Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 476 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos que atuam sobre os receptores de glutamato

receptor mGlu grupo 1 também contribui para o aumento na [Ca2+]i.

Esse aumento na [Ca2+]i na célula pós-sináptica ativa as

proteinoquinases, fosfolipases e óxido nítrico sintase, que agem em

conjunto com outros processos celulares para facilitar a transmissão por

intermédio dos receptores AMPA. Inicialmente, durante a fase de

indução da PLP, a fosforilação dos receptores AMPA aumenta sua

responsividade ao glutamato. Mais tarde, durante a fase de manutenção,

mais receptores AMPA são recrutados para a membrana das

terminações dendríticas pós-sinápticas, como resultado do transporte

alterado do receptor; mais tarde ainda, vários outros mediadores e vias

de sinalização são ativados, causando alterações estruturais e levando a

aumento permanente no número de contatos sinápticos.

As descrições gerais da PLP e da DLP dadas anteriormente têm a

intenção de proporcionar ao leitor leigo uma visão geral do tópico. Há

diferenças sutis nas suas formas e nos mecanismos subjacentes às

diferentes sinapses no SNC. O modo como a PLP e a DLP, em todas as

suas aparências, se relacionam com diferentes formas da memória tem

sido lentamente trabalhado (Kessels e Malinow, 2009; Connor e Wang,

2016). Assim, há esperança de que os fármacos capazes de modificar a

PLP e a DLP possam melhorar a aprendizagem e a memória.

 

FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS RECEPTORES DE GLUTAMATO

 

Antagonistas e moduladores negativos

 

■ Antagonistas do receptor de glutamato inotrópico

Os principais tipos e exemplos de antagonistas de glutamato inotrópico são

mostrados na Tabela 39.1. Eles são seletivos para os principais tipos de receptores, porém, em geral, não para os subtipos específicos. Muitos

desses compostos, embora muito úteis como ferramentas experimentais in

vitro, são incapazes de penetrar na barreira hematencefálica; assim, não são

efetivos quando usados sistemicamente.

Os receptores NMDA, como discutido anteriormente, precisam de

glicina, bem como de NMDA, para ativá-los, de modo que o bloqueio do

ponto da glicina é a maneira alternativa de produzir antagonismo. O ácido

cinurênico e seu análogo mais potente, o ácido 7-cloro-cinurênico, agem

dessa maneira. Outro local de bloqueio é o próprio canal, em que agem

substâncias como a cetamina, a fenciclidina e a memantina. Esses agentes

são lipossolúveis e, assim, capazes de cruzar a barreira hematencefálica.

Figura 39.7 Mecanismos da potencialização a longo prazo. A. Na atividade sináptica infrequente, glutamato ativa principalmente os receptores AMPA. Há glutamato insuficiente para ativar os receptores metabotrópicos, e os canais dos receptores ácido N-metIL-D-aspártico (NMDA) estão bloqueados pelo Mg2+. B. Depois de uma salva de estímulos condicionadores, libera-se glutamato suficiente para ativar os receptores metabotrópicos, e os canais NMDA são desbloqueados pela despolarização sustentada. Os aumentos resultantes na [Ca2+] ativam várias enzimas, incluindo as seguintes:

i

 

O interesse no potencial terapêutico dos antagonistas do receptor de

glutamato inotrópico situa-se principalmente na redução da lesão cerebral,

logo após os acidentes vasculares encefálicos (AVE) e o traumatismo

craniano (ver Capítulo 41), bem como no tratamento da epilepsia (ver

Capítulo 46) e da doença de Alzheimer (ver Capítulo 41). Eles também

foram considerados para outras indicações, tais como dependência de

fármacos (ver Capítulo 50), esquizofrenia (ver Capítulo 47) e depressão

(ver Capítulo 48). Os ensaios com os antagonistas NMDA e com os

bloqueadores de canal, até o momento, mostraram-se desapontadores, e o

sério empecilho desses agentes é sua tendência a causar alucinações e

outras alterações (característica também da fenciclidina; ver Capítulo 49).

Apenas dois antagonistas do receptor NMDA, cetamina (anestesia,

analgesia e depressão; ver Capítulos 42, 43 e 48) e memantina (doença de

Alzheimer; ver Capítulo 41) estão em uso clínico. A cetamina é também

usada pelas suas propriedades psicoativas (ver Capítulo 49), induzindo

sensações semelhantes à experiência “fora do corpo” (indo “para o K-

hole”). É possível que os antagonistas seletivos dos receptores NMDA que

contêm a subunidade GluN2B, que é altamente permeável ao Ca2+, possam

ser eficazes no tratamento da neurodegeneração e apresentem poucos

efeitos adversos no SNC. O perampanel, um antagonista não competitivo

do receptor AMPA, foi apresentado como um fármaco antiepiléptico (ver

Capítulo 46). As prospecções para os antagonistas dos receptores de cainato

parecem promissoras – os antagonistas de GluK1 demonstraram potencial

para tratamento de dor, enxaqueca, epilepsia, AVE e ansiedade (Jane et al.,

2009).

