Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 182 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fisiologia da transmissão noradrenérgica

– Receptores β3: lipólise e termogênese; relaxamento do músculo detrusor da bexiga.

 

Com relação ao controle vascular, é importante observar que ambos os

subtipos de receptores, α e β-adrenérgicos, são expressos em células

musculares lisas, terminações nervosas e células endoteliais, e seus papéis

na regulação fisiológica e nas respostas farmacológicas do sistema

cardiovascular estão apenas parcialmente elucidados (Guimaraes e Moura,

2001).

 

FISIOLOGIA DA TRANSMISSÃO NORADRENÉRGICA

 

NEURÔNIO NORADRENÉRGICO

Os neurônios noradrenérgicos na periferia são neurônios pós-ganglionares

simpáticos, cujos corpos celulares encontram-se nos gânglios simpáticos

(ver Capítulo 13). Eles geralmente têm axônios longos2 que terminam em

uma série de varicosidades inseridas ao longo da rede de ramos terminais.

Essas varicosidades contêm numerosas vesículas sinápticas, que são os

locais de síntese e liberação de norepinefrina e mediadores coliberados, tais

como ATP e neuropeptídio Y (ver Capítulo 13), que são armazenados em

vesículas e liberados por exocitose (ver Capítulo 4). Na maioria dos tecidos

periféricos, o conteúdo tecidual de norepinefrina acompanha estreitamente a

densidade da inervação simpática. À exceção da medula da suprarrenal, as

terminações nervosas simpáticas são responsáveis por todo o conteúdo de

norepinefrina dos tecidos periféricos. Órgãos como coração, baço, canais

deferentes e alguns vasos sanguíneos são particularmente ricos em

norepinefrina (5 a 50 nmol/g de tecido) e foram amplamente usados em

estudos da transmissão noradrenérgica. Para informação detalhada sobre

neurônios noradrenérgicos, ver Robertson (2004) e Cooper et al. (2002).

Tabela 15.1 Distribuição e efeitos dos receptores

adrenérgicos.

 

Tecidos e efeitos α 1 α2 β1 β2 β3

Músculo liso

Vasos sanguíneos Constrição Constrição/dilatação – Dilatação –

Brônquios Constrição – – Dilatação –

Trato Relaxamento (efeito

Relaxamento – Relaxamento –

gastrintestinal pré-sináptico)

Esfíncteres

Contração – – – –

gastrintestinais

Útero Contração – – Relaxamento –

Detrusor da bexiga – – – Relaxamento Relaxamento

Esfíncter da bexiga Contração – – – –

Vias seminais Contração – – Relaxamento –

Íris (músculo radial) Contração – – – –

Músculo ciliar – – – Relaxamento –

Coração

Frequência cardíaca a – – Aumento Aumento –

Força de contração a – – Aumento Aumento –

Outros

tecidos/células

Músculo – – – Tremor Termogênese

esquelético

Aumento da massa

muscular e da

velocidade de

contração

Glicogenólise

Fígado

Glicogenólise – – Glicogenólise –

(hepatócitos)

Gordura Lipólise

– – – –

(adipócitos) Termogênese

Ilhotas pancreáticas Diminuição da

– – – –

(células B) secreção de insulina

+ Secreção de

Glândulas salivares Liberação de K – – –

amilase

Plaquetas – Agregação – – –

Inibição da

Mastócitos – – – liberação de –

histamina

Inibição do e uxo

Tronco encefálico – – – –

simpático

Terminações

nervosas

Diminuição da

Aumento da

Adrenérgicas – liberação – –

liberação

Colinérgicas – Diminuição da – –

–

liberação

a Em geral, esse efeito é de importância menor, mas pode tornar-se signi cativo na insu ciência cardíaca.

Tabela 15.2 Características dos receptores adrenérgicos.

