Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 298 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Coagulação sanguínea

que se projeta ao longo do fluxo. O trombo pode soltar-se do local a que

está aderido e flutuar pela circulação, formando um êmbolo; os êmbolos

venosos geralmente se alojam na artéria pulmonar (“embolismo

pulmonar”), enquanto os trombos provenientes do lado esquerdo do coração

ou da artéria carótida geralmente se alojam em uma artéria, no cérebro ou

em outros órgãos, causando morte, AVE ou outra grave consequência.

O tratamento farmacológico para promover a hemostasia (p. ex.,

fármacos antifibrinolíticos e hemostáticos; ver p. 333) é indicado quando

houver um defeito no processo essencial (p. ex., fatores de coagulação

defeituosos ou em falta na hemofilia ou após terapia anticoagulante

excessiva), ou quando se tornar difícil controlar a hemorragia após cirurgia

ou na menorragia (períodos menstruais intensos). O tratamento

farmacológico para tratar ou prevenir a trombose ou o tromboembolismo é

usado com frequência, pois tais doenças são comuns e, além disso, graves.

Os fármacos afetam a hemostasia e a trombose de três formas distintas, ao

influenciar:

 

• A coagulação sanguínea (formação de fibrina)

• A função plaquetária

• A remoção da fibrina (fibrinólise).

 

COAGULAÇÃO SANGUÍNEA

CASCATA DA COAGULAÇÃO

A coagulação sanguínea é a conversão de sangue líquido em coágulo. O

evento principal é a conversão de fibrinogênio solúvel em fibras insolúveis

de fibrina por ação da trombina, o último passo de uma complexa cascata

enzimática. Os componentes (chamados fatores) estão presentes no sangue como precursores inativos (zimogênios) de enzimas proteolíticas e

cofatores. Estes são ativados por proteólise, sendo as formas “ativas”

designadas pelo sufixo “a”. Os fatores XIIa, XIa, Xa, IXa e trombina (IIa)

são todos serino-proteases. A ativação de pequenas quantidades de cada

fator catalisa a formação de quantidades maiores do fator seguinte, que

catalisa a formação de quantidades ainda maiores do próximo, e, assim,

sucessivamente; consequentemente, a cascata funciona como um

mecanismo de amplificação.1 Como é de se esperar, essa cascata enzimática

em aceleração precisa ser controlada por inibidores, caso contrário, todo o

sangue no corpo se solidificaria dentro de minutos após o início do processo

hemostático. Um dos fatores mais importantes é a antitrombina III, que

neutraliza todas as serino-proteases da cascata. O endotélio vascular

também limita a extensão do trombo ativamente (pp. 321-322).

Duas vias principais de formação de fibrina foram descritas

tradicionalmente (chamadas de “intrínseca” – porque todos os componentes

estão presentes no sangue – e a outra de “extrínseca” – porque alguns

componentes vêm de fora do sangue). A via intrínseca ou via “de contato” é

ativada quando o sangue extravasado entra em contato com uma superfície

artificial como o vidro, mas fisiologicamente o sistema funciona como uma

única via in vivo (Figura 25.2). O dano no tecido expõe o sangue ao fator

tecidual, iniciando o processo e levando à produção de uma pequena

quantidade de trombina. Esta atua por intermédio de inúmeros mecanismos

de retroalimentação positiva (sobre Va, VIIIa e plaquetas) que amplificam e

propagam o processo com a produção de mais trombina.

Figura 25.1 Principais eventos na formação do trombo arterial. A exposição de fosfolipídios ácidos durante a ativação de plaquetas fornece uma superfície sobre a qual os fatores IXa e VIIa interagem com o fator X; o fator Xa, então, interage com o fator II,

conforme ilustrado com mais detalhes na Figura 25.4. A ativação do fator XII também inicia

a via fibrinolítica, que é mostrada na Figura 25.10. (Uma série similar de eventos ocorre quando há lesão vascular, levando à hemostasia.) PAF, fator ativador de plaquetas; TXA2, tromboxano A . 2

 

▼ O “fator tecidual” é o receptor celular para o fator VII, que, na

presença de Ca2+, sofre uma transição do local ativo. Isso resulta na

ativação autocatalítica rápida de fator VII em VIIa. O complexo fator

tecidual-VIIa ativa o fator IX e o fator X. Fosfolipídios ácidos

funcionam como catalisadores de superfície. Eles se tornam disponíveis

durante a ativação de plaquetas, que expõe fosfolipídios ácidos

(especialmente a fosfatidilserina) na face externa da membrana

plaquetária, e estes ativam vários fatores de coagulação, justapondo-os

intimamente na forma de complexos funcionais. As plaquetas também

contribuem por meio da secreção de fatores de coagulação, como o fator

Va e o fibrinogênio. A coagulação é sustentada pela geração de mais

fator Xa pelo complexo IXa-VIIIa-Ca2+-fosfolipídio. Isso é necessário

porque o complexo fator tecidual-VIIa é rapidamente inativado no

plasma pelo inibidor da via do fator tecidual e pela antitrombina III. O

fator Xa, em presença de Ca2+, fosfolipídio e fator Va, ativa a

protrombina em trombina, a principal enzima da cascata. A via de

contato (intrínseca) começa quando o fator XII (fator de Hageman)

adere a uma superfície de carga negativa e converge com a via in vivo

no estágio da ativação do fator X (ver Figura 25.2). A parte proximal

dessa via não é crucial para a coagulação in vivo.2 As duas vias não

estão inteiramente separadas mesmo antes de convergirem, e várias

alças de retroalimentação positiva promovem a coagulação.

 

Papel da trombina

A trombina (fator IIa) cliva o fibrinogênio, produzindo fragmentos que se

polimerizam para formar fibrina. Ela também ativa o fator XIII, uma

fibrinoligase que fortalece as ligações fibrina-fibrina, de modo a estabilizar

o coágulo. Além da coagulação, a trombina também promove agregação de

plaquetas, estimula a proliferação celular e modula a contração de músculo

liso. Paradoxalmente, pode inibir, assim como promover, a coagulação (pp.

321-322). Os efeitos da trombina sobre as plaquetas e o músculo liso são

iniciados pela interação com receptores ativados por protease (RAP; ver

Capítulo 3) específicos, que pertencem à superfamília dos receptores

acoplados à proteína G. Os RAP iniciam respostas celulares que contribuem não apenas para a hemostasia e a trombose, mas também para a inflamação

e, talvez, a angiogênese. O mecanismo de transdução do sinal não é usual: a

ativação do receptor requer clivagem pela trombina do domínio N-terminal

extracelular do receptor, revelando uma nova sequência N-terminal que atua

como um “agonista aprisionado” (ver Figura 3.7).

 

Figura 25.2 Cascata da coagulação: locais de ação dos fármacos anticoagulantes.

Os anticoagulantes orais interferem na γ-carboxilação pós-translacional dos fatores II, VII,