Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 37 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Tipo 3 | Receptores ligados a quinases e receptores correlatos

particular:

 

• Um gene, por meio de splicing alternativo, edição de RNA etc., pode dar

origem a mais de uma proteína de receptor

• Uma proteína GPCR pode associar-se a outras, ou a outras proteínas

como as RAMP, e dar origem a mais de um tipo de receptor funcional

• Diferentes agonistas podem afetar o receptor de diversas maneiras e

produzir respostas qualitativamente diferentes

• A via de transdução de sinal de “GPCR” não requer invariavelmente

proteínas G, e pode haver ligação cruzada com os receptores ligados à

tirosinoquinase.

 

Os GPCR são moléculas evidentemente versáteis e aventureiras, ao redor das

quais gira boa parte da farmacologia moderna, e ninguém deve imaginar que

tenhamos chegado ao fim da história.

 

TIPO 3 | RECEPTORES LIGADOS A QUINASES E

RECEPTORES CORRELATOS

Esses receptores de membrana são bastante diferentes dos canais controlados

por ligantes e dos GPCR, tanto em estrutura quanto em função. Eles medeiam

as ações de uma ampla variedade de proteínas mediadoras, incluindo fatores

de crescimento e citocinas (ver Capítulo 19), e hormônios como a insulina

(ver Capítulo 32) e a leptina (ver Capítulo 33), cujos efeitos são exercidos

principalmente em nível de transcrição gênica. A maioria desses receptores é

constituída de grandes proteínas que consistem em uma cadeia única de até

1.000 resíduos, com uma única região helicoidal transmembranar, a qual liga

um amplo domínio extracelular de ligantes a um domínio intracelular de

tamanho e função variáveis. A estrutura básica é mostrada na Figura 3.3C, porém existem muitas variantes (ver adiante). Mais de 100 receptores desse

tipo foram clonados e existem muitas variações estruturais. Para mais

detalhes, ver a revisão Hubbard e Miller (2007). Esses receptores têm papel

importante no controle da divisão celular, metabolismo intermediário, no

crescimento, na diferenciação, na inflamação, na reparação tecidual, na

apoptose e nas respostas imunológicas, assuntos discutidos mais adiante nos

Capítulos 6 e 19.

Os principais tipos são os seguintes:

Receptores tirosinoquinase (RTK). Esses receptores têm a estrutura

básica mostrada na Figura 3.17A, incorporando uma porção de

tirosinoquinase na região intracelular. Estão incluídos receptores para muitos

fatores de crescimento, como o fator de crescimento epidérmico e o fator

de crescimento neuronal, e também o grupo de TLR, que reconhecem

lipopolissacarídios bacterianos e têm importante participação na reação do

organismo à infecção (ver Capítulo 7). O receptor de insulina (ver Capítulo

32) também pertence à classe dos RTK, embora tenha uma estrutura dimérica

mais complexa e se ligue indiretamente à tirosinoquinase intracelular.

Receptor de serina/treoninoquinases. Essa pequena classe é similar aos

RTK em estrutura, porém fosforila resíduos de serina e/ou treonina em vez de

tirosina. O principal exemplo é o receptor para o fator de crescimento

transformador (TGF; do inglês, transforming growth factor).

Receptores de citocinas. Esses receptores (Figura 3.17B) carecem de

atividade enzimática intrínseca. Quando ocupados, ativam várias

tirosinoquinases, tais como Jak (Janus quinase). Os ligantes para esses

receptores incluem citocinas como interferonas e fatores estimulantes de

colônia, envolvidos nas respostas imunológicas, bem como no crescimento e

na diferenciação celulares.

Figura 3.17 Mecanismos de transdução de receptores acoplados a quinases. A

primeira etapa que ocorre após a ligação do agonista é a dimerização, que leva à autofosforilação do domínio intracelular de cada receptor. Então, proteínas com domínio SH2 ligam-se ao receptor fosforilado e são, elas próprias, também fosforiladas. Duas vias bem caracterizadas são mostradas. A. Via do fator de crescimento (Ras/Raf/proteinoquinase

ativada por mitógeno [MAP]) (ver Capítulo 6). O Grb2 também pode ser fosforilado, mas isso altera negativamente sua sinalização. B. Esquema simplificado da via da citocina (Jak/Stat)

(ver Capítulo 19). Alguns receptores de citocina podem existir previamente como dímeros em vez de sofrerem dimerização na ligação à citocina. Várias outras vias existem, e essas cascatas de fosforilação interagem com componentes dos sistemas de proteínas G.

