Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 303 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Fármacos antiplaquetários

Função plaquetária

 

• O endotélio vascular sadio impede a adesão de plaquetas

• As plaquetas aderem a áreas doentes ou lesionadas e se tornam ativadas, mudando de

forma e expondo fosfolipídios carregados negativamente e receptores de GP IIb/IIIa, além

de sintetizarem e/ou liberarem vários mediadores como, por exemplo TXA2 e ADP, que ativam outras plaquetas, causando agregação

• A agregação implica ligação de brinogênio a receptores GP IIb/IIIa em plaquetas

adjacentes

• As plaquetas ativadas constituem um foco para a formação de brina

• Durante a ativação de plaquetas são liberados fatores quimiotáxicos e de crescimento

necessários para o reparo, mas também implicados na aterogênese.

 

FÁRMACOS ANTIPLAQUETÁRIOS

As plaquetas desempenham um papel tão crítico na doença tromboembólica

que não é surpresa os fármacos antiplaquetários terem grande valor

terapêutico. Os estudos clínicos com o ácido acetilsalicílico alteraram

radicalmente a prática clínica, e os fármacos mais recentes que inibem ADP

e GP IIb/IIIa também têm se mostrado úteis terapeuticamente. Os locais de

ação dos fármacos antiplaquetários estão ilustrados na Figura 25.7.

 

Ácido acetilsalicílico

O ácido acetilsalicílico em dose baixa e uso crônico (ver Capítulo 27) inibe

profundamente (> 95%) a síntese de TXA 2 plaquetária por meio de acetilação irreversível de um resíduo de serina no ponto ativo da ciclo-

oxigenase I (COX-I). A administração oral é relativamente seletiva para

plaquetas, em parte pela eliminação pré-sistêmica do fármaco (ver Capítulo

10). Diferentemente das células nucleadas, as plaquetas não podem

sintetizar proteínas, em que após a administração de ácido acetilsalicílico, a

síntese de TXA2 não se recupera totalmente até que o conjunto de plaquetas afetadas seja reposto, em 7 a 10 dias. Estudos clínicos demonstraram a

eficácia do ácido acetilsalicílico em vários contextos clínicos (p. ex., Figura

25.8). Para indicações agudas (AVE trombótico em progressão – o chamado

AVE em evolução – e IAM), o tratamento é iniciado com uma dose única

de aproximadamente 300 mg para atingir uma inibição substancial rápida (>

95%) da síntese de TX das plaquetas, seguida por doses diárias regulares de

75 mg. Para a tromboprofilaxia a longo prazo, é utilizada uma dose mais

baixa (geralmente 75 mg/dia). Nesta dose, o risco de hemorragia

gastrintestinal é inferior à dose usual de 300 mg administrada para controlar

a inflamação, mas ainda assim é significativo, de modo que a

tromboprofilaxia está reservada apenas para pessoas com risco

cardiovascular elevado (p. ex., sobreviventes de IAM), nas quais o

benefício normalmente supera o risco de hemorragia gastrintestinal.

▼ A falha no tratamento pode ocorrer mesmo com o uso de ácido

acetilsalicílico, e há interesse atual na possibilidade de alguns pacientes

exibirem uma síndrome de “resistência ao ácido acetilsalicílico”, apesar

de seu mecanismo e possível importância permanecerem controversos

(Goodman et al., 2008). Outros fármacos não esteroides que inibem a

síntese de TXA2 plaquetária em mais de 95% (p. ex., sulfimpirazona,

para a qual existem também dados clínicos, e naproxeno – ver Capítulo

27) podem apresentar efeitos antitrombóticos; porém, quando a inibição

da síntese de TXA2 não atinge esse limiar, existem evidências de que

tais fármacos sejam pró-agregantes, relacionados à inibição de COX-2,

possivelmente em decorrência da inibição da PGI2 antiagregante nos

vasos sanguíneos.

 

Figura 25.8 Eficácia do ácido acetilsalicílico e da estreptoquinase no infarto agudo

do miocárdio. As curvas mostram a mortalidade vascular cumulativa em pacientes tratados com placebo, ácido acetilsalicílico isolado, estreptoquinase isolada ou uma combinação de ácido acetilsalicílico-estreptoquinase. (ISIS-2 Trial, 1988. Lancet ii, 350-360.)

 

Dipiridamol

O dipiridamol inibe a agregação plaquetária por meio de vários

mecanismos, incluindo inibição de fosfodiesterase, bloqueio da captação de

adenosina pelas hemácias (ver Capítulo 17) e inibição da síntese de TXA 2

(ver Capítulo 27). A eficácia clínica tem se mostrado incerta, porém um

estudo revelou que uma formulação de liberação modificada de dipiridamol

reduziu o risco de AVE e morte em pacientes com episódio isquêmico

cerebral transitório em cerca de 15% – semelhante ao do ácido

acetilsalicílico (25 mg, 2 vezes/dia).8 Os efeitos benéficos do ácido

acetilsalicílico e do dipiridamol são aditivos. Os principais efeitos adversos

do dipiridamol são tontura, cefaleia e distúrbios gastrintestinais;

diferentemente do ácido acetilsalicílico, ele não aumenta o risco de

sangramento.

 

Antagonistas do receptor de adenosina (P2Y12)

A ticlopidina foi a primeira a ser introduzida, porém causa neutropenia e

trombocitopenia. Na atualidade, os principais agentes são o clopidogrel, o

prasugrel e o ticagrelor, cada um dos quais é combinado com ácido

acetilsalicílico de baixa dose em pacientes com doença coronária instável,

geralmente por mais de 1 ano.

