Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 35 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Tipo 1 | Canais iônicos ativados por ligantes

▼ Boa parte das variações na sequência que levam à diversidade dos

receptores aparece no nível genômico, ou seja, diferentes genes dão

origem a subtipos distintos de receptor. Uma variação adicional decorre

de um splicing alternativo do mRNA, que significa que um único gene

pode dar origem a mais de uma isoforma de receptor. Depois da tradução

do DNA genômico, o mRNA normalmente contém regiões não

codificantes (íntrons) que são removidas pelo splicing do mRNA antes de

a mensagem ser traduzida em proteína. Dependendo da localização dos

pontos de splicing, este pode resultar na inclusão ou deleção de uma ou

mais regiões codificantes do mRNA, o que origina formas longas ou

curtas da proteína. Essa é uma importante fonte de variação,

particularmente para os GPCR, que produzem receptores com

características de ligação distintas e diferentes mecanismos de transdução

de sinal, embora sua relevância farmacológica ainda esteja por ser

esclarecida. Outro processo que pode produzir receptores diferentes, mas

vindos do mesmo gene, é a edição do mRNA, que envolve a substituição

anômala de uma base no mRNA por outra, e, como tal, potencialmente

uma pequena variação na sequência de aminoácidos do receptor expresso.

 

Essa heterogeneidade molecular é uma característica de todos os tipos de

receptores – na verdade, das proteínas funcionais em geral. Novos subtipos e

isoformas de receptores continuam sendo descobertos, e atualizações

regulares do catálogo são disponibilizadas (www.guidetopharmacology.org).

Os problemas de classificação, nomenclatura e taxonomia resultantes desse

acúmulo de dados foram mencionados anteriormente.

A seguir, serão descritas as características de cada uma das quatro

superfamílias de receptores.

 

TIPO 1 | CANAIS IÔNICOS ATIVADOS POR LIGANTES

O receptor nicotínico de acetilcolina, encontrado na junção neuromuscular

esquelética (ver Capítulo 14), nos gânglios autônomos (ver Capítulo 14) e no

cérebro (ver Capítulo 40), é um exemplo típico de um canal iônico controlado

por ligante, conhecido como receptores de Cys-loop (assim chamados por

terem em sua estrutura um grande domínio intracelular entre os domínios

transmembrana 3 e 4 contendo múltiplos resíduos de cistina [ver Figura

3.3A]). Outros deste tipo incluem os receptores GABAA e glicina (ver

Capítulo 39), bem como o receptor 5-hidroxitriptamina tipo 3 (5-HT3; ver

Capítulos 16 e 40). Existem outros tipos de canais iônicos dependentes de

ligantes – sendo eles os receptores ionotrópicos de glutamato (ver Capítulo

39) e receptores purinérgicos P2X (ver Capítulos 17 e 40), que diferem em

vários aspectos dos receptores nicotínicos de acetilcolina (ver Figura 3.5).

Além dos canais iônicos dependentes de ligantes encontrados na membrana

celular que medeiam a transmissão sináptica rápida, também existem canais

iônicos dependentes de ligantes intracelulares – designadamente o inositol

trifosfato (IP3) e os receptores de rianodina (ver Capítulo 4), que liberam Ca2+ das reservas intracelulares.

 

Estrutura molecular

Os canais iônicos ativados por ligantes têm traços estruturais em comum com

outros canais iônicos, descritos na página 46. O receptor nicotínico da

acetilcolina clonado do raio elétrico Torpedo (Figura 3.4)7 consiste em uma

estrutura pentamérica de diferentes subunidades, das quais existem quatro

tipos, denominados α, β, γ e δ, cada um com peso molecular (M r) de 40 a 58 kDa. As subunidades mostram marcante homologia na sequência, e cada uma

delas contém quatro α-hélices que atravessam a membrana, nela inseridas,

como mostrado na Figura 3.4B. A estrutura pentamérica (α2, β, γ, δ) contém dois pontos de ligação para a acetilcolina, cada um na interface entre uma das

duas subunidades α e sua vizinha. Ambos devem ligar-se a moléculas de

acetilcolina para que o receptor seja ativado. A Figura 3.4B mostra a estrutura

do receptor. Cada subunidade atravessa a membrana quatro vezes, de modo

que o canal compreende não menos de 20 hélices que atravessam a

membrana circundando um poro central.

