Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 508 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Apoptose

A apoptose pode ser iniciada por vários sinais da superfície celular (ver

Capítulo 6). A célula é sistematicamente desmantelada, e os resíduos

contraídos são removidos pelos macrófagos sem causar inflamação. As

células apoptóticas podem ser reconhecidas por técnica de coloração que

detecta as rupturas características do DNA. Muitas vias de sinalização

diferentes podem resultar em apoptose, porém, em todos os casos, a via

final que resulta na morte da célula é a ativação de uma família de proteases

(caspases), que inativa várias proteínas intracelulares. A apoptose neural é

normalmente evitada pelos fatores de crescimento neuronal, incluindo o

fator de crescimento do nervo e o fator neurotrófico derivado do cérebro,

proteínas secretadas necessárias para a sobrevivência de diferentes

populações de neurônios no SNC. Esses fatores de crescimento regulam a

expressão de dois produtos gênicos Bax e Bcl-2, sendo Bax pró-apoptótico

e Bcl-2, antiapoptótico (ver Capítulo 6). O bloqueio da apoptose,

interferindo em pontos específicos dessas vias, representa estratégia atrativa

para o desenvolvimento de fármacos neuroprotetores, porém a ideia ainda

tem de frutificar.

 

ESTRESSE OXIDATIVO

O cérebro tem uma alta necessidade energética, suprida quase inteiramente

pela fosforilação oxidativa mitocondrial, gerando ATP e, ao mesmo tempo,

reduzindo o O2 molecular a H2O. Em certas circunstâncias, espécies altamente reativas de oxigênio, por exemplo, radicais livres de oxigênio e

hidroxilas e H2O2, podem ser geradas como produtos colaterais desse processo (Barnham et al., 2004). O estresse oxidativo é o resultado da

produção excessiva dessas espécies reativas. Elas também podem ser

produzidas como produto colateral de outras vias bioquímicas, incluindo a síntese de NO e o metabolismo do ácido araquidônico (que estão

implicados na excitotoxicidade; ver p. 516), bem como a função mista do

sistema P450 mono-oxidase (ver Capítulo 10). Sem antagonismo, os

radicais reativos de oxigênio atacam muitas moléculas-chave, incluindo

enzimas, lipídios da membrana e DNA. Durante os episódios de reperfusão

tecidual após isquemia (p. ex., no AVE), os leucócitos podem exacerbar

esse problema ao liberarem os seus próprios produtos citotóxicos à base de

oxigênio. Não é de se surpreender que haja mecanismos de defesa, na forma

de enzimas, tais como a superóxido dismutase (SOD) e a catalase, bem

como antioxidantes, tais como o ácido ascórbico, a glutationa e o α-

tocoferol (vitamina E), que normalmente mantêm essas espécies reativas

sob controle. Algumas citocinas, especialmente o fator de necrose tumoral

(TNF)-α, que é produzido em situações de isquemia cerebral ou de

inflamação (ver Capítulo 19), exercem efeito protetor, parcialmente por

aumentar a expressão da SOD. Os animais transgênicos sem receptores

TNF mostram aumento de suscetibilidade à isquemia cerebral. As mutações

do gene que codifica a SOD (ver Figura 41.2) estão associadas a ELA, uma

doença paralítica fatal, resultante da degeneração progressiva dos neurônios

motores (p. 528); e um camundongo transgênico expressando SOD mutada

desenvolve condição similar.3 O acúmulo de agregados da SOD mutada

com enoveladuras proteicas erradas também pode contribuir para a

neurodegeneração.

Figura 41.2 Mecanismos da excitotoxicidade. Os receptores de membrana, os canais iônicos e os transportadores, identificados pelos números 1 a 8, são discutidos no texto. Os possíveis locais de ação dos fármacos neuroprotetores (ainda sem valor clínico comprovado) estão destacados. Os mecanismos da esquerda (vilões) são os que favorecem a morte celular, enquanto os da direita (heróis) são protetores. Ver o texto para detalhes. AA, ácido araquidônico; RE, retículo endoplasmático; Glu, captação de glutamato; IP , trisfosfato de inositol; mGluR, receptor metabotrópico de glutamato; NO, 3