larica” (aumento voraz do apetite), um dos

efeitos adversos comuns de fumar Cannabis.

6 Até o tipo de flora intestinal vem sendo minuciosamente estudado como

potencial fator determinante da obesidade (Duranti et al., 2017). A noção de

que isso poderia ser suplementado com “probióticos” para modificar o risco

tem atraído atenção. Holy shit! foi o título de um artigo de uma revista

sobre o assunto (The Economist, 12 de novembro de 2009).

7 Em outras palavras, um trecho de DNA que se correlaciona ao

desenvolvimento de obesidade e que, portanto, provavelmente contém – ou

está ligado a – um gene relevante.

8 Tal como o apresentador Bynum disse: “A cada minuto nasce um otário…

e alguém para o enganar”… tiroxina (para aumentar a taxa metabólica, ver

Capítulo 35), engolir parasitos (vermes intestinais competem pela comida

ingerida), anfetaminas (ver Capítulo 59), fármacos que causam má absorção, desse modo vazando gordura pelo reto (ver mais adiante neste

capítulo)… realmente!

9 Foi relatado que o DNP era administrado aos soldados russos durante a

Segunda Guerra Mundial, para mantê-los aquecidos.

10 Muitos fármacos antidepressivos atuam por meio do mesmo mecanismo

(ver Capítulo 48) e também causam perda de peso pela redução do apetite.

Entretanto, a sibutramina não apresenta propriedades antidepressivas. Além

disso, pacientes depressivos geralmente são obesos, e os fármacos

antidepressivos são utilizados para tratar ambas as condições (Appolinario

et al., 2004).

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