Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 551 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Mecanismo de ação

derivados quaternários, como QX-314, que são inteiramente ionizados

independentemente do pH, não têm efeito como anestésicos locais, porém

apresentam importantes utilizações experimentais. A benzocaína, um

anestésico local atípico, não tem grupo básico.

A presença da ligação éster ou amida nas moléculas de anestésico local

é importante em virtude de sua suscetibilidade à hidrólise metabólica. Os

compostos que contêm éster são rapidamente inativados no plasma e nos

tecidos (principalmente no fígado) por esterases inespecíficas. As amidas

são mais estáveis, e esses anestésicos, em geral, apresentam meias-vidas

plasmáticas mais longas.

 

MECANISMO DE AÇÃO

Os anestésicos locais bloqueiam o início e a propagação dos potenciais de

ação por impedirem o aumento de condutância de Na+ voltagem-dependente

(ver Capítulo 4 e Strichartz e Ritchie, 1987; Hille, 2001). Em concentrações

pequenas, reduzem a taxa de aumento do potencial de ação, prolongando a

sua duração, e aumentam o período refratário, reduzindo a sua taxa de

resposta. Em concentrações mais elevadas, impedem o disparo do potencial

de ação. Os anestésicos locais atualmente disponíveis, em termos gerais,

não se distinguem pela sua ação em diferentes subtipos de canais de sódio,

embora a sua potência varie (ver Capítulo 4). Eles bloqueiam os canais de

sódio, fechando fisicamente o poro transmembrana, interagindo com

resíduos de vários aminoácidos do domínio helicoidal transmembrana S6 da

proteína do canal (Catterall e Swanson, 2015).

▼ A atividade dos anestésicos locais é fortemente dependente do pH,

aumentando em pH extracelular alcalino (i. e., quando a proporção de

moléculas ionizadas é baixa) e reduzindo-se em pH ácido. Isso porque o

composto precisa penetrar a bainha nervosa e a membrana do axônio

para chegar à extremidade interna do canal de sódio (onde está o local

de ligação aos anestésicos locais). Como a forma ionizada não passa

pela membrana, a penetração é muito pequena em pH ácido. Uma vez

dentro do axônio, é sobretudo a forma ionizada da molécula de

anestésico local que se liga ao canal e o bloqueia (Figura 44.2), sendo

que a forma ionizada possui fraca atividade de bloqueio do canal. Essa

dependência do pH pode ser clinicamente importante, uma vez que o

líquido extracelular dos tecidos inflamados é, muitas vezes,

relativamente ácido e tais tecidos são, portanto, de algum modo

resistentes aos anestésicos locais.

Análises mais profundas da ação dos anestésicos locais (Strichartz e

Ritchie, 1987) demonstram que muitos fármacos exibem a propriedade

de bloqueio “dependente do uso” dos canais de sódio, bem como

afetam, até certo ponto, a operação dos canais. Dependência do uso

significa que, quanto mais frequentemente os canais são abertos, maior

se torna o bloqueio. É uma característica proeminente de ação de muitos

fármacos antiarrítmicos da classe I (ver Capítulo 22) e dos

antiepilépticos (ver Capítulo 46), e ocorre porque a molécula que causa

o bloqueio entra no canal muito mais rapidamente quando ele está

aberto do que quando está fechado. Além disso, para os anestésicos

locais que se dissociam rapidamente do canal, o bloqueio somente

ocorre com frequências elevadas de disparo do potencial de ação,

quando o tempo para o fármaco se separar do canal entre os potenciais

de ação é muito curto. O canal pode existir em três estados funcionais:

em repouso, aberto e inativado (ver Capítulo 4). Muitos anestésicos

locais ligam-se mais fortemente ao estado inativado do canal. Por isso,

em qualquer potencial de membrana, o equilíbrio entre os canais em

estado de repouso e inativos poderá, na presença de um anestésico local,

ser privilegiado em relação ao estado inativo, e este fator contribui para

o efeito de bloqueio geral, reduzindo o número de canais disponíveis

para a abertura e prolongando o período refratário após um potencial de

ação. A passagem de uma série de potenciais de ação, por exemplo, em

resposta a um estímulo doloroso, provoca um ciclo entre o estado aberto

e o estado inativo, tendo ambos maior probabilidade de se ligarem a

moléculas de anestésicos locais do que no estado de repouso; assim,

ambos os mecanismos contribuem para o efeito dependente do uso do

receptor, o que explica, em parte, o motivo de a transmissão da dor ser

bloqueada mais efetivamente do que outras experiências sensoriais.

