Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 60 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Transporte epitelial de íons

Liberação de mediadores

 

• A maioria dos mediadores químicos é armazenada em vesículas e liberada por exocitose.

Alguns não são armazenados, mas são sintetizados em função da demanda e liberados

por difusão ou através de carregadores presentes na membrana

• A exocitose ocorre em resposta a um aumento na [Ca2+] i resultante da interação mediada

pelo Ca2+ entre proteínas da vesícula sináptica e da membrana plasmática, fazendo com

que as membranas se fundam

• Após liberar seu conteúdo, as vesículas são recicladas e novamente preenchidas com

transmissor

• Muitas células secretoras contêm mais de um tipo de vesícula, preenchidas com diferentes

mediadores e secretadas de forma independente

• Os mediadores armazenados (p. ex., neurotransmissores) podem ser liberados

diretamente do citosol, independentemente do Ca 2+ e da exocitose, por fármacos que

interagem com os mecanismos de transporte da membrana

• Mediadores que não são armazenados, como prostanoides, óxido nítrico e

endocanabinoides, são liberados por meio do aumento da [Ca 2+]i, que ativa as enzimas

responsáveis por sua síntese.

 

TRANSPORTE EPITELIAL DE ÍONS

Os epitélios secretores de líquidos compreendem epitélios em túbulo renal,

glândulas salivares, trato gastrintestinal e vias respiratórias. Em cada caso,

as células epiteliais estão dispostas em camadas que separam o

compartimento interno (perfundido por sangue) da luz externa, para o qual,

ou do qual, a secreção flui. A secreção de líquidos envolve dois

mecanismos principais que, em geral, coexistem na mesma célula e

interagem entre si. Ambos os mecanismos (Figura 4.13) estão envolvidos

no transporte de Na+e de Cl–, respectivamente.

No caso do transporte de Na+, ocorre secreção porque o Na+ entra

passivamente por uma extremidade da célula e é bombeado ativamente na

outra extremidade, e a água o segue passivamente. Uma classe de canais de

sódio epiteliais (ENaC; do inglês, epithelial sodium channels) altamente

regulados, que permitem a entrada do Na+, é de suma importância para o

processo.

Os ENaC (Hanukoglu e Hanukoglu, 2016) estão amplamente expressos,

não apenas nas células epiteliais, mas também em neurônios e outras

células excitáveis, em que sua função é, em grande parte, desconhecida.

Eles são regulados principalmente pela aldosterona, um hormônio

produzido pelo córtex suprarrenal que aumenta a reabsorção de Na+ pelos

rins (ver Capítulo 30). A aldosterona, como outros hormônios esteroides,

age regulando a expressão gênica (ver Capítulo 3), e causa aumento na

expressão de EnaC, o que acentua a taxa de transporte de Na+ e de líquidos.

Os ENaC são bloqueados seletivamente por certos diuréticos, em especial a

amilorida (ver Capítulo 30), um composto amplamente utilizado para

estudar o funcionamento dos ENaC em outras situações.

Figura 4.13 Mecanismos generalizados de transporte epitelial de íons. Esses

mecanismos são importantes nos túbulos renais (ver Capítulo 30 para mais detalhes) e em muitas outras situações, como nos tratos gastrintestinal e respiratório. O mecanismo exato pode variar de tecido para tecido, dependendo da expressão e da localização do canal e da bomba. A. Transporte de sódio. Um tipo especial de canal de sódio epitelial (ENaC) controla a entrada de Na+ + na célula, a partir da superfície luminal, sendo o Na bombeado ativamente para fora através da superfície apical da célula pela bomba de troca Na+ + -K. O

K + – se move passivamente através dos canais de potássio. B. Transporte de cloreto. O Cl

sai da célula através de um canal especial na membrana, o regulador da condutância transmembrana da fibrose cística (CFTR; do inglês, cystic fibrosis transmembrane conductance regulator), depois de entrar na célula através da superfície apical pelo cotransportador Na + – – – /Cl , ou da superfície luminal pelo cotransportador Cl /HCO.

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O transporte de cloreto é particularmente importante nas vias

respiratórias e no trato gastrintestinal. Nas vias respiratórias, é essencial

para a secreção de líquido, enquanto no cólon é responsável pela reabsorção

de líquido, e a diferença está na disposição dos diversos transportadores e

canais em relação à polaridade das células. O diagrama simplificado da

Figura 4.13B representa a situação encontrada no pâncreas, em que a

secreção depende do transporte de Cl–. A molécula-chave no transporte de

Cl– é o regulador da condutância transmembrana da fibrose cística (CFTR;

do inglês, cystic fibrosis transmembrane conductance regulator), assim

chamado porque os estudos iniciais sobre a fibrose cística, uma doença

hereditária, mostraram que se devia a uma deficiência na condutância de Cl–

na membrana das células epiteliais secretoras, e descobriu-se que o gene

CFTR, identificado por meio de laboriosos estudos de ligação genética e

isolado em 1989, codifica um canal de íon condutor de Cl–. Consequências

fisiológicas graves decorrem das mutações no CFTR e da resultante

deficiência na secreção, especialmente nas vias respiratórias, mas também

em outros sistemas, como as glândulas sudoríparas e o pâncreas. Estudos de

patologias associadas a mutações no gene CFTR revelaram muito sobre os mecanismos moleculares que envolvem o transporte de Cl– (Wang et al.,

2014).

