Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 712 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Características especiais das células cancerosas

dos genes de supressão tumoral pode ser um evento crítico na

carcinogênese.

 

Cerca de 30 genes de supressão tumoral e 100 oncogenes dominantes já

foram identificados. As alterações que levam à malignidade resultam de

mutações pontuais, amplificação do gene ou translocação cromossômica

(Hanahan e Weinberg, 2011).

 

CARACTERÍSTICAS ESPECIAIS DAS CÉLULAS CANCEROSAS

 

Proliferação descontrolada

Em geral, não é verdadeira a afirmação de que as células cancerígenas se

proliferam com mais rapidez que as normais. Muitas células sadias na

medula óssea e no epitélio do trato gastrintestinal (GI), por exemplo, têm a

propriedade de divisão rápida contínua. Algumas células cancerosas

multiplicam-se lentamente (p. ex., aquelas dos tumores de células do

plasma) e algumas com maior rapidez (p. ex., as células do linfoma de

Burkitt). A questão importante é que as células cancerosas escaparam dos

mecanismos que normalmente regulam a divisão celular e o crescimento

tecidual; os freios normais da divisão celular, presentes em uma célula

saudável, foram cortados. É isso, em vez da sua taxa de proliferação, que as

distingue das células normais.

Quais são as alterações que levam à proliferação descontrolada das

células tumorais? A inativação de genes de supressão tumoral ou a

transformação de proto-oncogenes em oncogenes podem conferir

autonomia de crescimento a uma célula e, assim, promover a proliferação

descontrolada ao produzir alterações em sistemas celulares (Figura 57.1),

incluindo:

 

• Fatores de crescimento, seus receptores e vias de sinalização • Transdutores do ciclo celular, como, por exemplo, ciclinas, quinases

dependentes de ciclinas (cdk) ou inibidores de cdk

• Mecanismo apoptótico que normalmente coordena as células anômalas

• Expressão da telomerase

• Fornecimento local de sangue, resultando em angiogênese direcionada

ao tumor.

 

Potencialmente, todos os genes que codificam os componentes citados

poderiam ser considerados oncogenes ou genes de supressão tumoral

(Figura 57.2), embora nem todos estejam igualmente propensos à

transformação maligna, e a transformação maligna de diversos

componentes é necessária ao desenvolvimento do câncer.

 

■ Resistência à apoptose

Apoptose é a morte celular programada (ver Capítulo 6), e mutações nos

genes antiapoptóticos normalmente são pré-requisito para o câncer; na

verdade, a resistência à apoptose é marco importante do câncer, podendo ser

causada pela inativação de fatores pró-apoptóticos ou pela ativação de

fatores antiapoptóticos.

 

■ Expressão da telomerase

Os telômeros são estruturas especializadas que recobrem os terminais dos

cromossomos – como os pequenos tubos de metal na ponta dos cadarços de

sapatos –, protegendo-os da degradação, da recomposição e da fusão com

outros cromossomos. Além disso, a DNA polimerase não consegue duplicar

facilmente os últimos poucos nucleotídios nos terminais do DNA, e os

telômeros impedem a perda desses genes “terminais”. A cada ciclo de

divisão celular, uma porção do telômero sofre erosão, de maneira que acaba por se tornar não funcional. Neste ponto, a replicação do DNA cessa e a

célula torna-se senescente.3

As células-tronco saudáveis expressam a telomerase, uma enzima

transferase terminal que mantém e alonga as terminações dos telômeros.

Está ausente da maior parte das células somáticas diferenciadas, mas 95%

dos tumores malignos de estágio terminal expressam enzimas telomerase

para reconstruir continuamente o terminal do telômero e prolongar a

capacidade replicativa da célula, alongando, assim, as terminações dos

telômeros e conferindo efetivamente “imortalidade” às células cancerosas

(Buys, 2000; Keith et al., 2004).

 

■ Controle dos vasos sanguíneos relacionados com o tumor

Os fatores já descritos aqui levam à proliferação descontrolada de células

cancerosas individuais, mas outros fatores, particularmente o suprimento de

sangue, determinam o crescimento real de um tumor sólido. Tumores de 1 a

2 mm de diâmetro podem obter nutrientes por difusão, mas sua expansão

adicional requer angiogênese, ou seja, desenvolvimento de novos vasos

sanguíneos em resposta a fatores de crescimento produzidos pelo próprio

tumor em evolução (Griffioen e Molema, 2000).