Figura 44.1 Estruturas dos anestésicos locais. A estrutura geral das moléculas de anestésico local consiste em um grupo aromático (à esquerda), um grupo éster ou amida (sombreado em azul) e um grupo amina (à direita).

 

Figura 44.2 Interação de anestésicos locais com canais de sódio. O local de bloqueio no canal pode ser alcançado por meio do gate (portão) aberto na superfície interna da membrana pela molécula química carregada BH + (via hidrofílica) ou diretamente da membrana através de fenestrações na parede do canal pelas espécies não carregadas B (via hidrofílica).

 

Os anestésicos locais de aminas quaternárias somente funcionam

quando atravessam a membrana e os canais devem estar ciclando entre

seu estado aberto várias vezes antes que o efeito do bloqueio ocorra.

Com os anestésicos locais de aminas terciárias, o bloqueio pode se

desenvolver mesmo se os canais não estiverem abertos, e é provável que

a molécula bloqueadora (não carregada) consiga chegar ao canal

diretamente pela fase da membrana por meio de fenestrações na

proteína do canal que permite que moléculas não carregadas acessem o

poro do canal no estado de repouso (fechado) ou pelo lado intracelular

via canal aberto (ver Figura 44.2).A importância relativa dessas duas

vias de bloqueio – a via hidrofóbica da membrana e a via hidrofílica no

interior do canal – varia de acordo com a lipossolubilidade do fármaco.

Em geral, os anestésicos locais bloqueiam a condução mais rapidamente

em neurofibras de pequeno diâmetro do que em fibras com diâmetros

maiores. Como os impulsos nociceptivos são conduzidos por fibras Aδ

e C (ver Capítulo 43), a sensação de dor é bloqueada mais rapidamente

que outras modalidades sensitivas (tátil, propriocepção etc.). Os axônios

motores, tendo diâmetro maior, também são relativamente resistentes.

As diferenças de sensibilidade entre diferentes neurofibras, embora

facilmente mensuráveis experimentalmente, não são de muita

importância prática, e não é possível bloquear a sensibilidade dolorosa

sem afetar as outras modalidades sensitivas.

Os anestésicos locais, como seu nome indica, são usados principalmente

para produzir bloqueio nervoso local. Em concentrações baixas, são capazes

de suprimir a descarga espontânea do potencial de ação em neurônios

sensitivos que ocorre na dor neuropática. As propriedades individuais dos

anestésicos locais estão resumidas na Tabela 44.1.

 

Tabela 44.1 Propriedades dos anestésicos locais.

 

Penetração Meia-vida Principais efeitos

Fármaco Início Duração Notas

no tecido plasmática (h) adversos

Cocaína Médio Média Boa Aproximadamente Efeitos Raramente usada,

1 cardiovasculares e somente como

sobre o SNC em spray para o virtude do bloqueio sistema respiratório

da captura de superior aminas

SNC: agitação,

tremores,

ansiedade,

ocasionalmente

Primeiro agente

convulsões

sintético Não é mais

seguidas por

usado

depressão

Cloroprocaína

Procaína Médio Curta Pequena < 1 respiratória Sistema

também é de curta

cardiovascular:

ação e usada para

bradicardia e

produzir anestesia

diminuição do

intratecal

débito cardíaco;

vasodilatação, que

pode causar colapso

circulatório

Amplamente usada

para anestesia local

Também utilizada

Como a procaína, por via intravenosa

porém menor no tratamento de

Lidocaína Aproximadamente

Rápido Média Boa tendência para arritmia

(lignocaína) 2

causar efeitos no ventriculares,

SNC embora não mais

como primeira

escolha (ver

Capítulo 22)

Mepivacaína Rápido Média Boa Aproximadamente Como a procaína Menos

2 vasodilatação (pode

ser administrada

sem vasoconstritor)

