Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 53 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Função dos canais

Figura 4.5 Comportamento dos canais de sódio e potássio durante a condução de

um potencial de ação. Ocorre abertura rápida dos canais de sódio na fase de ascensão do potencial de ação. A abertura tardia dos canais de potássio e a inativação dos canais de sódio causam repolarização. E , potencial de membrana; g , condutância da membrana m K ao K+ + ; g , condutância da membrana ao Na.

Na

 

O mecanismo anterior, com base no trabalho de Hodgkin e Huxley,

realizado há 65 anos, envolve somente os canais de Na+ e K+. Os canais de

cálcio controlados por voltagem (Hille, 2001) foram descobertos

posteriormente (ver Figura 4.1). Estes funcionam basicamente da mesma

forma que os canais de sódio, mas com uma escala temporal ligeiramente

mais lenta; contribuem para a geração do potencial de ação em muitas

células, especialmente as células cardíacas e musculares lisas, mas também

nos neurônios e nas células secretoras. A entrada de Ca2+ através dos canais

de cálcio controlados por voltagem desempenha um papel muito importante

na sinalização intracelular, como descrito nas páginas 52-56.

 

FUNÇÃO DOS CANAIS

Os padrões de disparo das células excitáveis variam amplamente. As fibras

musculares esqueléticas estão em repouso, a não ser que sejam estimuladas

pela chegada de um impulso nervoso à junção neuromuscular. As fibras

musculares cardíacas disparam espontaneamente em uma frequência regular

(ver Capítulo 22). Em condições normais, os neurônios podem ficar em

repouso ou se despolarizar espontaneamente, regularmente ou em salvas; as

células musculares lisas apresentam uma variedade semelhante de padrões

de disparo. A frequência com que os potenciais de ação ocorrem nas

diversas células também varia muito, desde 100 Hz ou mais, nos neurônios

de condução rápida, até apenas cerca de 1 Hz, nas células musculares

cardíacas. Essas grandes variações funcionais refletem as diferentes

características dos canais de íons expressos nos diversos tipos celulares. As

flutuações rítmicas de [Ca2+]i fundamentam os diferentes padrões de disparo que ocorrem nos diversos tipos celulares (Berridge, 2016).

Fármacos que alteram as características do canal, seja interagindo

diretamente com o canal, seja indiretamente, por intermédio de segundos

mensageiros, afetam a função de muitos sistemas orgânicos, incluindo os

sistemas nervoso, cardiovascular, endócrino, respiratório e reprodutor,

sendo um tema frequente neste livro. Aqui descrevemos alguns

mecanismos-chave envolvidos na regulação das células excitáveis.

Em geral, os potenciais de ação são iniciados por correntes na

membrana que causam despolarização da célula. Essas correntes podem ser

produzidas pela atividade sináptica, pela aproximação de um potencial de

ação vindo de outra parte da célula, por um estímulo sensorial ou pela

atividade espontânea de um marca-passo. A tendência dessas correntes para

iniciar um potencial de ação é governada pela excitabilidade da célula, que

depende principalmente do estado (a) dos canais de sódio e/ou cálcio

controlados por voltagem e (b) dos canais de potássio da membrana em repouso. Qualquer evento que aumente o número de canais de sódio ou

cálcio disponíveis, ou que reduza seu limiar de ativação, tende a aumentar a

excitabilidade, enquanto, ao aumentar a condutância de repouso ao K+, ela

se reduz. Agentes que fazem o inverso, bloqueando os canais ou

interferindo em sua abertura, terão efeito oposto. As Figuras 4.6 e 4.7

apresentam alguns exemplos. As mutações herdadas nas proteínas dos

canais são responsáveis por uma grande variedade de distúrbios

neurológicos e outras alterações genéticas (Imbrici et al., 2016).

 

Uso-dependência e voltagem-dependência

▼ Os canais controlados por voltagem existem em três estados

funcionais (Figura 4.8): em repouso (durante o potencial de repouso

normal, eles permanecem fechados), ativado (a despolarização breve

favorece sua abertura) e inativado (estado de bloqueio decorrente de

uma oclusão tipo alçapão na abertura do canal, efetuada por um

apêndice móvel situado na porção intracelular da proteína do canal).

Muitos canais de sódio permanecem no estado inativado depois da

passagem do potencial de ação; depois que o potencial de membrana

retorna a seu valor de repouso, os canais inativados demoram para

retornar ao estado de repouso, ficando, assim, disponíveis para nova

ativação. Enquanto isso, a membrana está temporariamente refratária.

