Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 670 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Função e histórico dos vírus

retrovírus (AIDS, leucemia de células T), arenavírus (meningite, febre

Lassa), hepadnavírus (hepatite sérica) e arbovírus (várias doenças

transmitidas por artrópodes, como, por exemplo, encefalite e febre

amarela).

 

FUNÇÃO E HISTÓRICO DOS VÍRUS

Os vírus não contam com um sistema metabólico próprio, portanto, para se

replicar, eles primeiro devem se ligar – e penetrar – à célula de um

hospedeiro vivo (animal, planta ou bactéria) e sequestrar os processos

metabólicos da própria vítima para se replicar. A primeira etapa desse

processo é facilitada pelos locais de ligação polipeptídica no envelope ou

capsídio, interagindo com os receptores na célula do hospedeiro. Esses

“receptores” são constituintes normais da membrana; por exemplo,

receptores para citocinas, neurotransmissores ou hormônios, canais iônicos,

glicoproteínas integrantes da membrana etc. Alguns exemplos estão listados

na Tabela 53.1.

Após a ligação, o complexo vírus-receptor entra na célula, muitas vezes

por via de endocitose mediada por receptores (embora alguns vírus não

utilizem esta via). O invólucro nuclear é removido pelas enzimas celulares

do hospedeiro (frequentemente de natureza lisossômica), e o vírion é

desmantelado. Isso é conhecido como fase eclipse da infecção viral, porque

as partículas do vírus já não podem ser detectadas. No interior da célula do

hospedeiro, o ácido nucleico viral é liberado e depois utiliza a maquinaria

da célula hospedeira para sintetizar ácidos nucleicos e proteínas. Estas são

subsequentemente montadas, originando novas partículas virais, e liberadas

da célula durante a fase de derramamento (ou brotamento). A forma como

isso acontece difere entre vírus de DNA e de RNA.

 

■ Replicação dos vírus de DNA

O DNA entra no núcleo da célula do hospedeiro (e pode incorporar-se no

DNA do hospedeiro), em que a transcrição em mRNA ocorre catalisada

pela RNA-polimerase da célula do hospedeiro. Ocorre, então, a translação

do mRNA em proteínas virais específicas. Algumas dessas proteínas são

enzimas que sintetizam mais DNA viral, bem como proteínas estruturais

que compõem a capa e o envelope virais. Após a montagem de cobertura de

proteínas em torno do DNA viral, os vírions completos são liberados por

derramamento ou após lise da célula hospedeira.

 

■ Replicação dos vírus de RNA

As enzimas dentro do vírion sintetizam seu mRNA a partir do modelo de

RNA viral (algumas vezes, o RNA viral funciona como seu próprio

mRNA). Isso é traduzido pela célula do hospedeiro em várias enzimas,

incluindo a RNA-polimerase (que dirige a síntese de mais RNA viral), e

também em proteínas estruturais do vírion. A montagem e a liberação dos

vírions ocorrem, então, como explicado anteriormente. Em geral, o núcleo

da célula do hospedeiro não está envolvido na replicação dos vírus de RNA,

embora alguns (p. ex., ortomixovírus) repliquem-se exclusivamente no

interior do compartimento nuclear do hospedeiro.

Figura 53.1 Diagrama esquemático dos componentes de uma partícula viral ou

vírion.

 

Tabela 53.1 Algumas estruturas celulares do hospedeiro

que podem funcionar como receptores para os

vírus.

 

Estrutura celular do hospedeiro a Vírus

Glicoproteína dos linfócitos T-helper CD4 HIV (causando AIDS)

Receptor CCR5 para quimiocinas MCP-1 e RANTES HIV (causando AIDS)

Receptor da quimiocina CXCR4 para a citocina SDF-1 HIV (causando AIDS)

Receptor de acetilcolina no músculo esquelético Vírus da raiva

Receptor de linfócito B do complemento C3d Vírus da febre glandular

Receptor de interleucina-2 do linfócito T Vírus da leucemia de célula T

β-adrenorreceptores Vírus da diarreia infantil

Adenovírus (causando dores de garganta e conjuntivite)

Moléculas MHC

Vírus da leucemia de células T

a Para mais detalhes sobre complemento, interleucina-2, glicoproteína CD4 nos linfócitos T-helper, moléculas MHC etc., ver

Capítulo 7.

MCP-1, proteína quimioatraente monocítica-1; MHC, complexo principal de histocompatibilidade; RANTES, células T normais

expressas e secretadas, reguladas na ativação; SDF-1, fator derivado da célula do estroma-1.

 

■ Replicação nos retrovírus

Os retrovírus contêm RNA, mas podem, ainda assim, ser incorporados no

DNA do hospedeiro. Para o conseguir, o vírion nos retrovírus1 contém uma

enzima única, a transcriptase reversa (polimerase de DNA dependente do RNA do vírus), que cria uma cópia de DNA a partir do RNA viral. Tal

cópia de DNA pode então ser integrada no genoma do hospedeiro, e é então

denominada um pró-vírus. O pró-vírus de DNA é transcrito tanto no novo

genoma RNA viral quanto em mRNA para translação no hospedeiro das

proteínas virais, e os vírus completos são liberados de novo por brotamento.

Muitos retrovírus podem replicar-se sem destruir a célula do hospedeiro.

 

Figura 53.2 + Como uma célula T CD8 destrói uma célula do hospedeiro infectada pelo vírus. A célula do hospedeiro infectada pelo vírus expressa um complexo de peptídios virais em conjunto com um produto classe I do complexo principal de histocompatibilidade (MHC-I) em sua superfície. Este é reconhecido pela célula T CD8+, que, então, libera enzimas líticas na célula infectada pelo vírus. A célula T killer também expressa um ligante Fas, que aciona a apoptose na célula infectada pela estimulação de seu “receptor de morte” Fas.

 

Assim como os vírus de DNA, alguns retrovírus permanecem

dormentes no genoma a ser replicado, em conjunto com o material genético

do hospedeiro. Isso é responsável pela natureza periódica de algumas

doenças virais, como aquelas causadas pelos herpes-vírus labialis (herpes labial) ou Varicella zoster – outro tipo de herpes-vírus (que causa varicela e