Tanto o transporte de Na+ quanto o de Cl– são regulados por

mensageiros intracelulares, principalmente o Ca2+e o cAMP, em que este

último exerce seus efeitos ativando quinases proteicas e causando a

fosforilação de canais e transportadores. O próprio CFTR é ativado por

cAMP. No trato gastrintestinal, o aumento na formação de cAMP acentua a

taxa de secreção de líquido, um efeito que provoca a diarreia profusa da

infecção colérica (ver Capítulo 3) e condições inflamatórias em que a

formação de prostaglandinas está aumentada (ver Capítulo 18). A ativação

dos receptores acoplados à proteína G, que causam a liberação de Ca2+,

também estimula a secreção, possivelmente pela ativação do CFTR. Outros

capítulos deste livro dão muitos exemplos de fármacos que afetam a

secreção epitelial por meio da ativação ou do bloqueio de receptores

acoplados à proteína G.

Transporte epitelial de íons

 

• Muitos epitélios (p. ex., túbulos renais, glândulas exócrinas e vias respiratórias) são

especializados para o transporte de íons especí cos

• Esse tipo de transporte depende de uma classe especial de canais de sódio epiteliais

(ENaC), que permite a entrada de Na+ na célula em uma superfície, acoplada à extrusão

ativa de Na +, ou troca por outro íon, na superfície oposta

• O transporte de ânions depende de um canal de cloreto especí co (regulador da

condutância transmembrana da brose cística [CFTR]), cujas mutações são responsáveis

pela brose cística

• A atividade dos canais, bombas e transportadores de troca é regulada por diversos

segundos mensageiros e receptores nucleares, que controlam o transporte de íons de

maneiras especí cas.

 

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Referências gerais

Alexander, S.P., Catterall, W.A., Kelly, E., et al., 2015. The concise guide to pharmacology 2015/16:

Voltage-gated ion channels. Br. J. Pharmacol. 172, 5904–5941. (Contém breve descrição de uma

série de canais iônicos e dos fármacos que interagem com estes)

Berridge, M.J., 2014. Cell Signalling Biology. Portland Press. doi:10.1042/csb0001002. (E-book

gratuito disponível on-line em www.cellsignallingbiology.org; um recurso regularmente

atualizado e em formato bastante legível, que abrange vários aspectos da sinalização celular).

Kandel, E.R., Schwartz, J.H., Jessell, T.M., Siegelbaum, S.A., Hudspeth, A.J., 2012. Principles of

Neural Science. McGraw-Hill, New York. (Livro de neurociências, excelente e bem escrito)

Katz, B., 1966. Nerve, Muscle and Synapse. McGraw–Hill, New York. (Registro clássico dos

experimentos eletrofisiológicos pioneiros que estabeleceram as bases das funções nervosa e

muscular)

Berridge, M.J., 2016. The inositol trisphosphate/calcium signaling pathway in health and disease.

Physiol. Rev. 96, 1261–1296. (Relato atualizado e legível dos mecanismos e versatilidade da

sinalização de cálcio e de como esta pode ser alterada nos estados de doença)

Morgan, A.J., Davis, L.C., Ruas, M., Galione, A., 2015. TPC: the NAADP discovery channel?

Biochem. Soc. Trans. 43, 384–389. (Discussão interessante sobre este tema controverso do

laboratório de um dos principais protagonistas)

Parrington, J., Lear, P., Hachem, A., 2015. Calcium signals regulated by NAADP and two-pore

channels–their role in development, differentiation and cancer. Int. J. Dev. Biol. 59, 341–355.

(Revisão da potencial importância fisiopatológica)

Prakriya, M., Lewis, R.S., 2015. Store-operated calcium channels. Physiol. Rev. 95, 1383–1436.

(Revisão abrangente deste tópico)

Excitação e canais iônicos

Catterall, W.A., Swanson, T.M., 2015. Structural basis for pharmacology of voltage-gated sodium

and calcium channels. Mol. Pharmacol. 88, 141–150. (Artigo de revisão útil)

Hille, B., 2001. Ionic Channels of Excitable Membranes. Sinauer Associates, Sunderland.

