Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 167 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

14 Transmissão Colinérgica

CONSIDERAÇÕES GERAIS

Este capítulo trata principalmente da transmissão colinérgica na periferia e

dos modos pelos quais os fármacos a afetam. Descrevemos aqui os

diferentes tipos de receptores da acetilcolina (ACh) e suas funções, bem

como a síntese e a liberação de ACh. Este capítulo traz uma descrição dos

fármacos que agem sobre os receptores da ACh, muitos dos quais

apresentam usos clínicos. Os mecanismos colinérgicos do sistema nervoso

central (SNC) e sua importância para a demência são discutidos nos

Capítulos 40 e 41.

 

AÇÕES MUSCARÍNICAS E NICOTÍNICAS DA ACETILCOLINA

▼ A descoberta da ação farmacológica da ACh surgiu,

paradoxalmente, de um trabalho com as glândulas suprarrenais, cujos

extratos eram conhecidos por produzir elevação da pressão arterial

graças à presença da epinefrina. Em 1900, Reid Hunt constatou que,

após a epinefrina ter sido removida de tais extratos, eles produziam

queda da pressão arterial, em vez de elevação. Hunt atribuiu essa queda

à presença de colina; posteriormente, no entanto, concluiu que o

responsável deveria ser um derivado da colina, mais potente.

Juntamente com Taveau, ele testou vários derivados da colina e

descobriu que a ACh tem ação redutora da pressão arterial de coelhos

cerca de 100.000 vezes mais potente que a colina. Naquela época, o

papel fisiológico da ACh não era evidente e, consequentemente, ela

permaneceu como uma curiosidade farmacológica, até que, nos anos

1930, Loewi, Dale et al. descobriram seu papel como transmissor.

Em 1914, ao analisar as ações farmacológicas da ACh, Dale distinguiu dois

tipos de atividade, que ele designou como muscarínica e nicotínica, porque

mimetizavam, respectivamente, os efeitos da muscarina, o princípio ativo

do cogumelo venenoso Amanita muscaria, e da nicotina. As ações

muscarínicas assemelham-se muito aos efeitos da estimulação

parassimpática (ver Tabela 13.1). Após bloqueio dos efeitos muscarínicos

pela atropina, doses maiores de ACh produzem os efeitos da nicotina, que

incluem:

 

• Estimulação de todos os gânglios autônomos

• Estimulação da musculatura voluntária

• Secreção de epinefrina pela medula das suprarrenais.

 

A Figura 14.1 ilustra as ações muscarínicas e nicotínicas da ACh. Doses

pequenas e médias de ACh produzem queda transitória da pressão arterial

resultante de vasodilatação arteriolar e redução da frequência cardíaca –

efeitos muscarínicos que são abolidos pela atropina. Uma dose grande de

ACh, administrada após a atropina, produz efeitos nicotínicos: uma

elevação inicial da pressão arterial, decorrente da estimulação dos gânglios simpáticos e consequente vasoconstrição, e uma segunda elevação dessa