Rang e Dale: Farmacologia
Efeitos farmacológicos da nicotina
oficiais especializados emitiam advertências enfáticas sobre os seus perigos.
Até a segunda metade do século XIX, o tabaco era fumado em
cachimbos, principalmente por homens. A manufatura dos cigarros
começou no final do século XIX. Cigarros de filtro (que fornecem menos
alcatrões carcinogênicos e nicotina do que cigarros convencionais) e
cigarros com “baixo teor de alcatrão” (que também têm menos nicotina)
tornaram-se disponíveis nos anos 1950, e acreditava-se que fossem menos
prejudiciais.5 Mais recentemente, o uso de cigarros eletrônicos (e-
cigarettes) para a disponibilização de nicotina sem os alcatrões
carcinogênicos da fumaça do cigarro tornou-se popular. Leis proibindo o
fumo em locais públicos e o aumento do uso de cigarro eletrônico têm
levado à redução do consumo de cigarros no Reino Unido.
EFEITOS FARMACOLÓGICOS DA NICOTINA
Efeitos no SNC
Em nível neuronal, a nicotina age nos receptores nicotínicos da acetilcolina
(nAChR) (ver Capítulo 40), que são amplamente expressos no cérebro, em
particular no córtex e hipocampo, e acredita-se possuírem um papel na
função cognitiva, assim como na área tegmental ventral (VTA), da qual
saem projeções de neurônios dopaminérgicos em direção ao núcleo
accumbens (a via da recompensa, ver Figura 40.3). Os nAChR são canais
catiônicos controlados por ligantes, localizados pré e pós-sinapticamente,
causando, respectivamente, aumento da liberação do transmissor e
excitação neuronal (Wonnacott et al., 2005). A nicotina aumenta a taxa de
disparo e a atividade fásica dos neurônios dopaminérgicos VTA (Figura
49.3). Os subtipos α4β2, α6β2 e α7, dentre os vários subtipos do nAChR
(ver Tabela 40.2), têm recebido mais atenção, mas outros subtipos também podem estar envolvidos nos efeitos recompensadores da nicotina. Além de
ativar os receptores, a nicotina também causa dessensibilização; logo, os
efeitos de uma dose de nicotina ficam diminuídos em animais após
exposição sustentada à substância. A administração crônica de nicotina leva
ao aumento substancial no número de nAChR (um efeito oposto ao
produzido pela administração sustentada da maioria dos agonistas de
receptores), o que pode representar uma resposta adaptativa à
dessensibilização prolongada do receptor. É provável que o efeito global da
nicotina reflita um equilíbrio entre a ativação dos nAChR, causando
excitação neuronal e dessensibilização, o que causa o bloqueio sináptico.
O nível mais elevado de funcionamento do cérebro, como refletido pelo
estado subjetivo de alerta ou pelo padrão de eletroencefalografia (EEG),
pode ser afetado em qualquer direção pela nicotina, de acordo com a dose e
as circunstâncias. A nicotina desperta as pessoas quando elas estão
sonolentas e as acalma quando estão tensas, e os registros do EEG
confirmam isso. Também parece que pequenas doses de nicotina tendem a
causar estimulação, ao passo que grandes doses fazem o oposto. Testes de
desempenho motor e sensorial (p. ex., medidas de tempo de reação ou testes
de vigilância psicomotora) em seres humanos geralmente mostram melhora
com nicotina, e a nicotina melhora o aprendizado em camundongos. A
nicotina e outros agonistas nicotínicos, como a epibatidina (ver Capítulo
43), têm atividade analgésica significativa em modelos animais, mas, se
usadas na forma de fumaça do tabaco ou administradas por outros sistemas
de distribuição como adesivos ou sprays nasais, exibem um efeito
analgésico fraco no homem.
Figura 49.3 A nicotina altera as características do disparo do potencial de ação dos
neurônios VTA dopaminérgicos em camundongos de movimentação livre. A. A taxa de disparo neuronal aumenta após a injeção i.p. B. O disparo do potencial de ação é fásico após a injeção de nicotina. (Adaptada de De Biasi et al., 2011.)
■ Efeitos periféricos Os efeitos periféricos de pequenas doses de nicotina resultam da
estimulação dos gânglios autonômicos (ver Capítulo 14) e dos receptores
sensoriais periféricos, principalmente no coração e nos pulmões. A
estimulação desses receptores produz taquicardia, aumento do débito
cardíaco e da pressão arterial, sudorese e redução da motilidade
gastrintestinal. Quando as pessoas usam nicotina pela primeira vez, elas
geralmente sentem náuseas e algumas vezes vomitam, provavelmente por
causa da estimulação dos receptores sensoriais no estômago. Todos esses
efeitos diminuem com doses repetidas, apesar de os efeitos centrais
permanecerem. A secreção de epinefrina e NE a partir da medula da
suprarrenal contribui para os efeitos cardiovasculares, e a liberação do
hormônio antidiurético da neuro-hipófise causa diminuição do fluxo de
urina.6 A concentração plasmática de ácidos graxos livres aumenta,
provavelmente em virtude da estimulação simpática e da secreção de
epinefrina.
Fumantes pesam, em média, 4 kg menos do que os não fumantes,
principalmente por causa da diminuição da ingestão de comida; a cessação
tabágica geralmente causa ganho de peso associado ao aumento do
consumo de comida.