Cada potencial de ação faz com que os canais passem por esse ciclo de

três estados. A duração do período refratário determina a frequência

máxima dos potenciais de ação. Fármacos que bloqueiam os canais de

sódio, tais como anestésicos locais (ver Capítulo 44), medicamentos

antiarrítmicos (ver Capítulo 22) e anticonvulsivos (ver Capítulo 46),

normalmente apresentam afinidade seletiva para um desses estados

funcionais do canal, e, em sua presença, a proporção de canais no estado

de alta afinidade é aumentada. Fármacos que se ligam fortemente aos

canais inativados, favorecendo a adoção desse estado, são

particularmente importantes, pois prolongam o período refratário,

reduzindo a frequência máxima de geração dos potenciais de ação. Esse

tipo de bloqueio é chamado uso-dependente porque a ligação desses

fármacos aumenta em função da frequência de disparo do potencial de

ação, que governa a taxa pela qual os canais inativados – e,

consequentemente, sensíveis ao fármaco – são gerados. Isso é

importante no caso de alguns fármacos antiarrítmicos (ver Capítulo 22)

e anticonvulsivos (ver Capítulo 46), pois disparos de alta frequência

podem ser inibidos sem afetar a excitabilidade em frequências normais.

Os fármacos que bloqueiam rapidamente os canais de sódio em repouso

(p. ex., anestésicos locais; ver Capítulo 44) previnem a excitação tanto

em frequências baixas quanto altas.

Em sua maioria, os fármacos que bloqueiam os canais de sódio são

catiônicos no pH fisiológico, sendo afetados pelo gradiente de voltagem

através da membrana celular. Eles bloqueiam o canal pela face interna

da membrana, de modo que sua ação bloqueadora é favorecida pela

despolarização. Esse fenômeno, conhecido como voltagem-

dependência, também é relevante para a ação de fármacos

antiarrítmicos e antiepilépticos, porque as células responsáveis por

arritmia ou atividade convulsivante geralmente estão um pouco

despolarizadas, sendo bloqueadas com mais intensidade do que as

células sadias. Considerações semelhantes aplicam-se aos fármacos que

bloqueiam os canais de potássio ou de cálcio, mas sabe-se menos sobre

a importância da dependência do uso e da voltagem em relação a esses

canais do que em relação aos canais de sódio.

Figura 4.6 Canais iônicos associados a efeitos excitatórios e inibitórios da

 

membrana e alguns fármacos e outros ligantes que os afetam. Os quadros verdes mostram os agentes que abrem os canais, enquanto os agentes bloqueadores e inibitórios estão nos quadros de cor salmão. Canais Na 2+ + /K ativados por hiperpolarização são conhecidos como canais controlados por nucleotídios cíclicos, ativados por hiperpolarização, (HCN); canais ativados por H + são conhecidos como canais iônicos sensíveis a ácido (ASIC). GPCR, receptor acoplado à proteína G (Gprotein-coupled receptor).

 

Figura 4.7 Canais de ação de fármacos e toxinas que afetam os canais envolvidos

na geração de potenciais de ação. Muitos outros mediadores afetam esses canais indiretamente, por meio de receptores de membrana, por fosforilação ou alteração de sua expressão. STX, saxitoxina; TTX, tetrodotoxina.

 

Canais de sódio

Na maioria das células excitáveis, a corrente de entrada regenerativa que

inicia o potencial de ação resulta da ativação dos canais de sódio

controlados por voltagem. Os estudos iniciais de Hodgkin e Huxley com

clampeamento de voltagem no axônio gigante de lula, descritos na página

57, revelaram as propriedades funcionais essenciais desses canais.

Posteriormente, usou-se a ação bloqueadora e altamente seletiva da

tetrodotoxina (TTX, ver Capítulo 44) para marcar e purificar a proteína do

canal e, subsequentemente, cloná-la. Os canais de sódio consistem em uma

subunidade α central e formadora de poro (mostrada na Figura 3.20) e em

duas subunidades β auxiliares. Foram identificadas em mamíferos nove

subunidades α (Na v1.1 até Nav1.9) e quatro subunidades β. As subunidades α contêm quatro domínios semelhantes, cada qual compreendendo seis

hélices transmembranares (Catterall e Swanson, 2015). Uma dessas hélices,

a S4, que contém diversos aminoácidos básicos, formando o sensor de

voltagem, se move para fora e abre o canal quando a membrana é

despolarizada. Uma das alças intracelulares tem configuração para oscilar e

bloquear o canal quando a S4 está deslocada, inativando o canal.

Figura 4.8 Estados de repouso, ativado e inativado, dos canais operados por

voltagem exemplificados aqui pelo canal de sódio. A. A despolarização da membrana causa rápida transição do estado de repouso (fechado) para o de ativação (aberto). A partícula de inativação (parte do domínio intracelular da proteína do canal) é, então, capaz de bloquear o canal. Com a despolarização prolongada, abaixo do limiar para abertura, os canais podem passar diretamente do repouso para a condição inativa sem se abrirem. B. Alguns fármacos bloqueantes (como a tetrodoxina) bloqueiam o canal pelo lado de fora, como um interruptor, enquanto outros (como os fármacos anestésicos locais e antiepilépticos) entram pelo interior da célula, mostrando, com frequência, preferência por estados abertos ou inativados, afetando, assim, o comportamento cinético dos canais, com implicações em sua aplicação clínica.