 

Receptores ligados a quinases

 

• Receptores para diversos fatores de crescimento incorporam a tirosinoquinase em seu

domínio intracelular

• Receptores de citocinas contêm um domínio intracelular que liga e ativa quinases citosólicas

quando o receptor é ocupado

• Todos os receptores compartilham uma arquitetura comum, que consiste em um grande

domínio extracelular de ligação ao ligante, conectado ao domínio intracelular através de

uma única hélice transmembrana

• A transdução de sinais geralmente envolve a dimerização de receptores, seguida de

autofosforilação de resíduos de tirosina. Os resíduos de fosfotirosina atuam como aceptores

dos domínios SH2 de várias proteínas intracelulares, permitindo, dessa maneira, o controle

de muitas funções celulares

• Estão envolvidos principalmente em eventos que controlam o crescimento e a diferenciação

celulares, e atuam indiretamente por regulação da transcrição gênica

• Duas vias importantes são:

– A via Ras/Raf/proteinoquinase ativada por mitógenos (MAP), que é importante na

divisão, no crescimento e na diferenciação celulares

– A via Jak/Stat, ativada por muitas citocinas, controla a síntese e a liberação de muitos

mediadores in amatórios.

Mecanismos da fosforilação proteica e da cascata das quinases

A fosforilação de proteínas (Cohen, 2002) é um mecanismo-chave para

controlar a função de proteínas (p. ex., enzimas, canais iônicos, receptores,

proteínas de transporte) envolvidas na regulação dos processos celulares.

Fosforilação e desfosforilação são realizadas por quinases e fosfatases,

respectivamente – enzimas das quais algumas centenas de subtipos estão

representadas no genoma humano –, as quais, por sua vez, estão elas mesmas

sujeitas à regulação, dependendo de seu estado de fosforilação. Atualmente,

há muitos esforços para mapear as complexas interações das moléculas

sinalizadoras envolvidas em efeitos de fármacos e em processos

fisiopatológicos como oncogênese, neurodegeneração, inflamação e muitos

outros. Podemos aqui apresentar apenas alguns poucos aspectos

farmacologicamente relevantes daquilo que se tornou um tema de grandes

proporções.

Em muitos casos, a ligação do ligante ao receptor leva à dimerização. A

associação dos dois domínios de quinase intracelulares permite que ocorra

autofosforilação mútua de resíduos de tirosina intracelulares. Os resíduos de

tirosina fosforilados atuam, então, como pontos de ancoragem de alta

afinidade para outras proteínas intracelulares que constituem o próximo passo

na cascata de transdução de sinal. Um importante grupo dessas proteínas é

conhecido como proteínas de domínio SH2 (referindo-se à homologia Src,

pois esse domínio foi identificado pela primeira vez no produto do oncogene

Src).16 Essas proteínas apresentam uma sequência altamente conservada de

cerca de 100 aminoácidos, formando um local de reconhecimento para os

resíduos de fosfotirosina do receptor. Proteínas de domínio SH2 individuais,

muitas das quais já são conhecidas, ligam-se seletivamente a determinados

receptores, de modo que o padrão de eventos desencadeados pelos fatores de

crescimento particulares é altamente específico. O mecanismo é resumido na

Figura 3.17.

O que ocorre quando a proteína de domínio SH2 se liga ao receptor

fosforilado varia significativamente, de acordo com o receptor envolvido;

muitas proteínas de domínio SH2 são enzimas, como proteinoquinases ou

fosfolipases. Alguns fatores de crescimento ativam um subgrupo específico

de fosfolipase C (PLCγ) e, desse modo, provocam quebra de fosfolipídios,

formação de IP3 e liberação de Ca2+ (p. 35). Outras proteínas contendo domínio SH2 realizam o acoplamento de proteínas contendo fosfotirosinas

com várias outras proteínas funcionais, inclusive muitas que estão envolvidas

no controle de divisão e diferenciação celulares. O resultado final é ativar ou

inibir, via fosforilação, diversos fatores de transcrição que migram para o

núcleo e suprimem ou induzem a expressão de determinados genes. Para mais

detalhes, ver Jin e Pawson (2012). O fator nuclear kappa B (NF B) é um

fator de transcrição que desempenha papel-chave em várias complicações,

incluindo inflamação e câncer (ver Capítulos 18 e 57; Karin et al., 2004). Em

geral, está presente no citoplasma, complexado com um inibidor (I B). A

fosforilação do I B ocorre quando uma quinase específica (IKK) é ativada

em resposta a várias citocinas inflamatórias e agonistas de GPCR. Isso resulta

na dissociação do complexo I B-NF B e na migração deste último para o

núcleo, em que, então, ativa vários genes proinflamatórios e antiapoptóticos.

