Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos usados no tratamento do diabetes melito
Os principais tipos de fármacos utilizados são:
• Agentes administrados por injeção
• Insulina, nas várias formas e formulações (usada no diabetes tipos 1
e 2)
• Miméticos da incretina (p. ex., exenatida, liraglutida)
• Agentes orais (usados no diabetes tipo 2)
• Biguanidas (p. ex., metformina)
• Sulfonilureias (p. ex., tolbutamida, glibenclamida, glipizida) e
fármacos relacionados (p. ex., repaglinida, nateglinida)
• Tiazolidinedionas (p. ex., pioglitazona)
• Gliptinas (p. ex., sitagliptina)
• Inibidores do transporte da glicose (p. ex., empagliflozina).
Tratamento com insulina
Os efeitos da insulina e seus mecanismos de ação foram descritos
anteriormente. Aqui serão abordados os aspectos farmacocinéticos e os
efeitos adversos, ambos os quais são de suma importância na sua aplicação
terapêutica. Antigamente, a insulina para uso clínico era de origem porcina
ou bovina; porém, atualmente, ela é quase inteiramente humana (produzida
em sistemas de expressão pela tecnologia do DNA recombinante, ver
Capítulo 5). As insulinas animais eram passíveis de provocar uma resposta
imune, o que é improvável no caso das humanas recombinantes. Muito
embora a insulina recombinante seja mais consistente no que se refere à
qualidade do que as insulinas extraídas do pâncreas de animais recém-
abatidos, as doses ainda são quantificadas em termos de unidades de
atividade (ver Capítulo 8), com as quais médicos e pacientes são
familiarizados, em detrimento das unidades de massa.
■ Aspectos farmacocinéticos e preparações de insulina
A insulina é degradada no TGI e, em geral, é administrada por injeção
subcutânea, mas também intravenosa ou intramuscular em situações de
emergência. A insulina intraperitoneal pode ser utilizada em casos raros em
pacientes com diabetes, por meio de uma bomba de infusão contínua ou
diálise peritoneal ambulatorial, para aqueles com insuficiência renal em
fase terminal. Outras abordagens em potencial incluem a incorporação de
insulina em microesferas de polímero biodegradável como uma formulação
de liberação lenta, e sua encapsulação com uma lectina em uma membrana
permeável à glicose.7 Uma vez absorvida, a insulina apresenta meia-vida de
eliminação de aproximadamente 10 min. É inativada enzimaticamente no
fígado e no rim, e 10% são eliminados na urina. A ocorrência de
comprometimento renal reduz as necessidades de insulina.
Um dos principais problemas no uso da insulina consiste em evitar as
amplas flutuações observadas nas concentrações plasmáticas e,
consequentemente, na glicemia. Diferentes formulações variam em relação
ao tempo de pico de efeito e à duração da ação. A insulina solúvel produz
uma ação rápida e pouco duradoura. As preparações de ação mais
prolongadas são produzidas por precipitação da insulina com protamina ou
com zinco, formando, com isso, cristais sólidos amorfos finamente
divididos ou relativamente insolúveis, que são injetados como suspensão a
partir da qual a insulina é lentamente absorvida. Essas preparações incluem
a insulina isófana e as suspensões de insulina zíncica amorfa ou cristalina.
Estão disponíveis no mercado combinações em proporções fixas de
diferentes formulações de insulina.
Mais recentemente, as modificações de moléculas de insulina têm-se
concentrado em duas áreas diferentes: uma é a produção de moléculas com
um início de ação mais rápido para cobrir a hora das refeições, e a outra são as formulações de ação prolongada. O desenvolvimento de análogos de
ação rápida baseia-se na substituição de aminoácidos que promovem a
formação de monômeros de insulina para absorção mais rápida, enquanto
reduzem a agregação de dímeros e hexâmeros de insulina (Atkin et al.,
2015). Exemplos desses análogos incluem a insulina asparte, a insulina
lispro e a insulina glulisina, as quais envolvem diferentes trocas de
aminoácidos em posições tais como B28 e B29 na molécula de insulina.
Esses análogos atuam mais rapidamente (têm início de ação < 15 min e
alcançam, em geral, o pico de concentrações em 40 a 70 min após a
injeção), mas com uma duração menor do que a insulina natural. Essa
característica possibilita que os pacientes se injetem imediatamente antes do
início da refeição, em vez dos 30 min antes de comerem no caso da insulina
humana.
