Rang e Dale: Farmacologia
14 Transmissão Colinérgica
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Este capítulo trata principalmente da transmissão colinérgica na periferia e
dos modos pelos quais os fármacos a afetam. Descrevemos aqui os
diferentes tipos de receptores da acetilcolina (ACh) e suas funções, bem
como a síntese e a liberação de ACh. Este capítulo traz uma descrição dos
fármacos que agem sobre os receptores da ACh, muitos dos quais
apresentam usos clínicos. Os mecanismos colinérgicos do sistema nervoso
central (SNC) e sua importância para a demência são discutidos nos
Capítulos 40 e 41.
AÇÕES MUSCARÍNICAS E NICOTÍNICAS DA ACETILCOLINA
▼ A descoberta da ação farmacológica da ACh surgiu,
paradoxalmente, de um trabalho com as glândulas suprarrenais, cujos
extratos eram conhecidos por produzir elevação da pressão arterial
graças à presença da epinefrina. Em 1900, Reid Hunt constatou que,
após a epinefrina ter sido removida de tais extratos, eles produziam
queda da pressão arterial, em vez de elevação. Hunt atribuiu essa queda
à presença de colina; posteriormente, no entanto, concluiu que o
responsável deveria ser um derivado da colina, mais potente.
Juntamente com Taveau, ele testou vários derivados da colina e
descobriu que a ACh tem ação redutora da pressão arterial de coelhos
cerca de 100.000 vezes mais potente que a colina. Naquela época, o
papel fisiológico da ACh não era evidente e, consequentemente, ela
permaneceu como uma curiosidade farmacológica, até que, nos anos
1930, Loewi, Dale et al. descobriram seu papel como transmissor.
Em 1914, ao analisar as ações farmacológicas da ACh, Dale distinguiu dois
tipos de atividade, que ele designou como muscarínica e nicotínica, porque
mimetizavam, respectivamente, os efeitos da muscarina, o princípio ativo
do cogumelo venenoso Amanita muscaria, e da nicotina. As ações
muscarínicas assemelham-se muito aos efeitos da estimulação
parassimpática (ver Tabela 13.1). Após bloqueio dos efeitos muscarínicos
pela atropina, doses maiores de ACh produzem os efeitos da nicotina, que
incluem:
• Estimulação de todos os gânglios autônomos
• Estimulação da musculatura voluntária
• Secreção de epinefrina pela medula das suprarrenais.
A Figura 14.1 ilustra as ações muscarínicas e nicotínicas da ACh. Doses
pequenas e médias de ACh produzem queda transitória da pressão arterial
resultante de vasodilatação arteriolar e redução da frequência cardíaca –
efeitos muscarínicos que são abolidos pela atropina. Uma dose grande de
ACh, administrada após a atropina, produz efeitos nicotínicos: uma
elevação inicial da pressão arterial, decorrente da estimulação dos gânglios simpáticos e consequente vasoconstrição, e uma segunda elevação dessa