Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 636 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Malefícios das substâncias

Figura 50.1 Um esquema simplificado do ciclo recorrente da dependência de

substâncias.

 

MALEFÍCIOS DAS SUBSTÂNCIAS

Todas as substâncias de uso abusivo são prejudiciais, com gravidade

variável. Os efeitos adversos podem ser o resultado de uma superdosagem

(p. ex., depressão respiratória produzida por opioides), de efeitos em

diferentes tecidos do cérebro (p. ex., necrose do septo nasal resultante do

uso crônico de cocaína), da via de administração (p. ex., HIV e outras

infecções em usuários de drogas que partilham agulhas), de efeitos não

relacionados com ações específicas da substância (p. ex., carcinogenicidade

do fumo do tabaco, dor vesical grave em usuários regulares de cetamina)

ou do uso para propósitos ilegais (p. ex., flunitrazepam ou γ-

hidroxibutirato[GHB] como drogas de estupro). Muitos grandes

malefícios estão relacionados com a capacidade de algumas substâncias de

induzir dependência (p. ex., psicoestimulantes, opioides, etanol e tabaco) ou

de revelar suscetibilidade à doença psicótica em alguns indivíduos (p. ex.,

anfetaminas e Cannabis).

Uma tentativa de produzir uma escala racional de malefício, com base

na avaliação de um painel de peritos em risco físico, responsabilidade de

dependência e custo social, foi relatada por Nutt et al. (2010), que referiram

que essas taxas deveriam influenciar a forma como os governos fiscalizam e

punem as pessoas que fornecem e usam substâncias particulares. Como

seria esperado, o etanol, a heroína e a cocaína foram considerados as drogas

mais nocivas, com a Cannabis, o LSD e o ecstasy (MDMA, ver Capítulo

49) sendo muito menos – uma ordem que não se reflete na classificação de

tais drogas na lei do Reino Unido.3

 

DEPENDÌNCIA DE SUBSTÂNCIAS

A dependência (adicção) de substâncias descreve a condição humana na

qual:

 

• O consumo se torna compulsivo, tomando precedência sobre outras

necessidades

• Há perda de controle sobre a quantidade consumida

• Ocorrem alterações físicas e psicológicas quando o acesso à substância

é negado.

 

Assim, a dependência envolve componentes psicológicos e fisiológicos e

pode ser considerada como um processo de três estágios, em torno dos

quais os indivíduos dependentes reciclam (ver Figura 50.1). A

neurobiologia da dependência de substâncias é descrita em detalhe por

Koob e Volkow (2016).

A dependência torna-se um problema quando se torna tão insistente que

domina o estilo de vida do indivíduo e afeta a sua qualidade de vida, com o

hábito em si causando malefício ao indivíduo ou à comunidade. Exemplos

do último são incapacidade mental e lesão hepática causados pelo etanol, as

várias doenças associadas ao fumo de tabaco, o elevado risco de infecção

das injeções intravenosas (especialmente HIV e hepatite C), o risco sério de

superdosagem com a maior parte dos opioides e o comportamento

criminoso adotado quando os usuários de substâncias precisam financiar o

seu consumo.

Nem todas as substâncias psicoativas induzem dependência grave. As

principais indutoras de dependência são nicotina, etanol, opioides, cocaína,

anfetaminas e benzodiazepínicos. Cannabis, MDMA e substâncias

psicodélicas são menos indutoras de dependência.

Nem todas as pessoas que consomem substâncias progridem para

dependência. Estudos de famílias mostram claramente que a suscetibilidade à dependência é uma característica hereditária. Cerca de 50% do risco de se

tornar dependente é genético, sendo o restante atribuído ao

desenvolvimento (os adolescentes estão em maior risco do que os adultos) e

ao ambiente, por exemplo, estresse, pressões sociais e disponibilidade de

substâncias. Variantes de muitos genes diferentes podem ter uma pequena

contribuição para a suscetibilidade global de um indivíduo para a adicção –

um cenário familiar que fornece alguns indicadores para a intervenção

terapêutica. Polimorfismos em genes de metabolização de etanol (ver

Capítulo 49) são o melhor exemplo de genes que afetam diretamente a

tendência para o uso abusivo de uma substância.

 

Recompensa induzida por substância

A característica comum dos vários tipos de substâncias psicoativas que são

aditivas é o fato de todas produzirem uma experiência compensadora (p.

ex., elevação do humor ou sensação de euforia ou calma).