De forma geral, as promessas antecipadas para o uso clínico dos

antagonistas ionotrópicos dos receptores de glutamato tiveram menos

sucesso que o esperado. O problema pode ser que o glutamato seja um

mediador tão onipresente e multifuncional – envolvido, pelo que parece, em

quase todos os aspectos da função cerebral – que tentar melhorar

determinada disfunção inundando o cérebro com um composto que afeta o

sistema glutamato seja, de alguma maneira, uma estratégia muito agressiva. Espera-se que a subunidade de moduladores alostéricos seletivos negativos

possa apresentar menos efeitos adversos do que as gerações anteriores de

antagonistas ortostéricos.

 

■ Antagonistas dos receptores metabotrópicos de glutamato

Enquanto os antagonistas que discriminam entre os diferentes grupos de

receptores mGlu estão disponíveis (ver Tabela 39.2), provou-se que é mais

difícil desenvolver antagonistas seletivos para os subtipos dentro de outros

grupos. Os receptores mGlu, assim como muitos receptores acoplados à

proteína G, apresentam locais de modulação alostérica que pode ser tanto

inibitória quanto estimulatória (ver Capítulo 3). Os antagonistas ou

moduladores alostéricos negativos que atuam nos receptores mGlu do grupo

1 apresentam potencial no tratamento da síndrome do X frágil,7 vários

estados de dor, doença de Parkinson (incluindo o controle das discinesias

provocadas pela levodopa, ver Capítulo 41), neuroproteção, epilepsia e uso

abusivo de fármacos; enquanto os antagonistas ou moduladores alostéricos

negativos que atuam nos receptores mGlu do grupo 2 poderão ter papel

como potencializadores cognitivos (Nicoletti et al., 2011).

 

Agonistas e moduladores positivos

 

■ Receptores ionotrópicos de glutamato

Vários agonistas dos receptores ionotrópicos de glutamato, que foram

usados experimentalmente, são mostrados na Tabela 39.1. Pela perspectiva

clínica, o interesse está centralizado na teoria de que os moduladores

positivos dos receptores AMPA podem melhorar a memória e o

desempenho cognitivo. Os primeiros exemplos incluem ciclotiazida,

piracetam (aprovado para utilização em certas formas de epilepsia, ver

Capítulo 46) e CX-516 (Ampalex). Estes moduladores alostéricos positivos, conhecidos como ampacinas, podem agir sutilmente de formas

diferentes e aumentar a amplitude da resposta, proporcionar uma

desativação lenta e atenuar a dessensibilização das correntes mediadas pelos

receptores AMPA. Desse modo, aumentam as respostas sinápticas mediadas

pelo AMPA e melhoram a PLP, bem como a regulação da produção de

fatores de crescimento das fibras nervosas tais como o BDNF (do inglês,

brain-derived neurotrophic factor). Inicialmente, pensava-se que as

ampacinas poderiam ter um papel como potencializadores cognitivos

(nootrópicos ou “fármacos da inteligência”) e no tratamento da

esquizofrenia, da depressão, do transtorno do déficit de atenção com

hiperatividade (TDAH) e na doença de Parkinson (Lynch, 2006); no

entanto, até o momento, os ensaios clínicos foram desanimadores. Uma

ampacina recentemente desenvolvida, a CX1739, está em ensaio clínico

para o tratamento de insuficiência respiratória induzida por fármacos. A

inibição do transportador de glicina GlyT1 conduz a um aumento dos níveis

de glicina extracelular por todo o cérebro e, por meio da potenciação das

respostas mediadas pelos receptores NMDA, poderá ser benéfica no

tratamento de vários distúrbios neurológicos (Harvey e Yee, 2013).

 

■ Receptores metabotrópicos de glutamato

O desenvolvimento de agonistas seletivos dos receptores mGlu apresentou

bastante dificuldade; recentemente, foram criados moduladores alostéricos

positivos seletivos (Nicoletti et al., 2011). Os receptores mGlu dos grupos 2

e 3 estão localizados pré-sinapticamente nos terminais nervosos, e os

agonistas nesses receptores diminuem a liberação do glutamato. Por esse

motivo, pensou-se que os agonistas do grupo 2 mGlu e os moduladores

alostéricos positivos tivessem potencial terapêutico na diminuição da morte

das células neuronais no caso de AVE e no tratamento da epilepsia, mas, até o momento, os resultados dos ensaios clínicos foram desanimadores. Os