 

Desdiferenciação e perda de função

A multiplicação das células normais em um tecido começa com a divisão

das células-tronco indiferenciadas que originam duas células-filhas, uma

das quais se diferencia para se tornar uma célula madura que não se divide,

pronta para realizar funções apropriadas a esse tecido diferenciado. Uma

das principais características das células cancerosas é que se desdiferenciam

em graus variados. Em termos gerais, cânceres mal diferenciados acarretam

prognóstico pior que cânceres bem diferenciados.

Figura 57.1 Vias de transdução do sinal iniciadas por fatores de crescimento e sua

 

relação com o desenvolvimento do câncer. Alguns exemplos de proto-oncogenes e substâncias que os codificam estão ilustrados nesta tabela, bem como exemplos de cânceres associados à sua conversão em oncogenes. Os fármacos (alguns disponíveis, outros em estudo) também são mostrados. Muitos receptores do fator de crescimento são tirosinoquinases, sendo que os transdutores citosólicos incluem proteínas adaptadoras que se ligam a resíduos de tirosina fosforilada nos receptores. Proteínas Ras são proteínas ligadas ao nucleotídio guanina e têm ação GTPase; ação GTPase diminuída significa que a Ras permanece ativa. EGF, fator de crescimento epidérmico; IGF, fator de crescimento semelhante à insulina; PDGF, fator de crescimento derivado de plaquetas. *Her2 também é denominado her2/neu.

 

Invasividade

Células normais, exceto as sanguíneas e do tecido linfoide, não são, em

geral, encontradas fora de seu tecido “determinado” de origem. Isso ocorre

porque, durante a diferenciação e o crescimento de tecidos e órgãos, as

células normais desenvolvem certas relações espaciais umas com as outras. Essas relações são mantidas por diversos fatores de sobrevida específicos

dos tecidos que impedem a apoptose (ver Capítulo 6). Assim, qualquer

célula que escape acidentalmente perde esses sinais de sobrevida e morre.

Por exemplo, enquanto as células do epitélio da mucosa normal do reto

proliferam continuamente à medida que o revestimento vai se degenerando,

permanecem como um epitélio de revestimento. Em contraste, um câncer

da mucosa retal invade outros tecidos circundantes. As células cancerosas

não só perderam, pela mutação, as restrições que as células normais

possuem, como também secretam enzimas (p. ex., metaloproteinases; ver

Capítulo 6) que desintegram a matriz extracelular, permitindo que elas se

movam.

 

Metástases

Metástases são tumores “secundários” formados por células que foram

liberadas do tumor primário ou inicial, e que alcançaram outros locais por

intermédio de vasos sanguíneos ou do sistema linfático, pelo transporte para

outras células, ou como resultado de sua desintegração nas cavidades

corporais. Com frequência, o tumor primário é assintomático e só quando o

câncer se dissemina é que os tumores secundários causam sintomas que

levam ao diagnóstico da doença. Por isso, as metástases são a principal

causa de mortalidade e morbidade na maioria dos tumores sólidos,

constituindo um grande problema na terapia do câncer4 (Chambers et al.,

2002).

Conforme já assinalado, o deslocamento ou a migração anômala de

células normais levaria à morte celular programada como consequência da

retirada dos fatores antiapoptóticos fundamentais. Células cancerosas que

metastatizam sofreram uma série de alterações genéticas que alteram suas

respostas aos fatores reguladores que controlam a arquitetura celular dos tecidos normais, permitindo que se estabeleçam “extraterritorialmente”. O

crescimento local de novos vasos sanguíneos induzido pelo tumor favorece

a metástase.

Figura 57.2 Diagrama simplificado da gênese do câncer. O diagrama resume as informações apresentadas no texto. Normalmente, a gênese do câncer é multifatorial, envolvendo mais de uma alteração genética. “Outros fatores”, conforme anteriormente especificado, podem envolver as ações de promotores, cocarcinógenos, hormônios etc., que, por si sós não são carcinogênicos, aumentam a probabilidade de a(s) mutação(ões) genética(s) vir(em) a resultar em câncer.