 

α α β β β 1(A,B,D) 2(A,B,D) 1 23

Acoplamento da

Gq Gi/Go GS GS GS

proteína G

Ativação da

fosfolipase C ↓ cAMP

 

Segundos ↑ Trifosfato de ↓ Canais de cálcio mensageiros e ↑ cAMP ↑ cAMP ↑ cAMP inositol

efetores ↑ Canais de

↑ Diacilglicerol potássio

↑ 2+ Ca

Ordem de potência

NE > E ≫ ISO E > NE ≫ ISO ISO > NE > E ISO > E > NE ISO > NE = E

dos agonistas

Salbutamol

Terbutalina

Fenilefrina Dobutamina

Agonistas seletivos Clonidina Salmeterol Mirabegrona

Metoxamina Xamoterol

Formoterol

Clembuterol

Prazosina Ioimbina Atenolol

Antagonistas seletivos Butoxamina –

Doxazocina Idazoxano Metoprolol

E, epinefrina; ISO, isoprenalina; NE, norepinefrina.

 

Síntese de norepinefrina

A via de biossíntese de norepinefrina é mostrada na Figura 15.1 e os

fármacos que alteram a síntese da norepinefrina são apresentados na Tabela

15.6 (p. 206). O precursor metabólico da norepinefrina é a L-tirosina, um

aminoácido aromático que está presente nos fluidos corporais e é captado

por neurônios adrenérgicos. A tirosina hidroxilase, uma enzima citosólica

que catalisa a conversão da tirosina em di-hidroxifenilalanina (dopa), é

encontrada apenas em células que contêm catecolaminas. Trata-se de uma

enzima bastante seletiva; diferentemente de outras enzimas envolvidas no

metabolismo das catecolaminas, não aceita derivados indólicos como

substratos e, consequentemente, não está envolvida na síntese da 5-

hidroxitriptamina (5-HT). Essa primeira etapa de hidroxilação é o principal

ponto de controle para a síntese de norepinefrina. A tirosina hidroxilase é

inibida pelo produto final da via de biossíntese, a norepinefrina, e isso

proporciona o mecanismo para a regulação contínua e constante da

velocidade de síntese. Ocorre uma regulação muito mais lenta, que leva

horas ou dias, por meio de mudanças na taxa de produção da enzima.

Um análogo da tirosina, a α-metiltirosina, exerce potente inibição sobre

a tirosina hidroxilase e é usado experimentalmente para bloquear a síntese

de norepinefrina.

A próxima etapa, conversão de dopa em dopamina, é catalisada pela

dopa descarboxilase, uma enzima citosólica que não está confinada

exclusivamente em células que sintetizam catecolaminas. É relativamente

inespecífica e catalisa a descarboxilação de vários outros aminoácidos L-

aromáticos, tais como a L-histidina e o L-triptofano, que são precursores na

síntese de histamina (ver Capítulo 18) e 5-HT (ver Capítulo 16),

respectivamente. A atividade da dopa descarboxilase não limita a taxa de

síntese de norepinefrina e a sua atividade não regula a síntese de

norepinefrina.

A dopamina-β-hidroxilase (DBH) é também uma enzima relativamente

inespecífica, mas está restrita às células que sintetizam catecolaminas. Essa enzima está localizada em vesículas sinápticas, principalmente em forma

ligada à membrana. Uma pequena quantidade da enzima é liberada das

terminações nervosas adrenérgicas juntamente com a norepinefrina; esse

componente representa a pequena proporção de enzima que se encontra na

forma solúvel no interior da vesícula. Em contraste com a norepinefrina, a

DBH liberada não está sujeita a degradação rápida ou captação, de modo

que sua concentração no plasma e nos fluidos corporais pode ser usada

como índice da atividade nervosa simpática global.

Muitos fármacos inibem a DBH, incluindo agentes quelantes de cobre e

o dissulfiram (um fármaco usado principalmente por seus efeitos sobre o

metabolismo do etanol; ver Capítulo 49). Tais fármacos podem causar uma

depleção parcial dos estoques de norepinefrina e interferir na transmissão

simpática. A deficiência de DBH é uma anomalia genética rara que causa

falha na síntese de norepinefrina, o que acarreta hipotensão ortostática

grave (ver Capítulo 23).