(Provavelmente, ainda o melhor registro detalhado e claro dos princípios básicos dos canais

iônicos, com ênfase para suas propriedades biofísicas)

Imbrici, P., Liantonio, A., Camerino, G.M., et al., 2016. Therapeutic approaches to genetic ion

channelopathies and perspectives in drug discovery. Front. Pharmacol. 7, 121. (Revisão detalhada

da importância das canalopatias em múltiplos transtornos)

Jenkinson, D.H., 2006. Potassium channels – multiplicity and challenges. Br. J. Pharmacol. 147

(Suppl. 1), 63–71. ( + Artigo curto e útil sobre os muitos tipos de canal de K)

Contração muscular

Berridge, M.J., 2008. Smooth muscle cell calcium activation mechanisms. J. Physiol. 586, 5047–

5061. (Excelente artigo de revisão descrevendo os diferentes mecanismos através dos quais os

sinais de cálcio controlam a atividade nos tipos distintos de músculo liso – complexo, porém

claro)

Priori, S.G., Napolitano, C., 2005. Cardiac and skeletal muscle disorders caused by mutations in the

intracellular Ca2+ release channels. J. Clin. Invest. 115, 2033–2038. (Discute as mutações de RyR

em diferentes doenças hereditárias)

Van Petegem, F., 2012. Ryanodine receptors: structure and function. J. Biol. Chem. 287 (31), 31624–

31632.

Secreção e exocitose

Hanukoglu, I., Hanukoglu, A., 2016. Epithelial sodium channel (ENaC) family: phylogeny, structure-

function, tissue distribution, and associated inherited diseases. Gene 579, 95–132. (Revisão

extensiva da função e da importância destes canais na saúde e na doença)

Thorn, P., Zorec, R., Rettig, J., Keating, D.J., 2016. Exocytosis in non-neuronal cells. J. Neurochem.

137, 849–859.

Wang, Y., Wrennall, J.A., Cai, Z., Li, H., Sheppard, D.N., 2014. Understanding how cystic fibrosis

mutations disrupt CFTR function: from single molecules to animal models. Int. J. Biochem. Cell

Biol. 52, 47–57.

____________

1 P e Q são tão semelhantes que, em geral, são considerados em conjunto. A

terminologia é menos do que poética: o L significa de longa duração; T,

transitório; N, nem de longa duração nem transitório. No entanto, P

significa Purkinje – esse tipo de canal foi observado inicialmente em

células de Purkinje do cerebelo. A sequência alfabética foi seguida

(omitindo-se a letra O), de modo que os descobertos posteriormente foram

chamados de Q e R.

2 Leitores interessados em saber mais sobre a composição da subunidade de

diferentes canais de cálcio dependentes de voltagem devem consultar o

Guia para a Farmacologia em

<http://www.guidetopharmacology.org/GRAC/FamilyDisplayForward?

familyId=80>

3 Essas bombas foram comparadas a Sísifo, encarregado de empurrar uma

pedra para cima de uma montanha (também consumindo ATP, sem dúvida),

apenas para que ela rolasse montanha abaixo novamente.

4 A terminologia dos canais de potássio é, no mínimo, confusa. Os

eletrofisiologistas batizaram as correntes de K+ de modo um tanto prosaico,

com base em suas propriedades funcionais (I , I , I , I etc.); os KV KCa KATP KIR geneticistas deram nomes imaginativos aos genes, de acordo com os

fenótipos associados às mutações (shaker, ether-ago-go etc.), enquanto os

biólogos moleculares introduziram uma nomenclatura racional, mas de

difícil memorização, baseada nas informações da sequência (KCNK,

KCNQ etc., com sufixos numéricos). Quanto a nós, é necessário lidar da

melhor maneira possível com esse jargão de nomenclaturas diferentes, tais

como HERG (que – não se assuste – significa Gene Humano Relacionado

ao Ether-a-go-go), TWIK, TREK e TASK.

5 Embora esta seja, para todos os efeitos, apenas uma forma do canal cálcio

tipo L, o termo receptor di-hidropiridínico (DHPR) é usado para indicar que

eles não são idênticos aos canais do tipo L nos neurônios e no músculo

cardíaco.

6 Também pode ocorrer liberação, mediada por carreadores, de

neurotransmissores armazenados em vesículas, mas esta é

quantitativamente menos significativa do que a exocitose.

7 O conteúdo das vesículas nem sempre é integralmente liberado. As

vesículas podem se fundir transitoriamente com a membrana celular,

liberando apenas parte de seu conteúdo antes de se desconectarem

(chamada exocitose kiss-and-run).

8 Alguns queijos podem ter altos níveis de tiramina, uma monoamina

derivada da tirosina, que pode agir como as anfetaminas e liberar

norepinefrina (particularmente naqueles em tratamento com inibidores da

monoamina oxidase [MAO], ver Capítulo 48), produzindo um dramático

episódio simpático conhecido como “efeito do queijo”.

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