Os análogos da insulina basal ou de longa ação são concebidos com a
intenção oposta, designadamente para proporcionar um fornecimento basal
constante de insulina e mimetizar a secreção pós-absortiva fisiológica da
insulina basal. A insulina glargina, que é uma solução clara, forma um
microprecipitado no pH fisiológico no tecido subcutâneo, e a absorção é
prolongada a partir do local subcutâneo da injeção. Em contraste, a injeção
subcutânea de insulina detemir condiciona as moléculas a juntarem-se
mais avidamente, retardando, assim, a absorção para a circulação (Atkin et
al., 2015). A insulina degludeca é formada pela adição de uma cadeia
lateral de ácido graxo à insulina humana, e as moléculas resultantes juntam-
se para formar um depósito de extensos multi-hexâmeros após a injeção
subcutânea. Os monômeros da insulina degludeca dissociam-se lentamente
desse depósito, fornecendo, desse modo, uma duração de ação prolongada,
com menos de 40 horas.
São utilizados vários esquemas posológicos. Determinados pacientes
portadores de diabetes tipo 1 injetam uma combinação de insulina de curta
ação com insulina de ação intermediária 2 vezes/dia, antes do desjejum e
antes do jantar. Melhor controle da glicose no sangue pode ser alcançado
com múltiplas injeções diárias de análogos de insulina administrados com
as refeições e um análogo da insulina basal injetado 1 vez/dia
(frequentemente à noite). As bombas de insulina são utilizadas no hospital
para controlar a glicose sanguínea de modo agudo e estão também
disponíveis em um modo portátil, que oferece uma infusão subcutânea
contínua para os pacientes ambulatoriais. As mais sofisticadas controlam a
dosagem por meio de um sensor que mede continuamente a glicose do
sangue, mas ainda não são usadas rotineiramente. A solução utilizada,
aparentemente lógica, é limitada pela complexidade dos efeitos da insulina
no metabolismo intermediário (ver Tabela 32.2, Figura 32.3), os quais são
capturados de maneira imperfeita pela tecnologia existente de
monitoramento contínuo da glicose, e pelos riscos de infecção.
■ Efeitos adversos
O principal efeito adverso da insulina é a hipoglicemia, que é comum e, se
muito grave, pode causar danos cerebrais ou morte súbita cardíaca. No
estudo Diabetes Control and Complications Trial, mencionado
anteriormente, a terapia intensiva com o hormônio resultou em um aumento
de 3:1 nos episódios hipoglicêmicos graves em comparação com os
cuidados usuais. Em casos de hipoglicemia, ingere-se uma bebida ou um
alimento doce, ou, se o paciente estiver inconsciente, administra-se glicose
intravenosa ou glucagon intramuscular (ver boxe “Usos clínicos do
glucagon”). Uma hiperglicemia de rebote (“efeito de Somogyi”) pode
seguir-se à hipoglicemia induzida por insulina devido à liberação de hormônios contrarreguladores, como epinefrina, glucagon e
glicocorticoides. Tal fato pode causar hiperglicemia antes do desjejum após
uma crise de hipoglicemia durante o sono, a qual não é percebida e que
ocorre nas primeiras horas da manhã. Por isso, é essencial avaliar a
possibilidade de se evitar o erro de aumentar (em vez de reduzir) a dose
noturna de insulina nessa situação.
A alergia à insulina humana não é comum, muito embora possa ocorrer.
Ela pode manifestar-se sob a forma de reações locais ou sistêmicas. A
resistência à insulina como consequência da formação de anticorpos é rara.
As preocupações teóricas a respeito dos efeitos mitogênicos dos análogos
da insulina foram mencionadas anteriormente.
