Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 657 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Aminoglicosídios

▼ Aspectos farmacocinéticos.Administrado por via oral, o

cloranfenicol é absorvido rápida e completamente, alcançando

concentração máxima no plasma após 2 horas. Também pode ser

administrado por via parenteral. O fármaco apresenta ampla distribuição

nos tecidos e líquidos corporais, incluindo o LCR; a meia-vida é de

aproximadamente 2 horas. Cerca de 10% do cloranfenicol é excretado,

inalterado, pela urina, e o restante é inativado no fígado.

Efeitos adversos.O principal efeito adverso do cloranfenicol é a

depressão medular grave idiossincrática, que resulta em pancitopenia

(diminuição global dos elementos celulares do sangue) – um efeito que,

embora raro, pode ocorrer mesmo com dosagens baixas em alguns

pacientes. O cloranfenicol deve ser utilizado com muito cuidado em

recém-nascidos, com o monitoramento das concentrações no plasma,

uma vez que a inativação ou excreção inadequadas do fármaco podem

resultar na “síndrome do bebê cinzento” – vômitos, diarreia, flacidez,

baixa temperatura e cor acinzentada –, resultando em uma taxa de 40%

de mortalidade. Podem surgir reações de hipersensibilidade, bem como

distúrbios GI, na sequência da alteração da flora microbiana intestinal.

 

AMINOGLICOSÍDIOS

Os aminoglicosídios são um grupo de antibióticos com uma estrutura

química complexa; são semelhantes entre si na atividade antimicrobiana,

nas características farmacocinéticas e na toxicidade. Os agentes principais

são gentamicina, estreptomicina, amicacina, tobramicina e neomicina.

 

■ Mecanismo de ação

Os aminoglicosídios inibem a síntese das proteínas bacterianas (ver

Capítulo 51). Existem vários locais de ação. A penetração através da membrana celular da bactéria depende parcialmente do transporte ativo,

dependente de oxigênio, por um sistema transportador de poliaminas (que,

por acaso, é bloqueado pelo cloranfenicol), e tem ação mínima contra

microrganismos anaeróbios. O efeito dos aminoglicosídios é bactericida,

sendo realçado por agentes que interferem na síntese da parede celular (p.

ex., penicilinas).

 

■ Resistência

A resistência aos aminoglicosídios vem se tornando um problema. A

resistência ocorre por intermédio de vários mecanismos diferentes, e o mais

importante é a inativação por enzimas microbianas, das quais se conhecem

nove ou mais. A amicacina foi considerada um substrato fraco para essas

enzimas, mas alguns microrganismos também podem inativar esse agente.

A resistência como resultado da falta de penetração pode ser compensada

pelo uso concomitante de penicilina e/ou vancomicina, à custa do risco de

aumento de efeitos adversos graves.

 

Tabela 52.1 Algumas bactérias patogênicas clinicamente

significativas.

Gênero Morfologia Espécie Doença

Gram-negativo

Bordetella Cocos B. pertussis Coqueluche

Brucelose (bovinos e

Brucella Coco-bacilos B. abortus

humanos)