A feniletanolamina N-metiltransferase (FNMT) catalisa a N-metilação

da norepinefrina para formar epinefrina. A prin-cipal localização dessa

enzima é na medula da suprarrenal, que contém uma população de células

liberadoras de epinefrina (E) separada da menor proporção de células

liberadoras de norepinefrina (N). As células E, que aparecem apenas após o

nascimento, têm localização adjacente ao córtex da suprarrenal, e a

produção de FNMT é induzida por ação dos hormônios esteroides

secretados pelo córtex dessa glândula (ver Capítulo 34). A FNMT é

também encontrada em certas partes do cérebro, em que a epinefrina pode

atuar como um transmissor, mas pouco se sabe sobre sua função no SNC.

Em tecidos periféricos, o tempo de renovação da norepinefrina costuma

ser de aproximadamente 5 a 15 h, mas torna-se muito menor se houver

aumento da atividade nervosa simpática. Em circunstâncias normais, a velocidade de síntese mantém estreita correspondência com a velocidade de

liberação, de modo que o conteúdo de norepinefrina nos tecidos permanece

constante, independentemente do quão rapidamente o mediador seja

liberado.

 

Armazenamento de norepinefrina

A maior parte da epinefrina nas terminações nervosas e na medula da

suprarrenal está contida em vesículas e, em condições normais, apenas uma

pequena quantidade encontra-se na forma livre no citoplasma. A

concentração nas vesículas é muito elevada (0,3 a 1,0 mol/ ℓ), mantida pelo

transportador vesicular de monoaminas (VMAT; do inglês, vesicular

monoamine transporter), que compartilha algumas características do

transportador de aminas responsável pela captura de norepinefrina nas

terminações nervosas (ver Capítulo 13), mas utiliza o gradiente

transvesicular de prótons como força impulsora. Certos fármacos, como a

reserpina (p. 213; Tabela 15.3), bloqueiam esse transporte e causam

depleção dos estoques vesiculares de norepinefrina nas terminações

nervosas. As vesículas contêm dois constituintes principais além da

norepinefrina, ATP (em torno de quatro moléculas para cada molécula de

norepinefrina) e uma proteína chamada cromogranina A. Essas substâncias

são liberadas juntamente com a norepinefrina e, de modo geral, presume-se

que haja a formação de um complexo reversível dentro da vesícula,

dependendo, em parte, das cargas opostas nas moléculas da norepinefrina e

do ATP. Isso serviria tanto para reduzir a osmolaridade do conteúdo das

vesículas quanto para reduzir a tendência da norepinefrina de extravasar das

vesículas para o interior da terminação nervosa.

O próprio ATP tem uma função de transmissor nas sinapses do nervo

simpático (ver Figura 13.5; Capítulo 17), sendo responsável pelo potencial sináptico excitatório rápido e pela rápida fase de contração produzida pela

atividade nervosa simpática em muitos tecidos musculares lisos.

 

Liberação de norepinefrina

Os processos que vinculam a chegada de um impulso nervoso a uma

terminação nervosa com a entrada de Ca2+ e a liberação do transmissor são

descritos no Capítulo 4. Os fármacos que alteram a liberação da

norepinefrina são apresentados na Tabela 15.6 (p. 206).

Uma característica incomum do mecanismo de liberação nas

varicosidades dos nervos noradrenérgicos é que, quando um impulso

nervoso atinge uma varicosidade, a probabilidade de liberação, mesmo de

uma só vesícula, é muito baixa (menos que 1 em 50). Um único neurônio

contém muitos milhares de varicosidades, de modo que um impulso conduz

à descarga de umas poucas centenas de vesículas, espalhadas em uma ampla

área. Isso contrasta acentuadamente com a junção neuromuscular (ver

Capítulo 14), em que a probabilidade de liberação em um único botão é

elevada, e a liberação de acetilcolina é nitidamente localizada.

 

Tabela 15.3 Características dos sistemas de transporte de

norepinefrina.