Em estudos animais, em que o estado do humor não pode ser avaliado

diretamente, a recompensa manifesta-se como um reforço positivo, ou seja,

aumento na probabilidade de ocorrência de qualquer comportamento

associado com a experiência da substância. Em estudos de local de

preferência condicionado, os animais recebem uma substância ou placebo e

são depois colocados em diferentes ambientes. Subsequentemente, quando

testados em um estado livre de substâncias, eles irão passar mais tempo no

ambiente associado com uma experiência previamente recompensadora.

Outra maneira de determinar se uma substância é recompensadora é testar

se os animais a autoadministram por meio do acionamento de uma alavanca

para a obtenção. Todas as substâncias produtoras de dependência são

autoadministradas por animais experimentais. As substâncias psicodélicas

não são, no entanto, normalmente autoadministradas por animais experimentais, o que pode indicar que, ao contrário dos humanos, eles

consideram a experiência não recompensadora.

Os humanos têm uma escolha sobre se querem ou não experimentar e

continuar a consumir substâncias; portanto, poderá existir um fator de risco

ao experimentá-las. Nos testes comportamentais, alguns ratos mostraram

ser muito mais impulsivos do que outros (Jupp et al., 2013). Tais ratos

impulsivos exibiram uma taxa mais elevada de autoadministração de

cocaína, nicotina, álcool e metilfenidato e tiveram uma expressão menor de

receptores de dopamina D2 e D3 no núcleo accumbens (ver adiante a importância dessa região do cérebro no consumo de substâncias). No

entanto, os ratos impulsivos não têm maior tendência para

autoadministrarem opioides.

 

Vias de recompensa

▼ Virtualmente, todas as principais substâncias produtoras de

dependência testadas até o momento, incluindo opioides, nicotina,

anfetaminas, etanol e cocaína, ativam a via da recompensa – a via

mesolímbica dopaminérgica (ver Capítulo 40), que se estende, via feixe

medial do prosencéfalo, desde a área tegmental ventral (VTA) do

mesencéfalo até o núcleo accumbens e a região límbica. Embora para

algumas dessas substâncias os seus locais primários de ação possam ser

em outras partes no encéfalo, todas elevam o nível extracelular de

dopamina no núcleo accumbens, conforme evidenciado por microdiálise

em animais e por técnicas de imagem cerebral in vivo em humanos. Os

opioides aumentam o disparo dos neurônios dopaminérgicos da VTA

por meio da redução da inibição GABAérgica (desinibição) no interior

da VTA, enquanto a anfetamina e a cocaína atuam nos terminais

nervosos dopaminérgicos no núcleo accumbens para liberar dopamina

ou prevenir a sua recaptação (ver Capítulo 15). Dado que a liberação de

dopamina no núcleo accumbens também é impulsionada por estímulos

naturalmente compensadores, como comida, água, sexo e nutrição,

parece que as substâncias estão apenas a ativar, ou a superativar, o

sistema de prazer do próprio corpo. Em usuários experientes, a

antecipação do efeito pode tornar-se suficiente para causar a liberação

de dopamina. Paradoxalmente, os estudos de imagem cerebral

revelaram que, nos usuários crônicos, o aumento da dopamina pode ser

inferior ao esperado quando comparado com o que é observado em

indivíduos iniciantes, mesmo tendo um prazer subjetivo intenso. Isso

pode refletir algum grau de sensibilização, mas o mecanismo não é bem

compreendido.

A interrupção química ou cirúrgica da via dopaminérgica VTA-

accumbens altera os comportamentos de procura de substâncias em

muitas situações experimentais. A deleção dos receptores D2 em uma

cepa de ratos transgênicos mostrou eliminar as propriedades de

recompensa da administração de morfina sem reduzir outros efeitos

opioides e não preveniu a ocorrência de sintomas físicos de privação

nos animais dependentes de morfina (Maldonado et al., 1997),

sugerindo que a via dopaminérgica seja responsável pela recompensa

positiva, mas não pelos efeitos de privação negativos. No entanto, os

antagonistas dos receptores D 2 (fármacos antipsicóticos; ver Capítulo

47) não foram bem-sucedidos no tratamento da adicção, e evidência

mais recente sugere que os receptores D1 ativados pelo aumento

acentuado da liberação de dopamina e, possivelmente, também os

receptores D 3 tenham papéis importantes. O desenvolvimento de

antagonistas dos receptores D 3 ou agonistas parciais como potenciais

tratamentos para o uso abusivo de substâncias está em curso (Maramai

et al., 2016).