O clopidogrel e o prasugrel inibem a agregação plaquetária induzida por

ADP por meio de inibição irreversível dos receptores P2Y12 (ver Capítulo

17), com os quais se ligam através de uma ponte dissulfeto, enquanto o

ticagrelor é um inibidor reversível mas não competitivo do receptor P2Y12.

 

■ Farmacocinética e efeitos adversos

O clopidogrel é bem absorvido quando administrado por via oral e, em

situações urgentes, é administrado oralmente com uma dose de ataque de

300 mg seguida por doses de manutenção de 75 mg 1 vez/dia. É um

profármaco e é convertido no seu metabólito sulfidril ativo pelas enzimas

CYP no fígado, incluindo a CYP2C19. Os pacientes com alelos variantes de CYP2C19 (metabolizadores rápidos ou lentos) apresentam risco maior de

insucesso terapêutico por falta de eficácia ou por hemorragia. Existe um

potencial para interação com outros fármacos, como o omeprazol (ver

Capítulo 31), que é metabolizado pelo CYP2C19 e, por esse motivo, a bula

atual não recomenda a utilização do clopidogrel juntamente com inibidores

da bomba de prótons. O prasugrel e o ticagrelor são administrados como

uma dose de ataque seguida de manutenção, 1 vez/dia.

Estes fármacos aumentam previsivelmente o risco de hemorragia. O

clopidogrel pode causar dispepsia, rash ou diarreia. As graves discrasias

sanguíneas causadas pela ticlopidina são muito raras com o clopidogrel. O

prasugrel pode causar rash ou, raramente, reações de hipersensibilidade e

angioedema. O ticagrelor pode causar dispneia (provavelmente relacionada

com o papel de sinalização da adenosina nos corpos carotídeos, ver

Capítulo 29) ou, menos comumente, sintomas gastrintestinais.

 

■ Usos clínicos

O clopidogrel mostrou-se ligeiramente mais eficaz que o ácido

acetilsalicílico como único fármaco a reduzir o desfecho de uma

composição de AVE isquêmico, IAM ou morte vascular em um grande

estudo clínico. O fármaco pode ser usado no lugar de ácido acetilsalicílico,

em pacientes com doença ateromatosa sintomática, porém geralmente é

reservado para pacientes que são intolerantes ao ácido acetilsalicílico.

Estudos clínicos envolvendo adição de clopidogrel ao ácido acetilsalicílico

em pacientes com síndromes coronarianas agudas (Figura 25.9) e (em um

megaensaio clínico com 45.000 pacientes) em pacientes com IAM

(COMMIT Collaborative Group, 2005) demonstraram que o tratamento

combinado reduz a mortalidade. O tratamento com clopidogrel para essa

indicação é realizado em 4 semanas. O prasugrel é mais eficaz que o clopidogrel em síndromes coronarianas agudas, porém mais frequentemente

causa sangramentos graves. O pré-tratamento com clopidogrel e ácido

acetilsalicílico seguido de tratamento a longo prazo também é eficaz em

pacientes com doença cardíaca isquêmica submetidos a intervenções

coronarianas percutâneas. O tratamento da síndrome coronária aguda com

ticagrelor, comparando com o clopidogrel, reduz significativamente a

mortalidade por motivos desconhecidos.

 

Figura 25.9 Efeito da adição de clopidogrel ao ácido acetilsalicílico. As curvas mostram o risco cumulativo de eventos adversos para eventos vasculares graves em pacientes com síndromes coronarianas agudas tratadas com placebo + ácido acetilsalicílico ou clopidogrel + ácido acetilsalicílico. (Modificada de CURE Investigators, 2001. N Engl J Med 345, 494-502.)

 

Antagonistas do receptor da glicoproteína IIb/IIIa

Os antagonistas do receptor GP IIb/IIIa têm o atrativo teórico de inibir

todas as vias de ativação de plaquetas (uma vez que todas convergem para

ativação dos receptores GP IIb/IIIa). Um fragmento Fab de anticorpo

monoclonal híbrido humano-murino direcionado contra o receptor GP

IIb/IIIa, que leva o prosaico nome de abciximabe,9 foi licenciado para uso

em pacientes de alto risco submetidos à angioplastia coronariana, como

coadjuvante de heparina e ácido acetilsalicílico. Ele reduz o risco de

reestenose à custa do aumentado risco de sangramento. A imunogenicidade

limita seu uso a uma administração única.

A tirofibana é um não peptídio sintético, e a eptifibatida é um peptídio

cíclico baseado na sequência Arg-Gly-Asp (“RGD”) que é comum aos

ligantes de receptores GP IIb/IIIa. Nenhuma delas é absorvida se

administrada por via oral. Administrados IV, como coadjuvantes do ácido

acetilsalicílico e de uma preparação de heparina, reduzem os eventos

iniciais na síndrome coronária aguda. Contudo, o tratamento oral

prolongado com antagonistas do receptor GP IIb/IIIa não é eficaz e pode

mostrar-se deletério. Não surpreendentemente, eles aumentam o risco de

sangramento.

 

Outros fármacos antiplaquetários

O epoprostenol (PGI2), um agonista dos receptores prostanoides IP (ver

Capítulo 18), causa vasodilatação, assim como inibe a agregação

plaquetária. É adicionado ao sangue que ingressa no circuito de diálise para

prevenir trombose durante a hemodiálise, especialmente em pacientes com

contraindicação ao uso de heparina. Também é utilizado na hipertensão

pulmonar grave (ver Capítulo 23) e no choque circulatório associado à

sepse meningocócica. É instável em condições fisiológicas e tem meia-vida

de 3 min, razão pela qual deve ser administrado por via intravenosa. Os

efeitos adversos relacionados à sua ação vasodilatadora incluem rubores,

cefaleia e hipotensão.

Os usos clínicos dos fármacos antiplaquetários encontram-se resumidos

no boxe clínico (p. 331).