Usos clínicos da insulina e outros fármacos hipoglicemiantes injetáveis
• Os pacientes portadores de diabetes tipo 1 necessitam de tratamento com insulina a
longo prazo:
– Com frequência, combina-se uma preparação de ação intermediária (p. ex., a
insulina isófana) ou um análogo de ação prolongada (p. ex., a insulina glargina)
com uma insulina solúvel ou um análogo de curta duração (p. ex., a insulina lispro),
administrada antes das refeições
• A insulina solúvel é utilizada (via intravenosa) no tratamento de emergências
hiperglicêmicas (p. ex., a cetoacidose diabética)
• Aproximadamente um terço dos pacientes portadores de diabetes tipo 2 acaba
necessitando de tratamento com insulina
• Utiliza-se a insulina no tratamento a curto prazo de pacientes portadores de diabetes tipo
2 ou com intolerância à glicose durante eventos intercorrentes (p. ex., cirurgias, infecções,
infarto do miocárdio)
• Durante a gravidez, para o diabetes gestacional não controlado apenas com a dieta
• Tratamento de emergência da hiperpotassemia: a insulina é administrada juntamente
com a glicose com a nalidade de reduzir o K + extracelular por meio de redistribuição para
o interior das células
• Agonista do GLP-1 para o diabetes tipo 2 em adição aos agentes orais para melhorar o
controle e a perda de peso.
■ Biguanidas
A metformina8 (presente no lilás francês, Galega officinalis, utilizada na
medicina tradicional durante séculos para tratar o diabetes melito) é a única biguanida aplicada clinicamente no tratamento do diabetes tipo 2, para o
qual é agora um fármaco de primeira escolha.
Ações e mecanismo
O alvo ou alvos moleculares por meio dos quais as biguanidas atuam
permanecem pouco claros, mas as suas ações bioquímicas estão bem
compreendidas e incluem:
• Redução da produção da glicose hepática (gliconeogênese), que está
aumentada de maneira acentuada no diabetes tipo 2
• Aumento da captação de glicose e utilização no músculo esquelético (i.
e., reduz a insulinorresistência)
• Redução da absorção de carboidratos pelo intestino
• Aumento da oxidação de ácidos graxos
• Redução das lipoproteínas circulantes de baixa e alta densidades (LDL e
VLDL, respectivamente, ver Capítulo 24).
A redução da gliconeogênese hepática é especialmente importante. A
metformina diminui a produção de glicose hepática direta ou indiretamente
pela inibição do complexo I da cadeia respiratória mitocondrial (Viollet et
al., 2012). O resultante aumento de monofosfato de adenosina (AMP) ativa
a proteinoquinase do AMP ativado (AMPK), o qual é um regulador
importante da homeostase da energia nos eucariotos (Myers et al., 2017). A
ativação do AMPK no duodeno desencadeia a liberação de GLP-1, o qual
estimula a rede vagal intestino-cérebro-fígado, que regula a produção da
glicose hepática (Duca et al., 2015). A administração crônica de
metformina altera a recirculação dos ácidos biliares e a composição do
microbioma intestinal no tipo 2, levando a uma secreção aumentada de
GLP-1 nos pacientes diabéticos (Napolitano et al., 2014).
A metformina tem meia-vida de cerca de 3 h e é eliminada de maneira
inalterada na urina.
Efeitos adversos
A metformina, ao mesmo tempo que previne a hiperglicemia, não causa
hipoglicemia, e os efeitos indesejáveis mais comuns incluem os distúrbios
gastrintestinais relacionados com a dose (p. ex., anorexia, diarreia, náuseas),
os quais são, em geral, mas nem sempre, transitórios. A ocorrência de
acidose láctica é rara, mas pode ser um efeito tóxico potencialmente fatal.
Assim, a metformina não deve ser administrada de rotina a pacientes
portadores de doença renal ou hepática, doença pulmonar hipóxica ou
choque, pois estão mais predispostos ao desenvolvimento de acidose
láctica, uma vez que apresentam redução na taxa de eliminação do fármaco
ou menor oxigenação tecidual. O medicamento também deve ser evitado
em outras situações que predisponham ao desenvolvimento de acidose
láctica, incluindo intoxicação por álcool e algumas formas de miopatia
mitocondrial que estão associadas ao diabetes melito. O uso a longo prazo
pode interferir na absorção da vitamina B12.
Uso clínico
A metformina é utilizada para tratar pacientes portadores de diabetes tipo 2.
Ela não estimula o apetite e é a primeira escolha na maioria dos pacientes
com diabetes tipo 2 que são obesos, assumindo-se que não apresentem
comprometimento das funções renal ou hepática. Pode ser combinada com
outros agentes que diminuem a glicose sanguínea se esta não estiver
controlada adequadamente. Além do diabetes tipo 2, outros usos em
potencial incluem demais síndromes que acompanham a resistência à
insulina, incluindo síndrome dos ovários policísticos, esteatose hepática não
alcoólica, diabetes gestacional e algumas formas de puberdade prematura.