Usada

principalmente

Tetracaína Muito Aproximadamente

Longa Moderada Como a lidocaína para a anestesia

(ametocaína) lento 1

antes da punção ou

canulação venosa

Amplamente usada

em virtude da

longa duração de

ação Ropivacaína é

semelhante, com

menor

cardiotoxicidade

Como a lidocaína,

Aproximadamente Levobupivacaína,

Bupivacaína Lento Longa Moderada porém maior

2 recentemente

cardiotoxicidade

introduzida, causa

menor

cardiotoxicidade e

menor depressão

sobre o SNC do que

a forma racêmica,

bupivacaína

Amplamente

usada, mas não

Sem atividade

para analgesia

Aproximadamente vasodilatadora

Prilocaína Médio Média Moderada obstétrica por causa

2 Pode causar

do risco de

metemoglobinemia

metemoglobinemia

neonatal

Articaína Rápido Curta Boa Aproximadamente Como a lidocaína Uso em odontologia

0,5 Embora a sua

estrutura química

contenha uma

ligação amida,

também contém

um grupo éster em

uma cadeia lateral

(ver Figura 44.1) A

hidrólise da cadeia

lateral inativa o

fármaco

SNC, sistema nervoso central.

 

Efeitos adversos

Quando utilizados clinicamente como anestésicos locais, os principais

efeitos adversos envolvem o sistema nervoso central (SNC) e o sistema

cardiovascular (ver Tabela 44.1). A sua ação no coração também pode ser

relevante no tratamento de arritmias cardíacas (ver Capítulo 22). Embora os

anestésicos locais sejam, em geral, administrados de maneira a minimizar

sua distribuição para outras partes do corpo, eles são, por fim, absorvidos

para a circulação sistêmica. Podem também ser injetados nas veias ou

arteríolas de forma errada.

A maioria dos anestésicos locais produz uma mistura de efeitos

depressores e estimulantes sobre o SNC. Os efeitos depressores

predominam em baixas concentrações plasmáticas, abrindo caminho para a

estimulação em concentrações maiores, que resultam em inquietação,

tremor e, algumas vezes, convulsões, acompanhadas por efeitos subjetivos,

que vão da confusão mental à agitação extrema. Aumentar ainda mais a

dose produz profunda depressão do SNC e morte devido à depressão

respiratória. O único anestésico local com efeitos acentuadamente

diferentes no SNC é a cocaína (ver Capítulo 49), que produz euforia em doses bem abaixo daquelas que causam outros efeitos no SNC. Isso se

relaciona a seu efeito específico de inibição da captura de monoaminas,

efeito este não compartilhado por outros anestésicos locais. A procaína é

particularmente associada à produção de efeitos centrais adversos, e tem

sido suplantada no uso clínico por agentes como a lidocaína e a prilocaína.

Estudos com a bupivacaína, anestésico local de ação prolongada

amplamente usado preparado como mistura racêmica de dois isômeros

ópticos, sugeriram que seus efeitos sobre o SNC e sobre o coração seriam

decorrentes principalmente de isômero S(+). O isômero R(–)

(levobupivacaína) comprovou ser mais seguro.

Ação dos anestésicos locais

 

• Os anestésicos locais impedem a geração do potencial de ação por bloqueio dos canais de

sódio

• Os anestésicos locais são moléculas an fílicas com um grupo aromático hidrofóbico e um

grupo básico amina

• Os anestésicos locais são bases fracas, que provavelmente atuam em sua forma catiônica,

mas precisam alcançar seu local de ação, atravessando a bainha nervosa e a membrana

axônica, na forma química não ionizada

• Muitos anestésicos locais mostram dependência do uso (a profundidade do bloqueio

aumenta com a frequência do potencial de ação). Isso ocorre:

– Porque as moléculas de anestésico têm acesso ao canal mais rapidamente quando ele

está aberto

– Porque as moléculas de anestésico têm a nidade maior por canais inativados do que

por canais em repouso

• A dependência do uso tem importância principalmente em relação aos efeitos

antiarrítmicos e antiepilépticos dos bloqueadores dos canais de sódio

• Os anestésicos locais bloqueiam a condução na seguinte ordem: axônios curtos

mielinizados, axônios não mielinizados, axônios longos mielinizados. A transmissão

nociceptiva e simpática é, portanto, bloqueada primeiro

• O bloqueio dos canais de sódio no músculo cardíaco e nos neurônios do sistema nervoso

central é detalhado na terapia de arritmias cardíacas (ver Capítulo 22) e epilepsia (ver

Capítulo 46).

 

Os efeitos cardiovasculares adversos dos anestésicos locais devem-se

principalmente à depressão do miocárdio, ao bloqueio de condução e à

vasodilatação. A redução de contratilidade do miocárdio provavelmente resulta indiretamente da inibição da corrente de Na+ no músculo cardíaco