 

▼ Duas vias bem-definidas de transdução de sinal estão resumidas na

Figura 3.17. A via Ras/Raf medeia o efeito de muitos fatores de

crescimento e mitógenos. Ras, que é um produto proto-oncogene,

funciona como uma proteína G e transmite o sinal (mediante permuta

GDP/GTP) a partir da proteína de domínio SH2, Grb. A ativação de Ras,

por sua vez, ativa Raf, que é a primeira de uma sequência de três

serina/treoninoquinases, em que cada uma fosforila e ativa a próxima da

sequência. A última delas, a MAP-quinase (que também é ativada pelos

GPCR; ver anteriormente), fosforila um ou mais fatores de transcrição

que iniciam a expressão gênica, resultando em diversos tipos de resposta

celular, incluindo a divisão celular. Essa cascata da MAP-quinase de três

etapas faz parte de muitas vias sinalizadoras intracelulares envolvidas em

uma ampla gama de processos mórbidos, incluindo tumores malignos,

inflamação, neurodegeneração, aterosclerose e muitos outros. As quinases

formam uma grande família, com diferentes subtipos executando funções

específicas. Acredita-se que elas representem um alvo importante para

futuros agentes terapêuticos. Muitos cânceres estão associados a

mutações nos genes que codificam as proteínas envolvidas nessa cascata,

levando à sua ativação na ausência do sinal do fator de transcrição (ver

Capítulos 6 e 57). Para mais detalhes, ver a revisão de Avruch (2007).

Uma segunda via, a via Jak/Stat (Figura 3.17B), está envolvida nas

respostas a muitas citocinas. Ocorre dimerização desses receptores

quando a citocina se liga, e isso atrai uma unidade tirosinoquinase

citosólica (Jak) para se associar e, então, fosforilar o dímero do receptor.

As Jaks pertencem a uma família de proteínas, da qual diferentes

membros apresentam especificidade para diferentes receptores de

citocinas. Entre os alvos para a fosforilação pela Jak, está uma família de

fatores de transcrição (Stats). Estes são proteínas de domínio SH2 que se

ligam aos grupamentos fosfotirosina no complexo receptor-Jak, sendo

elas próprias fosforiladas. A Stat, assim ativada, migra para o núcleo e

ativa a expressão gênica.

Outros mecanismos importantes se concentram na fosfatidilinositol-3

quinase (PI3 quinases, Vanhaesebroeck et al., 1997), uma família de

enzimas ubíquas que é ativada tanto por GPCR quanto por RTK e se liga

ao grupamento fosfato presente na posição 3 da PIP2 para formar a PIP3.

Outras proteinoquinases, principalmente a proteinoquinase B (PKB,17

também conhecida como Akt), apresentam pontos de reconhecimento

para PIP 3 e, então, são ativadas, controlando uma grande variedade de

funções celulares, incluindo apoptose, diferenciação, proliferação e

tráfego. A PKB também provoca a ativação de NO sintase no endotélio

vascular (ver Capítulo 21).

Trabalhos recentes sobre as vias de transdução de sinal produziram uma

desnorteante profusão de detalhes moleculares, com frequência expressos

em um jargão que tende a desencorajar os mais tímidos. Entretanto, a

perseverança será recompensada, pois não restam dúvidas de que novos

fármacos importantes surgirão, particularmente nas áreas de inflamação,

imunologia e câncer, tendo essas proteínas como alvo. Obteve-se avanço

no tratamento da leucemia mieloide crônica com a introdução do primeiro

inibidor de quinase especificamente projetado, o imatinibe, um fármaco

que inibe uma tirosinoquinase específica envolvida na patogênese da

doença (ver Capítulo 57).

 

A Figura 3.18 ilustra, de modo muito simplificado e esquemático, o papel

central das proteinoquinases nas vias de transdução de sinal. Muitas das

proteínas envolvidas, se não todas, incluindo os receptores e as próprias

quinases, são substratos para quinases, de modo que há muitos mecanismos

de feedback e interações cruzadas das várias vias de sinalização. Tendo em

vista que existem mais de quinhentas proteinoquinases e um número

igualmente elevado de receptores e outras moléculas sinalizadoras, a rede de

interações pode parecer espantosamente complexa. Dissecar seus detalhes

tornou-se o tema principal da biologia celular. Para os farmacologistas, a

ideia de uma conexão simples entre receptor e resposta, que norteou o

pensamento ao longo do século XX, está, sem dúvida, desmoronando,

embora ainda falte algum tempo para que as complexidades das vias

sinalizadoras sejam incorporadas, formando um novo modo de pensar sobre a

ação dos fármacos.

Fosforilação de proteínas na transdução de sinais

 

• Muitos eventos mediados por receptores envolvem a fosforilação de proteínas, que

controlam as propriedades funcionais e de ligação das proteínas intracelulares

• As tirosinoquinases ligadas a receptores, as tirosinoquinases ativadas por nucleotídios

cíclicos e as serino/treoninoquinases intracelulares constituem um mecanismo de “cascata

de quinases” que leva à ampli cação dos eventos mediados por receptores

• Existem muitas quinases com diferentes especi cidades de substrato, proporcionando a

especi cidade observada nas vias ativadas por diferentes hormônios

• A dessensibilização de receptores ligados à proteína G decorre da fosforilação por quinases

especí cas de receptores, o que torna o receptor não funcional e leva à internalização

• Existe uma grande família de fosfatases que atuam desfosforilando proteínas e, assim,

revertem os efeitos das quinases.