■ Sulfonilureias
As sulfonilureias foram desenvolvidas após a observação casual de que um
derivado da sulfonamida (utilizado no tratamento da febre tifoide) causava
hipoglicemia. Estão disponíveis no mercado diversas formas do fármaco, e
as primeiras a serem utilizadas terapeuticamente foram a tolbutamida e a
clorpropamida. A clorpropamida tem uma ação de longa duração, e uma
fração substancial é eliminada na urina. Consequentemente, ela pode causar
hipoglicemia grave, especialmente nos pacientes idosos cuja função renal
declina de maneira inevitável, mas insidiosa (ver Capítulo 30). Provoca
rubor após o consumo de álcool, devido a um efeito semelhante ao do
dissulfiram (ver Capítulo 50), e exerce ação semelhante à do hormônio
antidiurético sobre o néfron distal, produzindo hiponatremia e intoxicação
hídrica. Williams (1994) comenta que “a clorpropamida consagrada pelo
tempo, porém idiossincrásica, já deveria ter sido abandonada”. No entanto,
a tolbutamida continua sendo útil. As assim denominadas sulfonilureias de
segunda geração (p. ex., glibenclamida e glipizida; Tabela 32.3) são mais
potentes, mas seu efeito hipoglicemiante máximo não é maior, e o controle
da glicemia não é melhor do que o obtido com a tolbutamida. Todos esses
fármacos contêm uma porção de sulfonilureia e agem do mesmo modo;
porém, distintas substituições resultam em diferenças na farmacocinética e,
portanto, na duração da ação (ver Tabela 32.3).
Mecanismo de ação
A principal ação das sulfonilureias se dá sobre as células β (ver Figura
32.1), estimulando a secreção de insulina e reduzindo, desse modo, os
níveis de glicose no plasma. Existem locais de ligação de alta afinidade para
as sulfonilureias nos canais de KATP (ver Capítulo 4) na superfície da membrana das células β; o grau de afinidade de várias delas correlaciona-se
à sua potência na estimulação da liberação de insulina. O bloqueio da ativação dos canais KATP pelas sulfonilureias causa despolarização das células β, entrada de Ca2+ e secreção de insulina. É possível comparar esse
efeito com o controle fisiológico da secreção de insulina (ver Figura 32.1).
Tabela 32.3 Fármacos hipoglicemiantes orais –
sulfonilureias.
Fármaco Potência relativa Comentários gerais b meia-vida (horas) a Duração de ação e Aspectos
farmacocinéticos
Parte do fármaco é Fármaco seguro; convertida no fígado menor probabilidade
em de causar hidroxitolbutamida, hipoglicemia que é pouco ativa;
Tolbutamida 1 6 a 12 (4) Pode diminuir a
parte sofre
captação de iodo pela
carboxilação a um
tireoide
composto inativo
Contraindicado na
Eliminação renal
insu ciência hepática
Parte do fármaco é
oxidada no fígado, Pode causar formando produtos hipoglicemia
Glibenclamida 150 18 a 24 (10) O metabólito ativo ativos, os quais são c moderadamente
eliminados na urina; acumula-se na 50% são eliminados insu ciência renal
inalterados nas fezes
Glipizida 100 16 a 24 (7) Alcança níveis Pode causar
plasmáticos máximos hipoglicemia em 1 h
Apresenta efeito
diurético
A maior parte é Apenas produtos metabolizada no inativos se acumulam
fígado a produtos na insu ciência renal
inativos, os quais são
eliminados na urina;
12% são eliminados
nas fezes
a b c Em relação à tolbutamida. Todos esses fármacos circulam altamente ligados a proteínas (90 a 95%). Denominada gliburida
nos EUA.
Aspectos farmacocinéticos
As sulfonilureias são bem absorvidas após a administração por via oral, e a
maioria alcança as concentrações plasmáticas máximas em 2 a 4 h, sendo
que a duração da ação varia (ver Tabela 32.3). Todas se ligam fortemente à
albumina plasmática e estão envolvidas em interações com outros fármacos
(p. ex., salicilatos e sulfonamidas) que competem por esses pontos de
ligação (ver Capítulo 9). A maior parte das sulfonilureias (ou seus
metabólitos ativos) é eliminada na urina, de modo que sua ação está
aumentada e prolongada nos idosos e nos pacientes portadores de doença
renal.