Campylobacter Espirilos C. jejuni Intoxicação alimentar

Escherichia Bacilos E. coli Septicemia, infecções de

feridas, ITU

Infecção aguda do sistema

Haemophilus Bacilos H. in uenzae

respiratório, meningite

Úlcera péptica, câncer

Helicobacter Bacilo móvel H. pylori

gástrico

Klebsiella Bacilos encapsulados K. pneumoniae Pneumonia, septicemia

Legionella Bacilos agelados L. pneumophila Doença do legionário

Neisseria Diplococos N. gonorrhoeae Gonorreia

Septicemia, infecções

Pseudomonas Bacilos agelados P. aeruginosa

respiratórias, ITU

Infecções transmitidas por

Rickettsia Coco lamentoso Várias espécies

carrapatos e insetos

Salmonella Bacilos móveis S. typhimurium Intoxicação alimentar

Shigella Bacilos S. dysenteriae Disenteria bacilar

Yersinia Bacilos Y. pestis Peste bubônica

Vibrio Bacilos agelados V. cholerae Cólera

Gram-positivo

Bacillus Bacilos em cadeia B. anthrax Antraz

Clostridium Bacilos C. tetani Tétano

Corynebacterium Bacilo C. diphtheriae Difteria

Mycobacterium Bacilos M. tuberculosis Tuberculose

M. leprae Hanseníase

Staphylococcus Cocos em cacho S. aureus Infecções de feridas,

furúnculos, septicemia

Streptococcus Diplococos S. pneumoniae Pneumonia, meningite

Escarlatina, febre reumática,

Cocos em cadeia S. pyogenes

celulite

Outros

Doenças oftalmológicas,

Chlamydia Gram “não de nido” C. trachomatis

infertilidade

Treponema Bacilo espiralado agelado T. pallidum Sí lis

ITU, infecção do trato urinário.

 

■ Espectro antibacteriano

Os aminoglicosídios mostram-se efetivos contra muitos microrganismos

gram-negativos e alguns gram-positivos. São amplamente utilizados contra

microrganismos entéricos gram-negativos e septicemia. Podem ser

combinados com uma penicilina nas infecções causadas por estreptococos,

por Listeria spp. e P. aeruginosa (Tabela 52.1). A gentamicina é o

aminoglicosídio mais utilizado, embora a tobramicina seja a eleita em caso

de infecções por P. aeruginosa. A amicacina tem um espectro

antimicrobiano mais amplo e pode ser eficaz em infecções por

microrganismos resistentes à gentamicina e à tobramicina.

▼ Aspectos farmacocinéticos.Devido à sua carga positiva, os

aminoglicosídios são altamente polarizados. Não são absorvidos pelo

trato gastrintestinal e, em geral, são administrados por via intramuscular

ou intravenosa. Os aminoglicosídios atravessam a placenta, mas não a

barreira hematencefálica, embora seja possível atingir elevadas

concentrações nos líquidos articulares e pleurais. A meia-vida

plasmática é de 2 a 3 horas. A eliminação ocorre totalmente por meio de

filtração glomerular nos rins, sendo que 50 a 60% da dose é excretada

inalterada após 24 horas. Se a função renal estiver comprometida, a

acumulação ocorre rapidamente, resultando em aumento desses efeitos

tóxicos (p. ex., ototoxicidade e nefrotoxicidade), os quais estão

relacionados com a dosagem.

 

Tabela 52.2 Resumo de antibacterianos e seus

mecanismos de ação. (Continuação)

Família Exemplos Microrganismo-alvo típico Alvo celular

Sulfadiazina, sulfametoxazol Síntese ou ação bacteriana

Sulfonamidas (usado em conjunto com a T. gondii, P. jirovecii do folato. Geralmente

trimetoprima) bacteriostáticas

Betalactâmicos Em geral, principalmente Síntese do

PENICILINAS

espécies de gram-positivos; peptidoglicano/membrana

Benzilpenicilina,

algumas espécies de gram- ou parede celular bacteriana

fenoximetilpenicilina

negativos Geralmente bactericidas

Penicilinas resistentes às

Usadas para infecções

penicilinases Flucloxacilina,

esta locócicas

temocilina

Um amplo espectro de

Penicilinas de amplo espectro

espécies de gram-positivos e

Amoxicilina, ampicilina

gram-negativos

Penicilinas ativas contra

Pseudomonas Piperacilina, Algumas espécies de gram-ticarcilina (usadas com negativos, especialmente P. inibidores das aeruginosa betalactamases)

MECILINAM Pivmecilinam Principalmente espécies de

gram-negativos

CEFALOSPORINAS Cefaclor, cefadroxila, cefalexina,

Amplo espectro de atividade

ce xima, cefotaxima,

contra espécies de gram-

cefradina, ceftarolina,

negativos de gram-positivos

ceftazidima, ceftriaxona,

cefuroxima

CARBAPENÊMICOS Muitas espécies de gram-Ertapeném, imipeném, negativos e positivos. Alguns meropeném anaeróbios

MONOBACTÂMICOS

Aeróbios gram-negativos

Aztreonam

Vancomicina, teicoplanina,

Muitas espécies de gram-

Glicopeptídios telavancina, daptomicina (na

positivos. Incluindo MRSA

verdade um lipopeptídio)

Muitas espécies de gram-

Ácidos fosfônicos Fosfomicina positivos e gram-negativos.