 

Estudos fisiológicos demonstraram que os canais de sódio do coração e

do músculo esquelético diferem em vários aspectos dos canais dos

neurônios. Em particular, os canais de sódio cardíacos (e alguns neurônios

sensitivos) são relativamente insensíveis a TTX, e sua cinética é mais lenta,

em comparação à maioria dos canais dos neurônios. Isso é explicado pela

insensibilidade relativa de algumas subunidades α (Na v1.5, Nav1.8 e Nav1.9) à tetrodotoxina. Pensa-se que alterações no nível de expressão de algumas

subunidades de canais de sódio estejam na base da hiperexcitabilidade dos

neurônios sensitivos em diferentes tipos de dor neuropática (ver Capítulo

43).

Além dos bloqueadores de canais como a tetrodotoxina, outros

compostos afetam o controle e a inativação dos canais de sódio. Por

exemplo, o alcaloide vegetal veratridina e o veneno da pele de sapo

batracotoxina causam ativação persistente, enquanto inúmeras toxinas

provenientes de escorpiões impedem a inativação, mecanismos que

aumentam a excitabilidade neuronal.

 

Canais de potássio

Em uma célula em repouso típica (p. 57, Figura 4.3), a membrana é

seletivamente permeável ao K+, e o potencial de membrana (cerca de –60

mV) é relativamente positivo em relação ao potencial de equilíbrio do K+

(cerca de –90 mV). Essa permeabilidade de repouso ocorre porque alguns

canais de potássio estão abertos. Se mais canais de potássio se abrirem,

ocorre hiperpolarização da membrana e, então, a célula é inibida, enquanto

acontece justamente o oposto se os canais de potássio forem fechados.

Além de afetarem desse modo a excitabilidade, os canais de potássio também desempenham papel relevante na regulação da duração do

potencial de ação e em seu padrão temporal de disparo; juntos, esses canais

têm ação fundamental na regulação da função celular. Como mencionado

no Capítulo 3, o número e a variedade de subtipos de canais de potássio são

extraordinários, indicando que a evolução foi impelida pela vantagem

biológica que se alcançaria com variações sutis nas propriedades funcionais

desses canais. Um resumo recente lista mais de 60 subunidades formadoras

de poros, além de outras 20 subunidades auxiliares. Trata-se de uma

demonstração evolucionária impressionante, embora difícil de ser

compreendida por muitos de nós.

 

▼ Os canais de potássio são divididos em três classes principais (Tabela

4.2),4 cujas estruturas são mostradas na Figura 3.20.

• Canais de potássio controlados por voltagem, os quais contêm seis hélices que atravessam a

membrana, uma delas funcionando como sensor de voltagem, o que faz com que o canal se abra quando a membrana se despolariza. Nesse grupo, estão os canais da família shaker, responsáveis pela maior parte das correntes de K + controladas por voltagem conhecidas dos eletrofisiologistas, e outros canais, como os canais de potássio ativados por Ca2+, e dois subtipos que são importantes no coração, os canais HERG e LQT. Muitos desses canais são bloqueados por fármacos como tetraetilamônio e 4-aminopiridina

• + Canais de potássio retificadores de entrada , assim chamados porque permitem que o K entre

com muito mais facilidade do que sai. Eles contêm duas hélices que atravessam a membrana e uma única alça formadora de poro (alça P). Esses canais são regulados pela interação com as

proteínas G (ver Capítulo 3) e medeiam os efeitos inibitórios de muitos agonistas que atuam nos receptores acoplados à proteína G. Certos tipos são importantes no coração,

especialmente na regulação da duração do potencial de ação cardíaco (ver Capítulo 22); outros são alvos das sulfonilureias (fármacos hipoglicemiantes que estimulam a secreção de

insulina por bloqueio desses canais; ver Capítulo 32) e relaxantes da musculatura lisa, como o

minoxidil e o diazóxido, que abrem os canais (ver Capítulo 23)

• Canais de potássio com domínio de dois poros, com quatro hélices e duas alças P.

Apresentam retificação de saída, exercendo forte influência repolarizadora, que se opõe a qualquer tendência de excitação. Esses canais podem contribuir para a condutância de K+ em repouso em muitas células, mostrando-se suscetíveis à regulação por intermédio das proteínas

G; determinados subtipos foram envolvidos na ação de anestésicos voláteis, como o

isoflurano (ver Capítulo 42).

Para mais detalhes e informações sobre os canais de potássio e vários

medicamentos e toxinas que os afetam, ver Jenkinson (2006) e

Alexander et al. (2015).

 

Anormalidades hereditárias dos canais de potássio (canalopatias)

contribuem para o crescente número de doenças cardíacas, neurológicas e

outras. Entre elas, cita-se a síndrome do QT longo, associada a mutações

nos canais de potássio controlados por voltagem do coração, causando

episódios de parada ventricular que podem provocar morte súbita. O

prolongamento do intervalo QT induzido por fármacos é um efeito colateral

não desejado de vários medicamentos (ver Capítulo 22), incluindo

metadona e vários agentes antipsicóticos. Atualmente, os novos fármacos

são rastreados para essa propriedade logo no início de seu processo de

desenvolvimento (ver Capítulo 60). Alguns tipos de surdez e epilepsia

familiares estão associados a mutações nos canais de potássio controlados

por voltagem (Imbrici et al., 2016).