Além disso, maioria das sulfonilureias atravessa a placenta e está
presente no leite materno; portanto, seu uso está contraindicado durante a
gravidez e a lactação.
Efeitos adversos
As sulfonilureias são geralmente bem toleradas, e as ações indesejáveis são
descritas na Tabela 32.3. O efeito adverso mais comum é a hipoglicemia, a
qual pode ser grave e prolongada; a incidência é maior com os fármacos de
longa duração, como a clorpropamida e a glibenclamida, e as menores
incidências ocorrem com a tolbutamida. É melhor evitar o uso da glibenclamida no indivíduo idoso e nos pacientes que apresentam
comprometimento renal, mesmo que leve, devido ao risco de hipoglicemia.
As sulfonilureias ainda estimulam o apetite e, frequentemente, levam a um
aumento ponderal. Tal fato é uma preocupação importante em pacientes
diabéticos obesos, pois cerca de 3% deles apresentam desconforto
gastrintestinal. Podem ocorrer também erupções alérgicas, e a lesão de
medula óssea (ver Capítulo 58), embora rara, pode ser uma complicação
grave.
Durante o infarto agudo do miocárdio em pacientes diabéticos e alguns
dias depois dele, a insulina deve substituir o tratamento com sulfonilureias.
Essa substituição está associada a uma redução substancial na mortalidade a
longo prazo, embora continue sendo incerto se isso ocorre devido a um
efeito benéfico específico da insulina ou para evitar um efeito deletério das
sulfonilureias nessa situação, ou ambos. Outra questão problemática é
estabelecer se a terapia prolongada com fármacos hipoglicemiantes orais
acarreta efeitos adversos cardiovasculares. Teoricamente, o bloqueio dos
canais K ATP no coração e no tecido vascular poderia desencadear efeitos adversos, e um estudo observacional constatou um risco aumentado de
morte e de doença cardiovascular durante o seguimento, até 8 anos, em
pacientes diagnosticados com diabetes tipo 2 tratados com sulfonilureias,
em comparação com pacientes tratados com metformina (Evans et al.,
2006).
Interações medicamentosas
Diversos fármacos aumentam os efeitos hipoglicemiantes das
sulfonilureias. Foi relatado que anti-inflamatórios não esteroidais, varfarina,
alguns uricosúricos (p. ex., a sulfimpirazona), álcool, inibidores da
monoamina oxidase, alguns agentes antibacterianos (incluindo
sulfonamidas, trimetoprima e cloranfenicol) e alguns antifúngicos imidazólicos produzem hipoglicemia grave quando administrados em
conjunto com as sulfonilureias. A provável base para a maioria dessas
interações consiste na competição pelas enzimas de metabolismo, mas a
interferência na ligação com as proteínas plasmáticas ou com mecanismos
de transporte que facilitam a excreção também pode desempenhar algum
papel.
Os agentes que diminuem a ação das sulfonilureias sobre a glicemia
incluem os diuréticos tiazídicos (ver Capítulos 22 e 30) em doses elevadas e
os corticosteroides (interações farmacodinâmicas).
Uso clínico
As sulfonilureias são utilizadas para tratar o diabetes tipo 2 em seus
estágios mais iniciais; todavia, uma vez que esses fármacos requerem a
presença de células β funcionantes, eles não são úteis no tratamento do
diabetes tipo 1 ou nos estágios mais tardios do diabetes tipo 2, podendo ser
associados à metformina.
Outros fármacos que estimulam a secreção de insulina
Foram desenvolvidos diversos fármacos que agem da mesma maneira que
as sulfonilureias, por meio do bloqueio do receptor delas nos canais KATP nas células β pancreáticas; no entanto, tais medicamentos não apresentam a
porção sulfonilureia. Esse grupo de fármacos inclui a rapaglinida e a
nateglinida, as quais, embora muito menos potentes do que a maioria das
sulfonilureias, têm rápidos início e fim de ação, o que leva a uma curta
duração do efeito e baixo risco de hipoglicemia.9 Esses fármacos são
administrados logo após as refeições, a fim de reduzir o aumento pós-
prandial da glicemia nos pacientes portadores de diabetes tipo 2 que não são
corretamente controlados com dieta e exercício. Eles podem causar menor
ganho ponderal do que as sulfonilureias convencionais. Mais tardiamente no curso da doença, eles podem ser associados à metformina ou a outros
agentes hipoglicemiantes orais. Diferentemente da glibenclamida, esses
fármacos são relativamente seletivos para os canais KATP presentes nas
células β em detrimento dos KATP existentes no músculo liso vascular.
