Rang e Dale: Farmacologia
Considerações finais
O doping é proibido nos esportes profissionais porque constitui uma
vantagem injusta para os atletas que “trapaceiam”. No entanto, muitos
outros fatores são importantes para determinar os motivos que levam um
atleta a ter vantagem sobre o outro – por exemplo, a constituição genética –
então não existe uma verdadeira “igualdade de condições” para começar.
Na verdade, argumenta-se que os atletas devem ter acesso irrestrito às
substâncias que melhorem o desempenho, com a condição de estas não
prejudicarem a sua saúde (Savulescu et al., 2004), mas é improvável que
essa visão ganhe aceitação pública no futuro próximo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O fenômeno das substâncias de bem-estar é um aspecto de um debate mais
amplo sobre o que realmente constitui “doença” e até onde a ciência médica
deve ir para satisfazer o objetivo do aprimoramento humano, bem como as
necessidades e aspirações de indivíduos saudáveis, ou para aliviar o
sofrimento e a disfunção humana na ausência de patologia. A discussão
dessas questões está além do objetivo deste livro, mas é possível encontrar
mais artigos citados no final deste capítulo (Flower, 2004; 2012).
Existem várias razões pelas quais essas substâncias – não importa como
decidamos defini-las – geram cada vez mais preocupação. A crescente
disponibilidade de fármacos (algumas falsificações) provenientes de “e-
farmácias”, juntamente com a publicidade direta da indústria farmacêutica
ao público, que ocorre em alguns países, garantirá que a demanda seja
mantida em aceso. A maioria das vendas ocorre no mundo desenvolvido, e
a indústria farmacêutica, sem dúvida, desenvolverá mais agentes de bem-
estar para atender a este mercado lucrativo. O poder de lobby dos pacientes
que defendem medicamentos específicos, independentemente dos
potenciais custos ou da utilidade comprovada, gera grandes problemas para os reguladores dos medicamentos e para aqueles que estabelecem
prioridades em saúde para os sistemas de saúde financiados pelo Estado.
Abuso de substâncias no esporte
• Muitas substâncias de diferentes tipos são comumente usados por atletas com o objetivo
de melhorar o desempenho na competição
• Os principais tipos utilizados são:
– Agentes anabolizantes, principalmente esteroides androgênicos e clembuterol
– Hormônios, particularmente eritropoetina e hormônio do crescimento
humano
– Estimulantes, principalmente derivados de anfetamina e efedrina e cafeína
– Antagonistas de adrenorreceptores β, para reduzir a ansiedade e o tremor nos
esportes de “precisão”
• Na maioria dos casos, a utilização de substâncias no esporte é o cialmente proibida,
dentro ou fora da competição
• A detecção depende principalmente da análise da substância ou dos seus metabólitos em
amostras de urina ou de sangue. A detecção do uso abusivo é di cultada no caso de
hormônios endógenos como a eritropoetina, o hormônio de crescimento e a
testosterona
• Ensaios clínicos controlados mostraram, principalmente, que as substâncias produzem
pouca melhora no desempenho esportivo. Os agentes anabolizantes aumentam o peso
corporal e o volume muscular, sem aumentar claramente a força. O efeito dos
estimulantes é muitas vezes psicológico, e não siológico.
REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR
Bostrom, N., Sandberg, A., 2009. Cognitive enhancement: methods, ethics, regulatory challenges.
