Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 465 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Seção 4 Sistema Nervoso

CONSIDERAÇÕES GERAIS

A função cerebral, se considerada isoladamente, é a parte mais importante

da fisiologia que define a diferença entre os seres humanos e as outras

espécies. As alterações da função cerebral, sejam primárias ou secundárias

às disfunções de outros sistemas, são uma importante preocupação da

sociedade humana e um campo no qual a intervenção farmacológica

desempenha um papel-chave. Neste capítulo, introduzimos alguns dos

princípios básicos da neurofarmacologia que fundamentam muito do

material em outros capítulos que descrevem a ação dos fármacos no sistema

nervoso central.

 

INTRODUÇÃO

Há dois motivos pelos quais a compreensão da ação dos fármacos no

sistema nervoso central (SNC) representa problema particularmente

desafiador. O primeiro é que os fármacos que atuam centralmente são de

especial significância para a humanidade. Eles não são apenas da maior

importância terapêutica,1 mas são também os fármacos que os seres

humanos mais comumente autoadministram por motivos não médicos (p. ex., álcool, chá e café, nicotina, maconha [Cannabis], MDMA (ecstasy),

opioides, cocaína, anfetaminas etc.). O segundo motivo é o fato de o SNC

ser funcionalmente muito mais complexo do que qualquer outro sistema no

corpo (também unicamente protegido por uma barreira hematencefálica), e

isso torna a compreensão dos efeitos dos fármacos muito mais difícil. A

relação entre o comportamento das células individualmente e o do órgão

como um todo é muito menos direta no cérebro do que em outros órgãos.

Atualmente, o vínculo entre a ação de um fármaco, em níveis bioquímico e

celular, e seus efeitos na função cerebral permanece, em sua maior parte,

misterioso. O mapeamento funcional do cérebro está começando a mostrar

as relações entre a atividade cerebral em regiões específicas e a função

mental, e essa ferramenta está sendo cada vez mais utilizada para

experimentar os efeitos dos fármacos. Apesar do progresso sustentado na

compreensão dos efeitos celulares e bioquímicos produzidos pelos fármacos

de ação central e do aumento do uso do mapeamento cerebral para estudar a

função cerebral e os efeitos dos fármacos, o abismo entre nossa

compreensão da ação do fármaco em nível celular e em níveis funcional e

comportamental mantém-se, na maior parte das vezes, muito amplo.

Algumas bases foram, no entanto, estabelecidas, algumas mais

firmemente que outras. Assim, está bem esclarecida a relação entre as vias

dopaminérgicas no sistema extrapiramidal e os efeitos dos fármacos para

aliviar ou exacerbar os sintomas da doença de Parkinson (ver Capítulo 41).

Muitos fármacos que atuam no SNC são usados para tratar alterações

psiquiátricas definidas de acordo com sua sintomatologia, e não com base

nos fatores causais ou nos sinais e investigações clínicas. É provável que o

que é chamado de “esquizofrenia” ou “depressão”, com base nos sintomas

particulares, consista em várias alterações distintas causadas por diferentes

mecanismos e que respondem aos fármacos de maneiras distintas. Mais ainda, em distúrbios como esquizofrenia e depressão, os déficits cognitivos