■ Tiazolidinadionas (glitazonas) | Pioglitazona
As tiazolidinadionas (ou glitazonas) foram desenvolvidas após a
observação casual de que um análogo do clofibrato, a ciglitazona, que
estava sendo estudada devido aos seus efeitos sobre os lipídios, reduziu a
glicemia de maneira inesperada. A ciglitazona provocava toxicidade
hepática, e essa classe de fármacos, apesar de um considerável sucesso
comercial, foi marcada por efeitos adversos (principalmente
cardiovasculares), retirada dos mercados regulamentares e
controvérsia.Nenhum ensaio clínico desses agentes demonstrou um efeito
benéfico na mortalidade; eles foram autorizados com base nos efeitos
estatisticamente significativos na hemoglobina A1c (um marcador
substituto do estado de diabetes melito a longo prazo) e de importância
clínica incerta. A pioglitazona é o único fármaco dessa classe que continua
tendo uso clínico; seus predecessores, rosiglitazona e troglitazona,
enfrentaram uma ação regulamentar devido ao risco aumentado de ataques
cardíacos e danos hepáticos, respectivamente (na época, uma causa célebre
e muito dispendiosa para as empresas envolvidas).
Efeitos
Os efeitos das tiazolidinadionas sobre a glicemia são de início lento, e a
ação máxima alcançada ocorre apenas com 1 a 2 meses após o início do
tratamento. Elas atuam por meio do reforço da eficácia da insulina
endógena, reduzindo, desse modo, a produção de glicose no fígado e
aumentando a sua captação no músculo.
Elas também diminuem a quantidade necessária de insulina exógena
para manter determinado nível de glicemia em aproximadamente 30%. A
redução das concentrações de glicose no sangue é acompanhada da
diminuição nas concentrações de insulina e de ácidos graxos livres. É
comum um ganho ponderal de 1 a 4 kg, que estabiliza em um período de 6 a
12 meses. Parte desse ganho ponderal é atribuível à retenção hídrica, pois
há um aumento no volume plasmático de até 500 m ℓ , com uma redução
concomitante na concentração de hemoglobina causada pela hemodiluição.
Ocorre também aumento no fluido extravascular e na deposição de gordura
no tecido subcutâneo (em contraste com a gordura visceral).
Mecanismo de ação
As tiazolidinadionas ligam-se a um receptor nuclear denominado receptor-γ
ativado por proliferadores de peroxissomo (PPAR, do inglês peroxisome
proliferator-activated receptor-γ ), o qual forma um complexo com o
receptor de retinoide X (RXR; ver Capítulo 3).10 Permanece um mistério o
fato de que a homeostasia da glicose deve responder de modo tão marcante
aos fármacos que se ligam a receptores encontrados principalmente nas
células do tecido adiposo; diante disso, foi sugerido que uma provável
explicação seria uma reestruturação do ciclo glicose-ácido graxo (Randle)
por meio da redução de ácidos graxos livres.
Efeitos adversos
Os dados de ensaios clínicos demonstraram um risco significativamente
aumentado de uma série de efeitos adversos com a pioglitazona, incluindo
insuficiência cardíaca, fraturas ósseas, edema e ganho de peso (Liao et al.,
2017). As glitazonas são atualmente utilizadas com muito menos
frequência.
Uso clínico A pioglitazona tem um efeito aditivo com outros antidiabéticos orais em
termos de efeito glicemia, e existe em comercialização um comprimido
combinado com metformina.
■ Inibidores da α-glicosidase
A acarbose, um inibidor da α-glicosidase intestinal, é utilizada nos
pacientes portadores de diabetes tipo 2 cuja doença é controlada de maneira
inadequada com a dieta ou sem outros agentes. Ela retarda a absorção de
carboidratos, reduzindo a elevação da glicemia pós-prandial. Os efeitos
adversos mais comuns estão relacionados com a sua ação principal e
consistem em flatulência, fezes amolecidas ou diarreia, dor abdominal e
sensação de plenitude. De modo semelhante à metformina, esse fármaco
pode ser de particular importância nos pacientes obesos portadores de
diabetes tipo 2, além de poder ser administrado em conjunto com a
metformina.
