Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 83 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Crescimento, invasão e metástases de tumores

CRESCIMENTO, INVASÃO E METÁSTASES DE

TUMORES

Os sistemas de sinalização dos fatores de crescimento, as vias

antiapoptóticas e os controladores do ciclo celular têm interesse crescente

como alvos para novas estratégias de tratamento do câncer. Ver Capítulo 57.

 

CÉLULAS-TRONCO E REGENERAÇÃO

A regeneração tecidual substitui o tecido perdido por lesão ou doença e

permite a restauração da função. Muitos animais (p. ex., anfíbios)

apresentam uma capacidade regenerativa impressionante, podendo até

mesmo fazer crescer novamente um órgão inteiro, como um membro ou

uma cauda. O processo essencial é a ativação de células-tronco – células

indiferenciadas com o potencial de se desenvolver em qualquer das células

mais especializadas do organismo – células “totipotentes” ou

“pluripotentes” (Slack, 2014; Burgess, 2016). Os anfíbios contam com um

suprimento abundante dessas células primitivas em seus órgãos e, além

disso, muitas de suas células especializadas podem “desdiferenciar-se” e

voltar a ser células-tronco. Estas podem multiplicar-se e percorrer

novamente as vias que geraram aquele órgão durante a vida fetal,

diferenciando-se nos distintos tipos celulares necessários à substituição da

estrutura faltante.

Entretanto, durante a evolução, os mamíferos perderam essa capacidade

em todos os tecidos, salvo algumas exceções. As células sanguíneas, o

epitélio intestinal e as camadas mais externas na pele são substituídos

continuamente ao longo da vida, mas órgãos como fígado, rins e ossos

apresentam baixo grau de renovação (turnover) e reposição de células. Essa

“renovação fisiológica” é efetuada pelas células-tronco locais, específicas

do tecido.

O fígado apresenta significativa capacidade para se reconstituir,

praticamente exclusiva entre os órgãos de mamíferos. O fígado pode

regenerar-se, voltando a seu tamanho original em um período notavelmente

curto, desde que pelo menos 25% dele seja deixado intacto.13 As células

hepáticas maduras do parênquima participam desse processo, assim como

todos os outros componentes celulares do fígado.

É necessário distinguir as células-tronco embrionárias (células ES) das

células-tronco adultas (células AS) e das células progenitoras. As células

ES são as células verdadeiramente pluripotentes do embrião e têm a

capacidade de se diferenciar em qualquer outro tipo de célula. As células

AS têm uma capacidade mais restrita, enquanto as células progenitoras têm

a capacidade de se diferenciar apenas em um único tipo de célula. As

células ES estão ausentes nos mamíferos adultos, enquanto as células AS

estão presentes, embora em pequeno número. Nos mamíferos, lesões nos

tecidos ou órgãos (com exceção do fígado, mencionado anteriormente)

normalmente levam ao reparo, e não à regeneração.

Até recentemente, tinha-se como certo que essa situação era inalterável

(com poucas exceções), porém trabalhos recentes sugerem que talvez seja

possível ativar as vias regenerativas nos mamíferos – pelo menos até certo

ponto e em alguns órgãos. Para que isso aconteça, é necessário estimular

algumas células-tronco a proliferar, desenvolver-se e diferenciar-se nos

locais de interesse; ou – e esta perspectiva é ainda mais remota nos seres

humanos – persuadir algumas células locais especializadas a se

“desdiferenciarem”. Esse fenômeno pode ocorrer em alguns mamíferos em

circunstâncias especiais. No entanto, pode ser que o reparo seja a face de

Janus da regeneração, no sentido de que a reparação constitua, nos

mamíferos, o que a evolução lhes ofereceu em troca pela perdida

capacidade de regeneração.14

▼ Onde se encontram as células-tronco relevantes que poderiam ser

impelidas a realizar a regeneração? Diferentes possibilidades estão

sendo vigorosamente investigadas e, em alguns casos, clinicamente

testadas. Entre elas, estão as seguintes:

• Células ES (de limitada disponibilidade e complexos problemas éticos envolvidos)

• Células-tronco mesenquimais derivadas da medula óssea (Zhang et al., 2017)

• Células-tronco derivadas de músculos (Kelc et al., 2013)

• Células-tronco pluripotentes induzidas de humanos (Nishikawa et al., 2008)

• Células progenitoras residentes nos tecidos.

 

Para um tecido como o hepático conseguir regenerar-se, as células-tronco

locais específicas do tecido devem ser estimuladas por fatores de

crescimento a ingressar no ciclo celular e a proliferar. Outros processos

essenciais incluem aqueles anteriormente discutidos, como angiogênese,

ativação das MPM e interação da matriz com a fibronectina para interligar

todos os novos elementos. Também seria necessária a substituição

concomitante dos componentes do tecido conjuntivo perdido (fibroblastos,

macrófagos etc.).

Os mecanismos que pudessem restaurar a capacidade de regeneração

dos tecidos seriam de imenso valor terapêutico, uma vez que a maioria dos

tecidos não se regenera espontaneamente. A terapia com células-tronco tem

se revelado uma hipótese atrativa para o tratamento de várias doenças,

desde disfunção erétil e incontinência urinária até doença cardíaca e

neurodegeneração. Estudos realizados em animais confirmaram que essa é

uma área potencialmente recompensadora, apesar de a terapia com células-

tronco em humanos ainda ser uma hipótese remota. A literatura é

desencorajadora, mas os seguintes exemplos dão uma noção dos obstáculos

e das aspirações da área: reparação de músculo cardíaco lesionado (ver

Capítulo 22; Lovell e Mathur, 2011), reparação da degeneração da retina

(Ong e da Cruz, 2012), acidente vascular encefálico (Banerjee et al., 2011) e substituição de células secretoras de insulina para o tratamento do