Neuronal (NET) Extraneuronal (EMT) Vesicular (VMAT)

 

rato) –1 1,2 100 – –1 V Transporte de NE (coração de

máx (nmol/g min )

 

K (μmol/ℓ) 0,3 250 ~0,2 m

Especi cidade NE > E > ISO E > NE > ISO NE = E = ISO

Localização Membrana neuronal Membrana celular não Membrana da vesícula

neuronal (músculo liso, sináptica

músculo cardíaco, endotélio)

Tiramina

(+)-Norepinefrina Dopamina

Metilnorepinefrina

Dopamina 5-Hidroxitriptamina

Outros substratos Fármacos bloqueadores de

neurônios adrenérgicos (p. 5-Hidroxitriptamina Guanetidina ex., guanetidina)

Histamina + MPP (ver Capítulo 41)

Anfetaminaa

Cocaína

Normetanefrina

Antidepressivos tricíclicos (p.

ex., desipramina) Hormônios esteroides (p. ex., Reserpina

Inibidores

corticosterona) Tetrabenazina

Fenoxibenzamina

Fenoxibenzamina

Anfetaminaa

a A anfetamina é transportada lentamente, de modo que atua como substrato e também como um inibidor da captura de

norepinefrina. Para detalhes, ver Gainetdinov e Caron, 2003.

E, epinefrina; EMT, transportador de monoamina extraneuronal; ISO, isoprenalina; MPP+, metabólito tóxico do MPTP (ver p. 213

e Capítulo 41); NE, norepinefrina; NET, transportador de norepinefrina; VMAT, transportador de monoamina vesicular.

 

■ Regulação da liberação de norepinefrina

A liberação de norepinefrina é afetada por uma variedade de substâncias

que agem em receptores pré-sinápticos (ver Capítulo 13). Muitos tipos

diferentes de terminações nervosas (colinérgica, noradrenérgica,

dopaminérgica, 5-HT-érgica etc.) estão sujeitos a esse tipo de controle, e

muitos mediadores diferentes (acetilcolina agindo por meio de receptores

muscarínicos, catecolaminas por intermédio de receptores α e β-

adrenérgicos, angiotensina II, prostaglandinas, nucleotídios purínicos,

neuropeptídios etc.) podem agir em terminações pré-sinápticas. A modulação pré-sináptica representa um importante mecanismo de controle

fisiológico em todo o sistema nervoso.

▼ Atuando em receptores pré-sinápticos α2, a norepinefrina pode

regular a sua própria liberação, e também a do ATP coliberado (ver

Capítulo 13). Acredita-se que isso ocorra fisiologicamente, de tal modo

que a norepinefrina liberada exerce um efeito inibitório local sobre as

terminações das quais ela se origina – o chamado mecanismo de

retroalimentação autoinibitória (Figura 15.2; Gilsbach e Hein, 2012).

Os agonistas ou antagonistas que afetam os receptores pré-sinápticos

podem ter consideráveis efeitos sobre a transmissão simpática. No

entanto, a importância fisiológica da autoinibição pré-sináptica no

sistema nervoso simpático é ainda um pouco polêmica, e há evidências

de que, na maioria dos tecidos, ela exerça menos influência do que

possam indicar as medidas bioquímicas do extravasamento do

transmissor. Assim, apesar de o bloqueio dos autorreceptores provocar

grandes alterações no extravasamento de norepinefrina (i. e., a

quantidade de norepinefrina liberada na solução do banho ou na

corrente sanguínea quando nervos simpáticos são estimulados), as

mudanças respectivas na resposta tecidual são frequentemente

pequenas. Isso sugere que o que é medido em experimentos de

extravasamento pode não ser o componente fisiologicamente importante

da liberação do transmissor.

O mecanismo de retroalimentação inibitório opera por meio dos receptores

α2-adrenérgicos, que inibem a adenilil ciclase e impedem a abertura de

canais de cálcio (Figura 15.2). As terminações nervosas simpáticas também

contêm receptores β2, acoplados à ativação da adenilil ciclase, que aumentam na liberação de norepinefrina. Não está esclarecido se eles

apresentam alguma função fisiológica.