■ Fármacos que mimetizam as incretinas e outros
relacionados
A exenatida é uma versão sintética da exendina-4, um Galega officinalis
encontrado na saliva do monstro-de-gila (um lagarto que presumivelmente
desenvolveu essa característica como meio de capturar suas presas
provocando hipoglicemia).
Os agonistas do GLP-1 diminuem a glicose no sangue após uma
refeição ao aumentar a secreção de insulina, suprimindo a de glucagon e
atrasando o esvaziamento gástrico. Eles reduzem a ingestão de alimentos
(pelo efeito na saciedade, ver Capítulo 33) e estão associados a modesta
diminuição do peso, além de diminuírem a acumulação de gordura hepática.
Os agonistas GLP-1 são administrados por injeção subcutânea, seja 1
vez/dia (exenatida, liraglutida, lixisenatida) ou 1 vez/semana (exenatida,
albiglutida, dulaglutida de liberação prolongada). A pancreatite é rara,
mas potencialmente grave. Os agonistas GLP-1 são utilizados em pacientes
com diabetes tipo 2 em combinação com outros fármacos (metformina com
ou sem sulfonilureia, pioglitazona, insulina).
■ Gliptinas
As gliptinas (p. ex., sitagliptina, vildagliptina, saxagliptina, linagliptina)
são fármacos sintéticos que inibem competitivamente a DPP-4. Desse
modo, diminuem a glicose no sangue ao potenciar as incretinas endógenas
(GLP-1 e GIP), que estimulam a secreção de insulina.
Não provocam perda ou aumento de peso e são absorvidas pelo
intestino e administradas 1 vez/dia por via oral (ou, no caso da
vildagliptina, 2 vezes/dia oralmente. São eliminadas parcialmente por
excreção renal e também são metabolizadas pelas enzimas hepáticas CYP.
Normalmente são bem toleradas com uma série de efeitos gastrintestinais
adversos leves; doença hepática, insuficiência cardíaca (particularmente
com saxagliptina ou alogliptina) e pancreatite (com uma incidência
aproximada de 0,1 a 1%) são menos comuns, mas potencialmente graves.
Também existe a preocupação de que possam atuar como potenciadores
tumorais (ver Capítulo 58). As gliptinas são utilizadas no diabetes tipo 2,
além de outros antidiabéticos orais (ver boxe “Usos clínicos dos fármacos
hipoglicemiantes orais”).
A evidência da eficácia cardiovascular ou do efeito na mortalidade é
inconsistente, sendo a liraglutida o único agente a produzir uma redução
demonstrável de efeitos adversos cardíacos importantes (Paneni e Luscher, 2017), enquanto nem a sitagliptina nem a exenatida demonstraram tais
benefícios em ensaios clínicos de grande escala.
■ Inibidores do transporte da glicose
Vários inibidores SGLT2 estão licenciados para utilização no diabetes tipo
2. São exemplos: canagliflozina, dapagliflozina e empagliflozina.
Mecanismo de ação
Os inibidores SGLT2 atuam promovendo a excreção de glicose para a urina,
reduzindo a concentração de glicose circulante. A glicosúria resultante está
associada a diurese osmótica e excreção de sal.
Efeitos
Os estudos clínicos encontraram quantidades elevadas de glicose na urina
durante períodos sustentados e um aumento associado do volume urinário.
Como a eficácia dos inibidores de SGLT2 depende de função renal e débito
urinário adequados, esses agentes têm um efeito limitado ou não têm efeito
em pacientes com doença renal crônica. Os ensaios clínicos confirmaram as
melhorias nas concentrações de glicose em jejum e pós-prandial, além de
uma redução significativa na hemoglobina glicada (Storgaard et al., 2016).
O efeito diurético osmótico e a perda calórica (pela glicose na urina)
conduzem também a uma redução na pressão arterial sistólica e no peso
corporal (Abdul-Ghani et al., 2015). Um ensaio clínico da empagliflozina
(Empa-Reg Outcome) relatou reduções substanciais nos eventos
cardiovasculares, para os quais esses efeitos hemodinâmicos provavelmente
contribuem de modo substancial (Paneni e Luscher, 2017).
Características farmacocinéticas
Os inibidores SGLT2 são absorvidos rapidamente, com um tempo para o
pico de concentração plasmática menor que 2 h. Eles têm uma forte ligação às proteínas plasmáticas (> 80%).