Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 289 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Prevenção da doença ateromatosa

Metabolismo de lipoproteínas e dislipidemia

 

Os lipídios, incluindo colesterol e triglicerídios, são transportados no plasma na forma de

lipoproteínas, que possuem quatro classes:

• Quilomícrons transportam triglicerídios e colesterol do trato gastrintestinal para os

tecidos, em que o triglicerídio é clivado pela lipoproteína lipase, liberando ácidos graxos

livres e glicerol, que são captados no músculo e no tecido adiposo. Os remanescentes de

quilomícrons são captados pelo fígado, no qual o colesterol é armazenado, secretado na

bile, oxidado a ácidos biliares ou convertido em:

VLDL, que transportam colesterol e triglicerídios recém-sintetizados aos tecidos, em

–

que os triglicerídios são removidos como antes, deixando:

– Partículas de lipoproteína de densidade intermediária e LDL com um grande

componente de colesterol; parte do LDL-C é captada pelos tecidos e parte pelo

fígado, por endocitose por meio de receptores LDL especí cos

• As partículas de HDL adsorvem o colesterol derivado da degradação celular em tecidos

(inclusive artérias) e o transferem para partículas VLDL e LDL por intermédio da CETP

• As dislipidemias podem ser primárias ou decorrentes de doença (p. ex., hipotireoidismo).

São classi cadas em seis fenótipos (classi cação de Frederickson), de acordo com qual

partícula de lipoproteína está anormal. Quanto mais alto o LDL-C e mais baixo o HDL-C,

mais alto será o risco de cardiopatia isquêmica.

 

PREVENÇÃO DA DOENÇA ATEROMATOSA

O tratamento farmacológico geralmente se justifica como complemento de

hábitos saudáveis. O tratamento da hipertensão (ver Capítulo 23) e, em

menor grau, do diabetes melito (ver Capítulo 32), reduz a incidência de

doença ateromatosa sintomática, e os antitrombóticos (ver Capítulo 25)

reduzem a trombose arterial. Reduzir o LDL também é eficaz e constitui o principal assunto deste capítulo, mas vários outros passos na aterogênese

também são alvos em potencial para a ação de medicamentos.

▼ Os inibidores da enzima conversora de angiotensina (ver Capítulo

23) melhoram a função endotelial e prolongam a vida em pacientes com

doença ateromatosa. Outros fármacos que também aumentam a

biossíntese de NO ou sua disponibilidade estão em investigação.

Medidas para elevar o HDL: a ingestão moderada de álcool aumenta o

HDL, e as evidências epidemiológicas falam a favor do consumo

moderado de álcool em idosos. Exercícios regulares também aumentam

o HDL circulante; o tratamento medicamentoso para aumentar o HDL é

de benefício incerto. Os fibratos e derivados do ácido nicotínico (ver

adiante) aumentam discretamente o HDL, e reduzem LDL e

triglicerídios. Em indivíduos com HDL baixo, a inibição da CETP pode

aumentar substancialmente o HDL circulante. No entanto, três desses

fármacos falharam devido à falta de eficácia clínica ou a efeitos

adversos. Um ensaio clínico de um quarto fármaco, anacetrapib,

demonstrou que este aumenta o HDL e diminui o LDL, sendo associado

a uma redução modesta de grandes eventos coronários, quando

comparado com o placebo em pacientes em risco de eventos cardíacos

já sob terapia com estatinas. No entanto, não se observou um efeito na

mortalidade geral, e seu desenvolvimento foi descontinuado.

A ApoA-I Milano é uma variante de apolipoproteína A-I identificada em

indivíduos da zona rural da Itália com níveis muito baixos de HDL,

porém praticamente sem doença cardiovascular. A infusão de

complexos ApoA-I Milano-fosfolipídio recombinante causa rápida

regressão da aterosclerose em modelos animais. É caro de ser produzido

e deve ser administrado por via intravenosa, mas a estratégia continua

sendo uma possível abordagem no futuro (ver revisão em Ikenaga et al.,

2016).

Antioxidantes (p. ex., vitaminas C e E) são de interesse tanto pelos

relatórios de que melhoram a função endotelial em pacientes com

aumento do estresse oxidativo como pelas evidências epidemiológicas

de que uma dieta rica em antioxidantes se associa à redução do risco de

coronariopatia. Contudo, os resultados de ensaios clínicos têm sido

negativos, e vários antioxidantes reduzem o HDL. Os estrógenos,

usados em prevenção dos sintomas de menopausa (ver Capítulo 36) e da

osteoporose pós-menopausa, têm propriedades antioxidantes e exercem

outros efeitos vasculares que poderiam ser benéficos. Evidências

epidemiológicas sugerem que as mulheres que usam tal reposição

hormonal podem apresentar redução no risco de doença ateromatosa,

mas ensaios controlados mostraram efeitos adversos significativos sobre

a mortalidade cardiovascular (ver Capítulo 36).

Abordagens anti-inflamatórias: o tratamento medicamentoso para

reduzir a proteína C reativa (PC-R) (ver Capítulo 7) tem sido discutido,

mas é provável que, embora a PC-R elevada seja um marcador de

inflamação vascular, ela não desempenha um papel direto na

aterogênese. Outras medidas anti-inflamatórias estão sendo

investigadas; por exemplo, inibidores da ACAT.