Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 649 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Agentes antibacterianos que interferem na síntese ou na ação do ácido fólico

Na discussão da farmacologia dos fármacos antibacterianos, é

importante dividi-los em grupos diferentes de acordo com seu mecanismo

de ação.

 

AGENTES ANTIBACTERIANOS QUE INTERFEREM NA SÍNTESE OU NA AÇÃO DO ÁCIDO FÓLICO

 

SULFONAMIDAS

Nos anos 1930, em uma descoberta histórica, antes da invenção da

penicilina, Dogmak demonstrou que era possível um fármaco suprimir a

infecção bacteriana. O fármaco era um corante chamado prontosil,2 que

demonstrou ser um pro- fármaco inativo que era metabolizado in vivo em

um produto ativo, a sulfanilamida (Figura 52.1). Desde então, muitas

sulfonamidas foram desenvolvidas, mas sua importância foi diminuindo em

função da crescente resistência. Os únicos fármacos sulfonamidas ainda

utilizados comumente como antibacterianos sistêmicos são o

sulfametoxazol (em geral, combinado com trimetoprima, como

cotrimoxazol) e sulfassalazina (mal absorvida no tubo gastrintestinal [GI],

utilizada para tratar a colite ulcerativa e a doença de Crohn; ver Capítulos

27 e 31). A sulfadiazina de prata é aplicada de forma tópica para, por

exemplo, tratar queimaduras infectadas. Alguns fármacos com usos clínicos

diferentes (p. ex., o prasugrel, inibidor da ativação das plaquetas – ver

Capítulo 25 –, e a acetazolamida, um inibidor da anidrase carbônica – ver

Capítulo 30) são sulfonamidas e partilham alguns dos efeitos adversos

comuns a essa classe.

Figura 52.1 Estruturas de duas sulfonamidas representativas e da trimetoprima. As

 

estruturas ilustram a relação entre as sulfonamidas e a molécula de ácido p-aminobenzoico no ácido fólico (retângulo laranja), bem como entre os fármacos antifolato e a molécula de pteridina (em laranja). O cotrimoxazol é uma combinação de sulfametoxazol e trimetoprima.

 

■ Mecanismo de ação

A sulfanilamida é um análogo do ácido p-aminobenzoico (PABA; ver

Figura 52.1), que é um precursor essencial na síntese do ácido fólico,

necessário para a síntese de DNA e RNA nas bactérias (ver Capítulo 51).

As sulfonamidas são inibidores competitivos da enzima di-hidropteroato

sintetase, e os efeitos da sulfonamida podem ser sobrepostos acrescentando PABA suplementar. Por essa razão, alguns anestésicos locais, e que são

ésteres PABA (tais como a procaína; ver Capítulo 44), podem antagonizar

o efeito antibacteriano desses agentes.

 

Usos clínicos das sulfonamidas

 

• Em combinação com trimetoprima (cotrimoxazol) no caso de Pneumocystis carinii

(agora conhecido como P. jirovecii) para tratamento de toxoplasmose e nocardiose

• Em combinação com pirimetamina para tratamento da malária resistente aos fármacos

(ver Tabela 55.1) e da toxoplasmose

• Nas doenças in amatórias do intestino: é utilizada a sulfassalazina (combinação

sulfapiridina-ácido aminossalicílico) (ver Capítulo 31)

• Em feridas infectadas (sulfadiazina de prata aplicada topicamente).

 

A ação das sulfonamidas é inibida pela presença de pus e de produtos de

destruição tecidual porque esses contêm timidina e purinas, que são

utilizados diretamente pelas bactérias, não sintetizando, assim, o ácido

fólico. A resistência, que é comum, é mediada por plasmídios (ver Capítulo

51) e resulta da síntese de uma enzima bacteriana insensível aos fármacos.

▼ Aspectos farmacocinéticos. A maioria das sulfonamidas pode ser

administrada por via oral e, à exceção da sulfassalazina, é bem

absorvida e distribuída pelo corpo. Há risco de sensibilização ou de

reações alérgicas quando são aplicadas topicamente. Os fármacos

passam para exsudatos inflamatórios e atravessam tanto a barreira

placentária quanto a barreira hematencefálica. São essencialmente

metabolizados no fígado e o principal produto é um derivado acetilado

sem ação antibacteriana.