Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 118 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Distribuição dos fármacos no organismo

através de um reservatório. Nusinersena, um oligonucleotídio antisense

utilizado no tratamento da atrofia muscular espinal (ver Capítulo 41), é

administrado por via intratecal, sendo que esta via pode tornar-se cada vez

mais importante tendo em conta o potencial terapêutico dos biofármacos

nas patologias neurológicas, bem como o problema de acesso destes agentes

pela existência da barreira hematencefálica (p. 129).

 

Injeção intravítrea

O ranibizumabe (um fragmento de anticorpo monoclonal que se liga ao

fator de crescimento vascular endotelial; ver Capítulo 23) e o aflibercepte,

uma proteína de fusão, são administrados pelos oftalmologistas por injeção

intravítrea no tratamento da degeneração macular úmida relacionada com

idade, edema macular e neovascularização coroidal. Os implantes

intravítreos que liberam corticosteroides de forma lenta (como a

fluocinolona ou a dexametasona) ao longo de meses são utilizados no

edema macular.

 

DISTRIBUIÇÃO DOS FÁRMACOS NO ORGANISMO

COMPARTIMENTOS LÍQUIDOS DO ORGANISMO

A água corporal está distribuída em quatro compartimentos principais

(Figura 9.11). A água constitui 50 a 70% do peso corporal e, em mulheres, a

porcentagem é menor que em homens.

O líquido extracelular compreende plasma (em torno de 4,5% do peso

corporal), líquido intersticial (16%) e linfa (1,2%). O líquido intracelular

(30 a 40%) é a soma do conteúdo líquido de todas as células do corpo. O

líquido transcelular (2,5%) inclui líquidos cefalorraquidiano, intraocular,

peritoneal, pleural e sinovial e secreções digestivas. O feto também pode ser considerado um tipo especial de compartimento transcelular. Dentro de

cada um desses compartimentos aquosos, as moléculas de fármacos estão

presentes tanto livres em solução quanto na forma ligada; além disso, os

fármacos que são ácidos ou bases fracas existem como uma mistura em

equilíbrio das formas com carga e sem carga, e a posição do equilíbrio

depende do pH.

 

Figura 9.11 Principais compartimentos líquidos do organismo expressos em

porcentagem do peso corporal. As moléculas dos fármacos existem na forma ligada ou livre em cada compartimento, mas apenas a fração livre é capaz de movimentar-se entre os compartimentos.

Absorção e biodisponibilidade dos fármacos

 

• Fármacos com lipossolubilidade muito baixa, incluindo os ácidos e bases fortes,

geralmente são pouco absorvidos no trato gastrintestinal

• Alguns fármacos (p. ex., levodopa) são absorvidos por transferência mediada por

transportadores

• A absorção no trato gastrintestinal depende de muitos fatores, incluindo:

– Motilidade gastrintestinal

– pH gastrintestinal

– Tamanho das partículas

– Interação físico-química com o conteúdo intestinal (p. ex., interação química entre

cálcio e antibióticos tetraciclinas)

– Polimor smos genéticos nos transportadores de fármacos e competição pelos

mesmos

• A biodisponibilidade é a fração de uma dose ingerida de um fármaco que tem acesso à

circulação sistêmica. Ela pode ser baixa porque é incompleta ou porque o fármaco é

metabolizado na parede intestinal ou no fígado antes de alcançar a circulação sistêmica

• A bioequivalência implica que, se uma formulação de um fármaco for substituída por

outra, não haverá consequências clínicas indesejáveis.

 

O padrão do equilíbrio de distribuição entre os diversos compartimentos

depende, portanto, de:

 

• Permeabilidade através das barreiras teciduais

• Ligação dentro dos compartimentos

• Partição pelo pH

• Partição óleo:água.

Para passar do compartimento extracelular para os compartimentos

transcelulares, o fármaco precisa atravessar uma barreira celular, e a

barreira hematencefálica é um exemplo particularmente importante.

 

Barreira hematencefálica

O conceito de barreira hematencefálica foi introduzido por Paul Ehrlich

para explicar sua observação de que um corante administrado por via

intravenosa tingia a maioria dos tecidos, mas não o cérebro. A barreira

consiste em uma camada contínua de células endoteliais unidas por junções

de oclusão e cercadas por pericitos. Consequentemente, o cérebro é

inacessível para muitos fármacos de baixa lipossolubilidade. Entretanto, a

inflamação pode romper a integridade dessa barreira, possibilitando a

entrada no cérebro de substâncias que não costumam atravessá-la (Figura

9.12), podendo ainda desregular os mecanismos de efluxo dos fármacos;

consequentemente, a penicilina (ver Capítulo 52) pode ser administrada IV

(em vez da via intratecal) para o tratamento da meningite bacteriana, que é

acompanhada de intensa inflamação.

Figura 9.12 Concentrações de um antibiótico (tienamicina) no plasma e no líquido

cefalorraquidiano após uma dose intravenosa (25 mg/kg). Em coelhos normais, o fármaco não atinge o líquido cefalorraquidiano (LCR); no entanto, em animais com meningite experimental por Escherichia coli, a concentração do fármaco no LCR aproxima-se à do plasma. (De Patamasucon, P., McCracken Jr, G.H., 1973. Antimicrob. Agents Chemother. 3, 270.)

 

Além disso, em algumas partes do SNC, incluindo a zona

quimiorreceptora do gatilho, a barreira é permeável. Isso permite que a

domperidona, um antiemético antagonista do receptor de dopamina (ver

Capítulos 31 e 41) que não atravessa a barreira hematencefálica, mas que tem acesso à zona quimiorreceptora do gatilho, seja usada para evitar as