Tratamento da ITU

Estrutura da membrana

Polimixinas Colistimetato, polimixina B Espécies de gram-negativos

celular externa da bactéria

Demeclociclina, doxiciclina, Síntese proteica das

Atividade de amplo espectro

limeciclina, minociclina, bactérias (múltiplos

Tetraciclinas contra espécies de gram-

oxitetraciclina, tetraciclina, mecanismos inibidos

negativos e gram-positivos

tigeciclina incluindo iniciação,

transpeptidação e

Amicacina, gentamicina, Muitas espécies de gram-

translocação; ver texto).

Aminoglicosídios neomicina, estreptomicina, negativos, algumas espécies

Geralmente bacteriostáticos

tobramicina de gram-positivos

Azitromicina, claritromicina,

Macrolídios Semelhante à penicilina

eritromicina, telitromicina

Oxazolidinonas Linezolida Espécies de gram-positivos,

incluindo MRSA

Espécies de gram-positivos.

Lincosamidas Clindamicina

Muitos anaeróbios

Atividade de amplo espectro

Anfenicóis Cloranfenicol contra espécies de gram-

negativos e gram-positivos

Estreptograminas Quinupristina, dalfopristina Espécies de gram-positivos

Espectro estreito. Espécies de

Esteroides Ácido fusídico

gram-positivos

Cipro oxacino, levo oxacino,

moxi oxacino, ácido Espécies de gram-negativos e

Quinolonas

nalidíxico, nor oxacino, gram-positivos o oxacino

Síntese, estrutura ou

Macrocíclicos Fidaxomicina replicação do DNA difficile Usada para tratar Clostridium

bacteriano. Geralmente

Ansamicinas Rifaximina Diarreia do viajante bacteriostáticos

Tratamento do C. difficile e

Nitroimidazóis Metronidazol e tinidazol

outras infecções

Nitrofuranos Nitrofurantoína ITU por gram-negativos

Bedaquilina, capreomicina,

clofazimina, ciclosserina,

delamanida, dapsona, Mais usados apenas para Vários mecanismos não

Antimicobacterianos

etambutol, isoniazida, infecções micobacterianas relacionados (ver texto) pirazinamida, rifabutina,

rifampicinaa

Profármaco do formaldeído

Outros Metenamina ITU por gram-negativos

(bacteriostático)

Misturas de fármacos (p. ex., co uampicil – ucloxacilina com ampicilina) não são mostradas. aEstes fármacos são

frequentemente usados em combinação. MRSA, Staphylococcus aureus meticilino-resistentes; ITU, infecção do trato urinário.

 

Efeitos adversos.Podem ocorrer efeitos tóxicos graves e relacionados

com a dosagem, à medida que o tratamento for avançando. Os maiores

riscos são ototoxicidade e nefrotoxicidade.

A ototoxicidade envolve lesões progressivas, e até mesmo destruição,

das células sensoriais na cóclea e no órgão vestibular do ouvido. Os

resultados, normalmente irreversíveis, podem incluir vertigens, ataxia e

perda de equilíbrio no caso de lesões vestibulares, e distúrbios auditivos

ou surdez no caso de lesões na cóclea. Qualquer aminoglicosídio pode

produzir ambos os tipos de efeitos, porém é mais provável que a

estreptomicina e a gentamicina interfiram na função vestibular e que a

neomicina e a amicacina afetem majoritariamente a audição. A

ototoxicidade é potencializada pelo uso concomitante de outros

fármacos ototóxicos (p. ex., diuréticos de alça; ver Capítulo 30), e a

suscetibilidade é geneticamente determinada por meio do DNA

mitocondrial (ver Capítulo 12).

A nefrotoxicidade consiste em lesões nos túbulos renais, e pode ser

necessária a realização de diálise, embora a função geralmente se

recupere caso a administração seja suspensa assim que a toxicidade

renal for detectada. É mais provável que a nefroxicidade ocorra em

pacientes com doenças renais preexistentes ou em condições em que o

volume de urina esteja diminuído e o uso concomitante de outros

agentes nefrotóxicos aumente o risco (p. ex., cefalosporinas de primeira

geração, vancomicina). Uma vez que a eliminação ocorre praticamente

por via renal, essa ação nefrotóxica pode comprometer a própria

excreção e, assim, desenvolver-se um ciclo vicioso. As concentrações