Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 78 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Alterações morfológicas na apoptose

A retirada desses fatores de sobrevivência – denominada “morte por

negligência” – não é a única via para apoptose (Figura 6.5). A engrenagem

da morte celular pode ser ativada por ligantes que estimulam os receptores

de morte e por dano no DNA. Em geral, no entanto, aceita-se que os

processos de proliferação celular e a apoptose estejam intimamente

integrados.

 

ALTERAÇÕES MORFOLÓGICAS NA APOPTOSE

Quando a célula morre, “arredonda-se”, a cromatina se condensa em massas

densas, as nucleases cortam o genoma em fragmentos de tamanhos

diferentes inutilizáveis (observados em gel como “escadas rolantes” de

DNA), o citoplasma se contrai e há, então, formação de vesículas na

membrana plasmática. Por fim, a célula é transformada em um aglomerado

de entidades ligadas à membrana, por ação de uma família de enzimas

proteolíticas conhecidas como caspases. Esses “cadáveres” de células

emitem sinais do tipo “coma-me”, tais como a exposição de fosfatidilserina

em sua superfície. Esses sinais são reconhecidos pelos macrófagos, que,

depois, fagocitam os resíduos. É importante que esses fragmentos celulares

estejam envolvidos pela membrana, pois, ao contrário, a liberação dos

constituintes internos da célula poderia desencadear uma reação

inflamatória. Outra salvaguarda contra tal reação é o fato de os macrófagos

fagocíticos liberarem mediadores anti-inflamatórios, como o TGF-β, a

anexina-1 e a IL-10.

 

PRINCIPAIS PARTICIPANTES DA APOPTOSE

O repertório de reações durante a apoptose é extremamente complexo e

varia entre espécies e tipos celulares. Ainda assim, é plausível que a reação

fundamental que leva à sobrevivência da célula ou à sua morte seja controlada por um único gene ou por uma combinação de genes. Se isso for

verdade, esses genes podem constituir alvos de fármacos desejáveis para o

uso no tratamento de muitas doenças proliferativas.

Figura 6.5 Diagrama simplificado das duas principais vias de sinalização na

apoptose. A via dos “receptores de morte” é ativada quando receptores de morte, tais como os membros da família do fator de necrose tumoral (TNF), são estimulados por ligantes de morte específicos. Esse processo recruta proteínas adaptadoras que ativam caspases iniciadoras (p. ex., caspase 8), as quais, por sua vez, ativam caspases efetoras, como a caspase 3. A via mitocondrial é ativada por diversos sinais, sendo um deles a lesão do DNA. Na presença de lesão do DNA que não possa ser reparada, a proteína p53 (ver

texto e Figuras 6.3 e 6.4) ativa uma via acessória que resulta na liberação do citocromo C da mitocôndria, com subsequentes envolvimento do apoptossomo e ativação de uma caspase iniciadora, a caspase 9. O apoptossomo é um complexo de pró-caspase 9, citocromo C e fator-1 ativador de protease apoptótica (Apaf-1). Ambas as vias convergem para a caspase efetora (p. ex., a caspase 3), a qual, por sua vez, realiza a morte da célula. A via acessória do fator de sobrevivência normalmente retém a apoptose por inibição da via mitocondrial, por ativação do fator antiapoptótico Bcl-2. O receptor designado por “R” representa os respectivos receptores para fatores tróficos, fatores de crescimento, fatores de contato célula-célula (moléculas de adesão, integrinas) etc. A sobrevivência/proliferação celular depende da contínua estimulação desses receptores. Se essa via não estiver funcionante (cor cinza), esse operador antiapoptótico será removido. IAP, inibidor de apoptose.

 

Pode ser apresentado aqui apenas um simples esboço da apoptose. Portt

et al. (2011) revisaram todo o tema em detalhes. Os principais atores são

uma família de proteinases dirigidas ao aspartato de cisteína (caspases)

presentes na célula na forma inativa. Estas realizam uma delicada cirurgia

nas proteínas, clivando seletivamente um grupo específico de proteínas-alvo

(enzimas, componentes estruturais que contêm um local característico

reconhecido pelas caspases), inativando algumas e ativando outras. Isso

requer uma cascata de aproximadamente nove caspases diferentes, algumas

atuando como iniciadoras que transmitem os sinais apoptóticos iniciais, e

outras responsabilizando-se pela fase final da morte celular (ver Figura 6.5).

As caspases “executoras” (p. ex., a caspase 3) clivam e inativam

constituintes celulares como as enzimas de reparo de DNA, a

proteinoquinase C e os componentes do citoesqueleto. A DNAase é ativada e cinde o DNA genômico entre os nucleossomos, gerando fragmentos de