Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 553 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Novas abordagens

A maioria dos anestésicos locais ligados a ésteres (p. ex., a tetracaína)

é rapidamente hidrolisada pela colinesterase plasmática, de modo que sua

meia-vida no plasma é curta. A procaína – agora raramente usada – é

hidrolisada em ácido p-aminobenzoico, um precursor do folato que interfere

no efeito antibacteriano das sulfonamidas (ver Capítulo 52). Os fármacos

ligados a amidas (p. ex., lidocaína e prilocaína) são metabolizados

principalmente no fígado, geralmente por N-desalquilação, e não por

clivagem da ligação amida, e os metabólitos costumam ser

farmacologicamente ativos.

A benzocaína é um anestésico local incomum, de solubilidade muito

baixa, usado como pó para curativo em úlceras de pele dolorosas ou como

pastilhas para a garganta. Esse fármaco é lentamente liberado e produz

anestesia de superfície com longa duração.1

As vias de administração, os usos e os principais efeitos adversos dos

anestésicos locais estão resumidos na Tabela 44.2.

A maioria dos anestésicos locais tem ação vasodilatadora direta, que

aumenta a taxa em que são absorvidos para a circulação sistêmica,

expandindo sua toxicidade em potencial e reduzindo sua ação como

anestésico local. Epinefrina, fenilefrina ou felipressina, um análogo da

vasopressina de curta ação (ver Capítulo 34), podem ser acrescentadas às

soluções de anestésico, injetadas localmente para promover vasoconstrição.

A epinefrina e a fenilefrina absorvidas na circulação são capazes de

provocar efeitos cardiovasculares indesejáveis, tais como taquicardia e

vasoconstrição, e a felipressina pode causar constrição das artérias

coronárias. Sua utilização em pacientes com doença cardiovascular é

contraindicada.

 

NOVAS ABORDAGENS

O bloqueio específico de subtipos de canais de sódio é visto como

estratégia terapêutica promissora para várias patologias clínicas, incluindo

epilepsia (ver Capítulo 46), doenças neurodegenerativas e acidente vascular

encefálico (ver Capítulo 41), dor neuropática (ver Capítulo 43) e miopatias

(ver Capítulo 22). À medida que aumenta o conhecimento do papel de

subtipos específicos de canais de sódio em diferentes situações

fisiopatológicas, também aumenta a probabilidade de serem desenvolvidos

agentes bloqueadores seletivos para uso em diferentes situações clínicas.

▼ Os anestésicos locais carregados não atravessam a membrana

plasmática e, desse modo, quando aplicados no exterior dos nervos, não

inibem o desencadeamento do potencial de ação. No entanto, podem

penetrar nas células através dos poros dos canais de TRP como o

TRPV1 (ver Capítulo 43). Uma vez que os canais TRPV1 estão

principalmente localizados nos neurônios sensoriais, transportando

informação da dor, levanta-se a possibilidade de aplicação de um

anestésico local, como QX-314 em conjunto com um ativador TRPV1,

e assim permitir que o anestésico local penetre e bloqueie os canais de

sódio apenas nos neurônios nociceptivos, resultando no bloqueio da

sensação de dor sem afetar os nervos motores, autônomos ou outros.

 

Tabela 44.2 Métodos de administração, usos e efeitos

adversos de anestésicos locais.

 

Método Usos Fármaco(s) Notas e efeitos adversos

Anestesia de superfície Nariz, boca, árvore brônquica Lidocaína, tetracaína Risco de toxicidade sistêmica

(geralmente na forma de (ametocaína), dibucaína, quando usada em áreas spray), córnea, trato urinário, benzocaína extensas e em concentrações útero (na histeroscopia) Não é elevadas O cloroetano muito útil na pele a (cloreto de etilo) aplicado na

pele produz um leve

resfriamento e dormência

local. Pode ser usado para

pequenos procedimentos

cirúrgicos

Frequentemente adiciona-se

epinefrina ou felipressina,

como vasoconstritores (não

Injeção direta em tecidos de em dedos das mãos ou dos

modo a atingir ramos e pés, pelo risco de lesão

Anestesia in ltrativa A maioria

terminais nervosos Usada em isquêmica dos tecidos)

pequenas cirurgias Apropriada somente para

pequenas áreas, caso

contrário, há risco de

toxicidade sistêmica

O AL é injetado por via

intravenosa distalmente em

Risco de toxicidade sistêmica

relação a um manguito

quando o manguito é

garroteando o uxo

Anestesia regional Principalmente lidocaína e desin ado prematuramente;

sanguíneo; a anestesia

intravenosa prilocaína o risco é pequeno se o

mantém-se até que a

manguito for mantido in ado

circulação seja restaurada

por pelo menos 20 minutos

Usada em cirurgia de

membros

Anestesia por bloqueio do O AL é injetado próximo aos A maioria É necessária menor

nervo troncos nervosos (p. ex., quantidade de AL do que

plexo braquial, nervos para a anestesia in ltrativa A

intercostais ou dentários) posição da agulha é para produzir perda de importante A instalação da

sensibilidade periférica Usada anestesia pode ocorrer

em cirurgia, odontologia, lentamente A duração da

analgesia anestesia pode ser

aumentada por adição de

vasoconstritor

O AL é injetado no espaço

subaracnoide ou intratecal

(contendo o líquido

cefalorraquidiano) e atua nas Os principais riscos são

raízes de nervos espinais e na bradicardia e hipotensão (em

medula Por vezes associado à razão do bloqueio simpático),

glicose (“hiperbárico”) para depressão respiratória (por

que a distribuição do ação sobre o nervo frênico ou

anestésico local possa ser sobre o centro respiratório);

Anestesia espinal b controlada nos pacientes Principalmente lidocaína isso pode ser evitado

inclinados Utilizado em restringindo-se a difusão do

cirurgia no abdome, pelve ou AL para a região craniana É

membros inferiores O comum haver retenção

anestésico local pode ser urinária pós-operatória

utilizado isolado ou em (bloqueio da descarga

conjunto com um anestésico autônoma pélvica) geral para reduzir o estresse

Apresenta um bom alívio da

dor pós-operatória

Os efeitos adversos são

O AL é injetado no espaço semelhantes aos da anestesia

epidural, bloqueando raízes espinal, porém menos

c Principalmente lidocaína e

Anestesia epidural espinais Usos como na prováveis, porque a difusão

bupivacaína

anestesia espinal; também longitudinal do AL é reduzida

para analgesia obstétrica É comum a retenção urinária

pós-operatória

AL, anestésico local. aA anestesia de superfície não responde bem quando é realizada sobre a pele, apesar de uma mistura não

cristalina de lidocaína e prilocaína (mistura eutética de anestésicos locais ou EMLA) ter sido desenvolvida para aplicação sobre a

pele, produzindo anestesia plena em cerca de 1 hora. A lidocaína está disponível sob a forma de emplastro medicamentoso que

pode ser aplicado na pele para reduzir a dor em casos como neuralgia pós-herpética (herpes-zóster). bA utilização da anestesia

espinal está sendo preterida em relação à via epidural. cA administração intratecal ou epidural de uma associação de AL com

opioide (ver Capítulo 43) produz analgesia mais e caz do que a que pode ser conseguida com opioide isoladamente. Apenas uma

pequena concentração de AL é necessária, insu ciente para promover perda sensorial apreciável ou outros efeitos adversos. O

mecanismo desse sinergismo é desconhecido, mas a associação mostrou-se útil no tratamento da dor.