Rang e Dale: Farmacologia
Seção 4 Sistema Nervoso
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A função cerebral, se considerada isoladamente, é a parte mais importante
da fisiologia que define a diferença entre os seres humanos e as outras
espécies. As alterações da função cerebral, sejam primárias ou secundárias
às disfunções de outros sistemas, são uma importante preocupação da
sociedade humana e um campo no qual a intervenção farmacológica
desempenha um papel-chave. Neste capítulo, introduzimos alguns dos
princípios básicos da neurofarmacologia que fundamentam muito do
material em outros capítulos que descrevem a ação dos fármacos no sistema
nervoso central.
INTRODUÇÃO
Há dois motivos pelos quais a compreensão da ação dos fármacos no
sistema nervoso central (SNC) representa problema particularmente
desafiador. O primeiro é que os fármacos que atuam centralmente são de
especial significância para a humanidade. Eles não são apenas da maior
importância terapêutica,1 mas são também os fármacos que os seres
humanos mais comumente autoadministram por motivos não médicos (p. ex., álcool, chá e café, nicotina, maconha [Cannabis], MDMA (ecstasy),
opioides, cocaína, anfetaminas etc.). O segundo motivo é o fato de o SNC
ser funcionalmente muito mais complexo do que qualquer outro sistema no
corpo (também unicamente protegido por uma barreira hematencefálica), e
isso torna a compreensão dos efeitos dos fármacos muito mais difícil. A
relação entre o comportamento das células individualmente e o do órgão
como um todo é muito menos direta no cérebro do que em outros órgãos.
Atualmente, o vínculo entre a ação de um fármaco, em níveis bioquímico e
celular, e seus efeitos na função cerebral permanece, em sua maior parte,
misterioso. O mapeamento funcional do cérebro está começando a mostrar
as relações entre a atividade cerebral em regiões específicas e a função
mental, e essa ferramenta está sendo cada vez mais utilizada para
experimentar os efeitos dos fármacos. Apesar do progresso sustentado na
compreensão dos efeitos celulares e bioquímicos produzidos pelos fármacos
de ação central e do aumento do uso do mapeamento cerebral para estudar a
função cerebral e os efeitos dos fármacos, o abismo entre nossa
compreensão da ação do fármaco em nível celular e em níveis funcional e
comportamental mantém-se, na maior parte das vezes, muito amplo.
Algumas bases foram, no entanto, estabelecidas, algumas mais
firmemente que outras. Assim, está bem esclarecida a relação entre as vias
dopaminérgicas no sistema extrapiramidal e os efeitos dos fármacos para
aliviar ou exacerbar os sintomas da doença de Parkinson (ver Capítulo 41).
Muitos fármacos que atuam no SNC são usados para tratar alterações
psiquiátricas definidas de acordo com sua sintomatologia, e não com base
nos fatores causais ou nos sinais e investigações clínicas. É provável que o
que é chamado de “esquizofrenia” ou “depressão”, com base nos sintomas
particulares, consista em várias alterações distintas causadas por diferentes
mecanismos e que respondem aos fármacos de maneiras distintas. Mais ainda, em distúrbios como esquizofrenia e depressão, os déficits cognitivos