 

▼ Uma das hélices transmembrana (M2) de cada uma das cinco

subunidades forma o revestimento do canal iônico (ver Figura 3.4). As

cinco hélices M2 que formam o poro são deformadas para dentro, a meio

caminho da espessura da membrana, formando uma constrição. Quando

as moléculas de acetilcolina se ligam, ocorre uma alteração

conformacional na parte extracelular do receptor que torce as subunidades

α, fazendo com que os segmentos M 2 abaulados se afastem uns dos

outros, promovendo, assim, a abertura do canal. A borda do canal contém

uma série de resíduos aniônicos, o que torna o canal seletivamente

permeável a cátions (inicialmente, NA+ e K+, embora alguns tipos de

receptores nicotínicos também sejam permeáveis ao Ca2+).

O uso de mutagênese direcionada ao local, que permite que pequenas

regiões ou resíduos únicos da sequência de aminoácidos sejam alterados,

mostrou que a mutação de um resíduo crítico na hélice M2 modifica o

canal, passando de permeável para cátions (portanto, excitatório no

contexto da função sináptica) para permeável para ânions (típico de

receptores para transmissores inibitórios, como, por exemplo, GABA e

glicina). Outras mutações afetam propriedades como o mecanismo de

comporta e a dessensibilização de canais controlados por ligantes.

Outros canais iônicos ativados por ligantes, como os receptores do

glutamato (ver Capítulo 39) e os receptores P2X (ver Capítulos 17 e 40),

cujas estruturas são apresentadas na Figura 3.5, têm uma arquitetura

diferente. Os receptores ionotrópicos do glutamato são tetraméricos, e o

poro é constituído a partir de alças, em vez de hélices transmembranares,

em comum com muitos outros canais iônicos (não ativados por ligantes)

(ver Figura 3.20). Os receptores P2X são triméricos e cada subunidade

tem apenas dois domínios transmembranares (North, 2002). O receptor

nicotínico e outros receptores de cistina são pentâmeros com dois locais

de ligação para o agonista em cada receptor. A ligação de uma molécula

agonista aumenta a afinidade de ligação no outro local (cooperação

positiva), e ambos os locais têm de ser ocupados para que o receptor seja

ativado e o canal se abra. Alguns receptores ionotrópicos do glutamato

contêm até quatro locais de ligação ao agonista, e os receptores P2X

contêm três, mas, aparentemente, são abertos quando duas moléculas

agonistas se ligam. Mais uma vez, verificamos que o modelo de ativação

dos receptores apresentados na Figura 2.1 é uma simplificação excessiva,

pois só considera a ligação de uma molécula agonista para se produzir

uma resposta. São necessários outros modelos matemáticos mais

complexos no caso das ligações de duas ou mais moléculas agonistas

(Colquhoun, 2006).

Figura 3.4 Estrutura do receptor nicotínico da acetilcolina (um típico canal iônico

controlado por ligante). A. Diagrama esquemático em visão lateral (acima) e transversal (abaixo). As cinco subunidades do receptor (α , β, γ, δ) formam um agregado que circunda 2 um poro transmembrana central, cujo revestimento é formado pelos segmentos helicoidais M de cada subunidade. Esses segmentos contêm predomínio de aminoácidos carregados 2

negativamente, o que torna o poro seletivo para cátions. Existem dois pontos de ligação para acetilcolina na porção extracelular do receptor, na interface entre a subunidade α e as subunidades adjacentes. Quando ocorre a ligação com a acetilcolina, as α-hélices entortadas se endireitam ou giram e se afastam, abrindo, assim, o poro do canal. B. Imagem de alta resolução que apresenta um esquema revisto dos domínios intracelulares. (Painel [A] com base em Unwin N, 1993. Nicotinic acetylcholine receptor at 9Å resolution. J. Mol. Biol. 229, 1101-1124, e Unwin N, 1995. Acetylcholine receptor channel imaged in the open state. Nature 373, 37-43; painel [B] reproduzido, com autorização, de Unwin N, 2005. Refined structure of the nicotinic acetylcholine receptor at 4Å resolution. J. Mol. Biol. 346(4), 967-989.)