Sci. Eng. Ethics 15, 343–349. (Discussão interessante sobre o problema complexo que em breve
terá de ser enfrentado)
Flower, R.J., 2004. Lifestyle drugs: pharmacology and the social agenda. Trends Pharmacol. Sci. 25,
182–185. (Revisão acessível que se debruça sobre algumas das questões levantadas neste
capítulo)
Flower, R., 2012. The Osler Lecture 2012: pharmacology 2.0, medicines, drugs and human
enhancement. QJM 105, 823–830. (Discute o “aprimoramento humano” do ponto de vista de um
farmacologista. Fácil de ler)
Gilbert, D., Walley, T., New, B., 2000. Lifestyle medicines. BMJ 321, 1341–1344. (Revisão curta,
mas focada, que trata principalmente das implicações clínicas do fenômeno da “medicina do
bem-estar”)
McCall, H., Adams, N., Mason, D., Willis, J., 2015. What is chemsex and why does it matter? BMJ
351, h5790. (Breve descrição da utilização de várias drogas em sessões de “chemsex”)
Sahakian, B., LaBuzetta, J., 2015. Bad Moves: How Decision Making Goes Wrong, and the Ethics of
Smart Drugs. OUP Oxford, Oxford. p. 192. (Um livro muito interessante que trata, de forma
extensa, da ética do neuroaprimoramento, usando um modelo de tomada de decisão para ilustrar
os seus efeitos. Leitura fascinante)
Sahakian, B., Morein-Zamir, S., 2007. Professor’s little helper. Nature 450, 1157–1159. (Interessante
“comentário” do uso do neuroaprimoramento, especialmente por estudantes, e as questões éticas
que tal comportamento levanta. Recomendado)
Walley, T., 2002. Lifestyle medicines and the elderly. Drugs Aging 19, 163–168. (Excelente revisão
de toda a área e da sua relevância para o tratamento de idosos)
Young, S.N., 2003. Lifestyle drugs, mood, behaviour and cognition. J. Psychiatry Neurosci. 28, 87–
89.
Abuso de substâncias no esporte
British Medical Association, 2002. Drugs in Sport: The Pressure to Perform. BMJ Publications,
London. (Cobertura útil de todo o tópico)
Buchanan, A., 2011. Better Than Human. The Promise and Perils of Enhancing Ourselves. Oxford
University Press Inc., New York. p. 199. (Livro fascinante, que explora todo o tópico do
aprimoramento humano, incluindo as abordagens genéticas e farmacológicas. Recomendado
para o leitor mais interessado)
Gould, D., 2013. Gene doping: gene delivery for Olympic victory. Br. J. Clin. Pharmacol. 76, 292–
298. (Discute o que certamente deve ser o próximo desafio para a WADA: a introdução
deliberada nos atletas de genes que poderiam melhorar o desempenho)
Mottram, D.R. (Ed.), 2005. Drugs in Sport, fourth ed. Routledge, London. (Descrição abrangente
dos aspectos farmacológicos e regulamentares dos medicamentos no esporte, com uma discussão
equilibrada de evidências com relação à eficácia e aos riscos)
Munby, J., 2010. Drugs in sport. Scott. Med. J. 55, 29–30. (Breve revisão da utilização de drogas no
esporte – tanto profissional quanto amador – escrita do ponto de vista médico)
Reardon, C.L., Creado, S., 2014. Drug abuse in athletes. Subst. Abuse Rehabil. 5, 95–105. (Uma boa
revisão dos fármacos de uso abusivo nos esportes e notas sobre os principais tipos de agentes
usados)
Sparling, P.B., 2013. The Lance Armstrong saga: a wake-up call for drug reform in sports. Curr.
Sports Med. Rep. 12, 53–54. (Breve comentário sobre o caso de Lance Armstrong)
Savulescu, J., Foddy, B., Clayton, M., 2004. Why we should allow performance enhancing drugs in
sport. Br. J. Sports Med. 38, 666–670. (Os autores apresentam um argumento convincente para
permitir o acesso aos fármacos de melhora do desempenho, mas concentrando-se mais na saúde
dos atletas)
Spedding, M., Spedding, C., 2008. Drugs in sport: a scientist–athlete’s perspective: from ambition to
neurochemistry. Br. J. Pharmacol. 154, 496–501. (Revisão muito acessível escrita por dois
irmãos, um dos quais é um atleta olímpico e o outro, um farmacologista. Percepções únicas.
Altamente recomendado)
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1 As substâncias destinadas a conferir uma vantagem competitiva no esporte são, evidentemente, consideradas desleais, proibidas e muito ativamente policiadas. Chegará o dia em que a administração de substâncias para melhorar o desempenho em exames acadêmicos se tornará ilegal, com métodos e sanções de vigilância semelhantes? Ver Bostrom e Sandberg (2009) para uma discussão sobre a ética neste campo minado.
2 Felizmente, isso está mudando. Desde 2014, a United Kingdom Medicines and Healthcare Products Regulatory Agency tem um Herbal Medicines Advisory Committee designado para cumprir esse papel necessário.
3 Aparentemente incluindo esteroides, hormônio de crescimento e eritropoetina. Posteriormente, ele foi destituído de todas as suas honras esportivas.
4 Também utilizado para melhorar o desempenho acadêmico!
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