Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 479 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos que atuam sobre os receptores GABA

Figura 39.9 Estrutura dimérica do receptor GABA . O receptor é formado por duas B subunidades de domínios transmembrana sétuplos mantidos juntos pela interação novelo/novelo entre as caudas C-terminais. A ativação do receptor ocorre quando o GABA se liga ao domínio extracelular da subunidade B1 (semelhante a uma armadilha, pois fecha-se instantaneamente quando o GABA se liga). Isso produz uma alteração alostérica na subunidade B2, a qual é acoplada à proteína G. (Adaptada de Kubo, Y., Tateyama, M., 2005. Towards a view of functioning dimeric metabotropic receptors. Curr. Opin. Neurobiol. 15, 289-295.)

 

FÁRMACOS QUE ATUAM SOBRE OS RECEPTORES GABA

 

Receptores GABA A

Os receptores GABA A são semelhantes aos receptores NMDA porque os

fármacos podem agir em diferentes locais (ver Figura 39.5), incluindo:

• O ponto de ligação do GABA

• Vários pontos moduladores

• O canal iônico.

Há evidências cada vez maiores de que diferentes subtipos de receptores

diferem em suas propriedades farmacológicas.

Os receptores GABAA são o alvo para vários fármacos com ação

central, notavelmente os benzodiazepínicos (ver Capítulo 45), o álcool (ver

Capítulo 49), os barbitúricos, os neuroesteroides (ver adiante, Tabela 39.3) e

muitos anestésicos gerais (ver Capítulo 42). Os principais agonistas,

antagonistas e substâncias moduladoras que agem nos receptores GABA

são mostrados na Tabela 39.3.

O muscimol, derivado de um cogumelo alucinógeno, assemelha-se

quimicamente ao GABA (ver Figura 39.3) e é um poderoso agonista do

receptor GABA A. Um análogo sintético, o gaboxadol, é um agonista parcial

que foi desenvolvido como fármaco hipnótico (ver Capítulo 45), porém já

foi retirado do mercado. A bicuculina, um composto convulsivante que

ocorre naturalmente, é um antagonista específico que bloqueia o potencial

sináptico inibitório rápido na maioria das sinapses do SNC. A gabazina,

um análogo sintético do GABA, é similar. Esses compostos são ferramentas

experimentais úteis, porém não têm aplicações terapêuticas.

Os benzodiazepínicos, que têm potentes efeitos sedativos, ansiolíticos e

anticonvulsivantes (ver Capítulo 45), potencializam seletivamente os efeitos

do GABA em alguns receptores GABAA, dependendo da composição da subunidade do receptor. Eles se ligam com alta afinidade a um local

alostérico acessório no receptor GABA A, de modo que a ligação ao GABA é facilitada e seu efeito agonista é realçado. Inversamente, os agonistas

inversos no local de benzodiazepínicos (p. ex., Ro15-4513) reduzem a

ligação do GABA e são ansiogênicos e pró-convulsivantes –

provavelmente, não terão aplicações terapêuticas!

Os moduladores que também reforçam a ação do GABA, porém cujo

local de ação está menos bem-definido que o dos benzodiazepínicos

(mostrados como “moduladores do canal” na Figura 39.5), incluem outros

depressores do SNC, tais como os barbitúricos, agentes anestésicos (ver

Capítulo 42) e neuroesteroides. Os neuroesteroides (Lambert et al., 2009)

são compostos que se relacionam com os hormônios esteroides, porém

agem para reforçar a ativação dos receptores GABA A – os que contêm subunidades δ demonstraram ser mais sensíveis. Curiosamente, eles

incluem os metabólitos da progesterona e dos andrógenos, que são

formados no SNC e que supostamente têm um papel fisiológico. Os

neuroesteroides sintéticos incluem a alfaxalona, desenvolvida como um

agente anestésico (ver Capítulo 42).

 

Tabela 39.3 Propriedades dos receptores dos aminoácidos

inibidores.

 

GABA

Ponto

Ponto modulador

Ponto receptor modulador GABA Glicina B

(benzodiazepínico)

(outros)

Vários

Desconhecidos, Glicina

Agonista(1s) neuroesteroides (p.

GABA vários postulados GABA β-Alanina

endógeno(s) ex., metabólitos da

(ver texto) Taurina

progesterona)

Barbitúricos

Outro(s) Anestésicos a Gaboxadol (THIP, Muscimol Benzodiazepínicos ansiolíticos (p. ex., Baclofeno —

agonista(s) esteroides (p. ex.,

agonista parcial) diazepam)

alfaxolona)

Antagonista(s) Bicuculina Flumazenil (agonista — 2- Estricnina

Gabazina inverso?) Hidroxissaclofeno

CGP 35348 e

outros

Bloqueador de b Picrotoxina Não se aplica — canal

Receptor

acoplado à

proteína G;

 

Mecanismo(s) 2+ Canal de cloro controlado por ligante canais de Ca, controlado por efetor(es) inibição dos Canal de cloro

ativação dos ligante canais de K+, inibição da

adenilato ciclase

Pós-sináptica

Pré e pós- Principalmente

Localização Generalizada; principalmente pós-sináptico sináptica no tronco

Generalizada encefálico e na

medula espinal

Inibição pré-

sináptica

(diminuição da

entrada de Ca 2+)

Inibição pós-

Função Inibição pós-sináptica (pips rápido) e inibição tônica sináptica (pips

Inibição pós-

rápido)

sináptica

(aumento da

permeabilidade

ao K+)

a THIP é uma abreviação do nome químico do gaboxadol. Relata-se que apresenta preferência por receptores GABA

A

extrassinápticos que contêm subunidades δ.

bA picotroxina também bloqueia alguns receptores de glicina.

pips, potencial inibitório pós-sináptico.

A picrotoxina, um produto fitoterapêutico, é um convulsivante que

bloqueia o receptor GABA A do canal de cloro e, desse modo, bloqueia o efeito inibitório pós-sináptico do GABA. Também bloqueia os receptores de

glicina. Não tem utilização terapêutica.

 

Receptores GABA B

Quando a importância do GABA como transmissor inibitório foi

reconhecida, pensou-se que uma substância GABA-símile pudesse ser

comprovadamente efetiva no controle da epilepsia e de outros estados

convulsivos; como o próprio GABA não penetra na barreira

hematencefálica, análogos mais lipofílicos do GABA foram procurados; um

deles, o baclofeno (ver Figura 39.3), foi introduzido em 1972. Ao contrário

do GABA, suas ações não são bloqueadas pela bicuculina. Esses achados

levaram ao reconhecimento do receptor GABA B, do qual o baclofeno é agonista seletivo. O baclofeno é usado para tratar a espasticidade e

distúrbios motores relacionados (ver Capítulo 46); tem, também, sido

testado no tratamento da dependência de álcool e opioides (ver Capítulo

50), mas os resultados não têm sido conclusivos.

Os antagonistas competitivos do receptor GABAB incluem vários compostos experimentais (p. ex., 2-hidroxissaclofeno e compostos mais

potentes, com penetração cerebral aprimorada, tais como o CGP 35348).

Testes em animais mostraram que esses compostos produzem apenas efeitos

leves na função do SNC (em contraste com os poderosos efeitos

convulsivantes dos antagonistas GABA A). O principal efeito observado foi, de maneira paradoxal, a ação antiepiléptica, especificamente em um modelo

animal de ausência de convulsões (ver Capítulo 46), em conjunto com

reforço da atuação cognitiva. No entanto, tal como em muitas áreas da farmacologia, essa possibilidade não resultou no desenvolvimento de um