 

Figura 3.5 Arquitetura molecular dos canais iônicos ativados por ligantes. Os

retângulos vermelhos e azuis representam as α-hélices transmembranares, e os grampos azuis representam as regiões de formação dos poros P loop. Os receptores Cys-loop são pentaméricos. 5-HT , receptor 5-hidroxitriptamina tipo 3; GABA , receptor GABA tipo A; IP R, 3 A 3 receptor do inositol trifosfato; nAChR, receptor nicotínico de acetilcolina; NMDA, receptor N-metil-D-aspartato; P2XR, receptor de purina P2X; RyR, receptor de rianodina.

 

Mecanismo de comporta

Os receptores desse tipo controlam os eventos sinápticos mais rápidos do

sistema nervoso, nos quais um neurotransmissor age na membrana pós-

sináptica de um nervo ou célula muscular e aumenta, de modo transitório, sua

permeabilidade para certos íons. A maior parte dos neurotransmissores

excitatórios, como a acetilcolina na junção neuromuscular (ver Capítulo 14)

ou o glutamato no sistema nervoso central (ver Capítulo 39), provoca

aumento na permeabilidade ao Na+ e K+ e, em alguns casos, permeabilidade

ao Ca2+. Nas membranas com potencial negativo, esse efeito resulta em uma

corrente de entrada que se deve, principalmente, ao Na+, despolarizando a

célula e aumentando a probabilidade de gerar um potencial de ação. A ação

do transmissor alcança seu pico em uma fração de milissegundo e, em geral,

decai no intervalo de poucos milissegundos. A velocidade abrupta dessa

resposta significa que o acoplamento entre o receptor e o canal iônico é

direto, e a estrutura molecular do complexo receptor-canal (anteriormente)

está de acordo com isso. Em contraste com outras famílias de receptores, não

há etapas bioquímicas intermediárias envolvidas no processo de transdução.

 

▼ A técnica patch clamp, desenvolvida por Neher e Sakmann, permite a

medição direta da passagem de correntes elétricas diminutas através de

um único canal iônico (Figura 3.6). A técnica patch clamp permite que se

obtenha uma visão, rara na biologia, do comportamento fisiológico em

tempo real das proteínas individuais, e tem disponibilizado novas

perspectivas das reações e das características de permeabilidade tanto dos

canais ativados por ligantes como dos canais dependentes de voltagem. A

magnitude da condutância de um único canal confirma que a permeação

ocorre por um poro físico através da membrana, porque o fluxo de íons é

muito grande (cerca de 107 íons por segundo) para ser compatível com um

mecanismo transportador. A condutância do canal produzida por

diferentes agonistas é a mesma, enquanto o tempo de vida médio do canal

varia. O esquema da interação ligante-receptor apresentado no Capítulo 2

é um modelo útil do sistema de funcionamento do canal iônico. A

conformação R*, representando o estado aberto do canal iônico,

supostamente é a mesma para todos os agonistas, o que explica a

observação de que a condutância do canal não varia. Cineticamente, o

tempo médio de abertura é determinado principalmente pela constante de

velocidade de fechamento, α, e esta varia de um fármaco a outro. Como

explicado no Capítulo 2 (ver Figura 2.1), um agonista de alta eficácia que

ativa uma grande proporção de receptores por ele ocupados é

caracterizado por β/α ≫ 1, enquanto para um fármaco de baixa eficácia,

β/α tem um valor menor.

No caso de alguns canais iônicos operados por ligantes, a situação é mais

complicada, pois agonistas diferentes podem causar a abertura de canais

específicos a um ou mais níveis de condutância distintos (Figura 3.6B).

Isso implica a existência de mais do que uma conformação R*. Para além

disso, a dessensibilização dos canais iônicos operados por ligantes (ver

Capítulo 2) também implica um ou mais estados conformacionais

adicionais induzidos por agonistas. Essas descobertas exigem mais

aperfeiçoamento do modelo simples em que um único estado, R*, é

representado, e são um bom exemplo da forma como o comportamento

atual dos receptores torna nossos modelos teóricos um pouco esgotados.