 

Dependência física

Esta caracteriza-se por uma síndrome de abstinência ou de privação em que

a cessação da administração da substância ou a administração de um

antagonista provoca efeitos fisiológicos adversos. Na cessação prolongada

da administração da substância, os efeitos da privação podem persistir por

um período de dias ou semanas, sendo as respostas de privação precisas

características do tipo de substância consumida. A intensidade da síndrome

de privação também varia entre substâncias do mesmo tipo, de acordo com

as suas características farmacocinéticas. O desejo de evitar ou suprimir a

síndrome de privação aumenta a vontade de consumo. Em indivíduos sob

tratamento para dependência (desintoxicação), a intervenção farmacológica

pode ser usada para reduzir a intensidade da privação (Tabela 50.2).

▼ Os mecanismos responsáveis pela síndrome de privação foram

caracterizados de forma mais completa para a dependência de opioides,

mas mecanismos semelhantes podem aplicar-se à abstinência de cocaína

e etanol. Em nível celular, os opioides inibem a formação de cAMP, e a

privação resulta em um aumento de rebote como resultado da

“superativação” da adenilato ciclase, bem como aumento da quantidade

desta enzima. Isso resulta na ativação da proteinoquinase A (PKA), no

aumento da adenosina como consequência da conversão de cAMP a

adenosina e na ativação de um fator de transcrição – proteína de ligação

ao elemento de resposta a cAMP (CREB). O aumento na atividade da

PKA aumenta a excitabilidade dos terminais nervosos por meio da

fosforilação de transportadores de neurotransmissores, elevando a sua

condutância iônica (Bagley et al., 2005), bem como aumentando a

liberação de neutrotransmissores por ação direta no processo secretor

(Williams et al., 2001). A abstinência resulta no aumento da liberação

de GABA em várias partes do cérebro, provavelmente por intermédio

dos mecanismos descritos anteriormente (Bagley et al., 2011). A

liberação de outros neutrotransmissores também é provavelmente

aumentada. Por outro lado, os níveis extracelulares elevados de

adenosina, que atuam nos receptores pré-sináticos A 1 (ver Capítulo 17),

inibem a liberação de glutamato nas sinapses excitatórias e, portanto,

contrariam a hiperexcitabilidade neuronal que ocorre durante a

abstinência de substâncias, sugerindo a possibilidade – ainda não

provada clinicamente – de que os agonistas da adenosina possam ser

úteis no tratamento da dependência. A CREB, que está aumentada no

núcleo accumbens pela administração prolongada de opioides ou

cocaína, tem papel-chave na regulação de vários componentes de vias

de sinalização do cAMP, e os animais transgênicos sem CREB

mostraram sintomas de abstinência reduzidos (Chao e Nestler, 2004).

Vários tipos de fármacos terapêuticos, incluindo antidepressivos e

agentes antipsicóticos, também produzem sintomas de abstinência com

a cessação da administração, mas é importante distinguir esse tipo de

fenômeno de “rebote” comumente observado da dependência física

associada com substâncias de uso abusivo. Um grau de dependência

física é frequente quando os pacientes recebem analgésicos opioides no

hospital durante vários dias, mas isso raramente leva à adicção.

 

Tabela 50.2 Abordagens farmacológicas ao tratamento da

dependência de substâncias.

 

Mecanismo Exemplo(s)

Terapias de substituição • Metadona (agonista de opioides oral ativo com meia-vida biológica longa) e

buprenor na (agonista parcial de opioides absorvido via sublingual) ou heroína

legal para manter os pacientes dependentes de opioides

• Adesivos ou pastilhas de nicotina para aliviar os sintomas de abstinência da nicotina

• Naltrexona (antagonista de opioides não seletivo) para bloquear os efeitos opioides

Bloqueio da resposta agradável

em pacientes em abstinência

• Naltrexona e nalmefeno (agonista de opioides não seletivo/agonista parcial fraco)

para reduzir o uso de etanol (presumivelmente pelo bloqueio dos efeitos de

opioides endógenos liberados pelo etanol no cérebro)

• Mecamilamina (antagonista nicotínico) para bloquear os efeitos da nicotina

• Imunização contra a nicotina, cocaína e heroína para produzir anticorpos circulantes

