Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 618 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Efeitos farmacológicos da nicotina

oficiais especializados emitiam advertências enfáticas sobre os seus perigos.

Até a segunda metade do século XIX, o tabaco era fumado em

cachimbos, principalmente por homens. A manufatura dos cigarros

começou no final do século XIX. Cigarros de filtro (que fornecem menos

alcatrões carcinogênicos e nicotina do que cigarros convencionais) e

cigarros com “baixo teor de alcatrão” (que também têm menos nicotina)

tornaram-se disponíveis nos anos 1950, e acreditava-se que fossem menos

prejudiciais.5 Mais recentemente, o uso de cigarros eletrônicos (e-

cigarettes) para a disponibilização de nicotina sem os alcatrões

carcinogênicos da fumaça do cigarro tornou-se popular. Leis proibindo o

fumo em locais públicos e o aumento do uso de cigarro eletrônico têm

levado à redução do consumo de cigarros no Reino Unido.

 

EFEITOS FARMACOLÓGICOS DA NICOTINA

 

Efeitos no SNC

Em nível neuronal, a nicotina age nos receptores nicotínicos da acetilcolina

(nAChR) (ver Capítulo 40), que são amplamente expressos no cérebro, em

particular no córtex e hipocampo, e acredita-se possuírem um papel na

função cognitiva, assim como na área tegmental ventral (VTA), da qual

saem projeções de neurônios dopaminérgicos em direção ao núcleo

accumbens (a via da recompensa, ver Figura 40.3). Os nAChR são canais

catiônicos controlados por ligantes, localizados pré e pós-sinapticamente,

causando, respectivamente, aumento da liberação do transmissor e

excitação neuronal (Wonnacott et al., 2005). A nicotina aumenta a taxa de

disparo e a atividade fásica dos neurônios dopaminérgicos VTA (Figura

49.3). Os subtipos α4β2, α6β2 e α7, dentre os vários subtipos do nAChR

(ver Tabela 40.2), têm recebido mais atenção, mas outros subtipos também podem estar envolvidos nos efeitos recompensadores da nicotina. Além de

ativar os receptores, a nicotina também causa dessensibilização; logo, os

efeitos de uma dose de nicotina ficam diminuídos em animais após

exposição sustentada à substância. A administração crônica de nicotina leva

ao aumento substancial no número de nAChR (um efeito oposto ao

produzido pela administração sustentada da maioria dos agonistas de

receptores), o que pode representar uma resposta adaptativa à

dessensibilização prolongada do receptor. É provável que o efeito global da

nicotina reflita um equilíbrio entre a ativação dos nAChR, causando

excitação neuronal e dessensibilização, o que causa o bloqueio sináptico.

O nível mais elevado de funcionamento do cérebro, como refletido pelo

estado subjetivo de alerta ou pelo padrão de eletroencefalografia (EEG),

pode ser afetado em qualquer direção pela nicotina, de acordo com a dose e

as circunstâncias. A nicotina desperta as pessoas quando elas estão

sonolentas e as acalma quando estão tensas, e os registros do EEG

confirmam isso. Também parece que pequenas doses de nicotina tendem a

causar estimulação, ao passo que grandes doses fazem o oposto. Testes de

desempenho motor e sensorial (p. ex., medidas de tempo de reação ou testes

de vigilância psicomotora) em seres humanos geralmente mostram melhora

com nicotina, e a nicotina melhora o aprendizado em camundongos. A

nicotina e outros agonistas nicotínicos, como a epibatidina (ver Capítulo

43), têm atividade analgésica significativa em modelos animais, mas, se

usadas na forma de fumaça do tabaco ou administradas por outros sistemas

de distribuição como adesivos ou sprays nasais, exibem um efeito

analgésico fraco no homem.

Figura 49.3 A nicotina altera as características do disparo do potencial de ação dos

neurônios VTA dopaminérgicos em camundongos de movimentação livre. A. A taxa de disparo neuronal aumenta após a injeção i.p. B. O disparo do potencial de ação é fásico após a injeção de nicotina. (Adaptada de De Biasi et al., 2011.)

 

■ Efeitos periféricos Os efeitos periféricos de pequenas doses de nicotina resultam da

estimulação dos gânglios autonômicos (ver Capítulo 14) e dos receptores

sensoriais periféricos, principalmente no coração e nos pulmões. A

estimulação desses receptores produz taquicardia, aumento do débito

cardíaco e da pressão arterial, sudorese e redução da motilidade

gastrintestinal. Quando as pessoas usam nicotina pela primeira vez, elas

geralmente sentem náuseas e algumas vezes vomitam, provavelmente por

causa da estimulação dos receptores sensoriais no estômago. Todos esses

efeitos diminuem com doses repetidas, apesar de os efeitos centrais

permanecerem. A secreção de epinefrina e NE a partir da medula da

suprarrenal contribui para os efeitos cardiovasculares, e a liberação do

hormônio antidiurético da neuro-hipófise causa diminuição do fluxo de

urina.6 A concentração plasmática de ácidos graxos livres aumenta,

provavelmente em virtude da estimulação simpática e da secreção de

epinefrina.

Fumantes pesam, em média, 4 kg menos do que os não fumantes,

principalmente por causa da diminuição da ingestão de comida; a cessação

tabágica geralmente causa ganho de peso associado ao aumento do

consumo de comida.