(ainda em desenvolvimento)

• Dissul ram (inibidor da aldeído desidrogenase) para induzir uma resposta

Terapias aversivas

desagradável ao etanol

Para aliviar sintomas de privação • Metadona ou buprenor na usada a curto prazo para aliviar a privação dos opioides

• Ibogaína (um agente psicoativo natural) usado por alguns para reduzir os sintomas

de privação de opioides

• Agonistas de receptores α-adrenérgicos (p. ex., clonidina, lofexidina) para diminuir 2

os sintomas de privação dos opioides, álcool e nicotina

• Antagonistas de receptores β-adrenérgicos (p. ex., propranolol) para diminuir a

atividade simpática periférica excessiva

• Vareniclina (agonista parcial do receptor nicotínico α4β2) para aliviar os sintomas de

privação da nicotina. O tratamento pode ser continuado em indivíduos em

abstinência para reduzir o risco de recaída

• Benzodiazepínicos (p. ex., clorodiazepóxido), clometiazol, topiramato e GHB para

aliviar os sintomas de privação do álcool

Redução do uso contínuo de • Bupropiona (antidepressivo com alguma atividade de antagonista de receptor

substâncias (pode atuar pela nicotínico) e nortriptilina (antidepressivo inibidor da recaptação de norepinefrina)

redução da ânsia) para reduzir o uso de tabaco

• Clonidina (agonista de receptores α-adrenérgicos) para reduzir a ânsia por 2

nicotinaa

• a Acamprosato (antagonista de receptores de NMDA) para tratar o alcoolismo

• Topiramato e lamotrigina (agentes antiepilépticos) para tratar o alcoolismo e o uso

de cocaínaa

• a GHB reduz a ânsia por álcool e cocaína

• Baclofeno (agonista de receptores GABA ) reduz o uso de opioides, álcool e B

estimulantesa

• a Moda nila (inibidor da recaptação de dopamina) para reduzir o uso de cocaína

• a Ibogaína (alucinógeno natural) reduz a ânsia por estimulantes e opioides

a A e cácia de agentes na redução do uso continuado de substâncias de uso abusivo além dos listados ainda não foi determinada.

Notas: antidepressivos, estabilizadores de humor, ansiolíticos e antipsicóticos são úteis no tratamento de pacientes que, além do

consumo de substâncias, também sofrem de outros transtornos mentais. O antagonista de receptores CB1 canabinoide

rimonabanto, além dos seus efeitos antiobesidade, também reduz o consumo de nicotina, etanol, estimulantes e opioides. No

entanto, também induz depressão e o seu uso foi descontinuado.

GHB, ácido γ-hidroxibutírico.

 

Dependência psicológica

Durante períodos de privação, os indivíduos têm irritabilidade, estresse,

ansiedade, depressão do humor e respostas alteradas a experiências que

normalmente seriam prazerosas. Tais alterações comportamentais negativas

podem ser prolongadas e contribuir para o desejo de voltar ao consumo para

escapar desse estado emocional negativo (emoção negativa).

A memória de experiências prévias induzidas pela substância pode ser

muito intensa e prolongada, dando origem a ânsia ou fissura; pode levar um

indivíduo a consumir a substância novamente – referido como recaída –

mesmo após um longo período de abstinência (Weiss, 2005). A fissura pode

ser desencadeada por estresse ou por sugestão, tal como o ambiente que a pessoa associa com o consumo prévio da substância ou a visualização da

parafernália de administração de substâncias (p. ex., um cachimbo de crack

ou uma seringa). Isso sugere que a aprendizagem associativa pode ser um

fator importante na dependência psicológica (Robbins et al., 2008). Foi

sugerido que as substâncias alteram a formação de memórias para aumentar

a memória da experiência prévia da substância. Nesse aspecto, é

interessante que várias substâncias produzam alterações na plasticidade

sináptica, uma correlação celular da formação de memória (ver Capítulo

39). Enquanto cocaína, morfina, nicotina e álcool elevam a potenciação a

longo prazo (PLP) na VTA por meio do aumento da expressão de receptores

AMPA na membrana plasmática, a cocaína também aumenta a depressão a

longo prazo (DLP) no núcleo accumbens (Hyman et al., 2006).

Os fatores psicológicos da dependência de substâncias são discutidos

com detalhe por Koob e Volkow (2016) e resumidos na Figura 50.2.