Rang e Dale: Farmacologia
Resposta imune inata
Os tecidos epiteliais da mucosa, que estão expostos ao ambiente externo,
secretam constantemente proteínas antibacterianas, como as defensinas, em
conjunto com um tipo de imunoglobulina “para todos os fins”, a (Ig)A, em
uma espécie de estratégia defensiva de prevenção. No entanto, em outros
lugares, a resposta inata é imediatamente ativada depois de uma infecção ou
dano.1
RECONHECIMENTO DO PADRÃO
Uma das funções mais importantes de qualquer sistema de segurança é a
habilidade de se estabelecer a identidade. Como um organismo decide se
uma célula ou molécula perdida é um bom cidadão ou um intruso
indesejado e potencialmente perigoso? No caso da resposta inata, isso é
feito por meio de uma rede de receptores de reconhecimento de padrão
(PRR; do inglês, pattern recognition receptors). Esses receptores
reconhecem padrões moleculares associados a patógenos (PAMP; do
inglês, pathogen-associated molecular patterns), produtos comuns oriundos
de bactérias, fungos, parasitos e vírus que não podem se modificar
prontamente de modo a escapar da detecção. Esses receptores incluem os
acoplados à proteína G, como a família FPR (receptor de formilpeptídio),
que reconhece os peptídios N-formilados característicos de síntese proteica
bacteriana (e também liberados a partir da mitocôndria lesada); e receptores
citoplasmáticos, como os receptores NOD-símiles (nucleotide-binding
oligomerization domain-like receptors) – uma ampla família de proteínas
intracelulares capazes de reconhecer os fragmentos de proteoglicanos
bacterianos, bem como várias outras famílias de moléculas.
Resposta imune inata
• A resposta inata ocorre imediatamente após lesão ou infecção. Abrange elementos
vasculares e celulares. Os mediadores gerados pelas células ou a partir do plasma
modi cam e regulam a magnitude da resposta
• Utilizando receptores Toll e outros receptores de reconhecimento, as células-sentinela
existentes nos tecidos do organismo, como macrófagos, mastócitos e células dendríticas,
detectam os padrões moleculares associados a patógenos especí cos. Esse
reconhecimento desencadeia a liberação de citocinas, particularmente a interleucina
(IL)-1 e o fator de necrose tumoral (TNF)-α, bem como várias quimiocinas
• A IL-1 e o TNF-α atuam sobre as células endoteliais venulares pós-capilares locais,
causando:
• Vasodilatação e exsudação de líquido
• Expressão de moléculas de adesão nas superfícies celulares
• O exsudato contém cascatas de enzimas que geram bradicinina (a partir do cininogênio),
além de C5a e C3a (a partir do complemento). A ativação do complemento lisa bactérias
• Os fragmentos C5a e C3a estimulam os mastócitos a liberarem histamina, e esta dilata as
arteríolas locais
• O dano tecidual e as citocinas induzem liberação de prostaglandinas (PG)I 2 e E2
(vasodilatadoras), além de leucotrieno (LT)B4 (uma quimiotaxina)
• As citocinas estimulam a síntese do vasodilatador óxido nítrico, que, por sua vez, aumenta
a permeabilidade vascular
• Ao utilizar moléculas de adesão, os leucócitos rolam, aderem e, por m, migram através
do endotélio vascular ativado, seguindo rumo à localização do patógeno (atraídos por
quimiocinas, IL-8, C5a e LTB4), onde ocorrem fagocitose e destruição bacteriana (killing) do agressor
Entre os PRR mais estudados, estão os receptores Toll-like (ou Toll-
símiles) (TLR: ver Jimenez et al., 2016, para uma revisão recente). O gene
Toll2 foi identificado pela primeira vez na Drosophila, na metade da década
de 1990. Genes análogos logo foram encontrados em vertebrados e
rapidamente estabeleceu-se que, sendo uma família, esses genes tinham a
função primária de detectar componentes altamente conservados nos
patógenos, bem como sinalizar sua presença aos dois ramos do sistema
imunológico.
Os seres humanos têm um repertório de 10 TLR, mas alguns outros
animais têm mais. Estruturalmente, eles são glicoproteínas
transmembranares pertencentes à família de receptores de tirosinoquinase
(ver Capítulo 3). Filogeneticamente, são altamente conservados. Os TLR
são codificados em genes distintos no DNA do hospedeiro, ao contrário dos
receptores de antígenos das células T e B, que se desenvolvem e se alteram
ao longo da vida, dotando cada clone de linfócitos de um receptor
estruturalmente único (ver adiante). A Tabela 7.1 traz uma lista do que, até
o presente, se identificou acerca desses receptores e dos principais produtos
patogênicos reconhecidos. Existem dois tipos principais de TLR,
localizados, respectivamente, na superfície celular e nos endossomos. Em
geral, esse último tipo reconhece RNA/DNA de patógenos (provavelmente
porque são encontrados nos fagossomos), enquanto o outro reconhece
componentes distintos do patógeno, como material da parede celular,
endotoxina etc. Alguns TLR também reconhecem padrões moleculares
associados a danos (DAMP; do inglês, damage associated molecular
patterns), substâncias liberadas quando as células do hospedeiro são
danificadas (p. ex., proteínas de choque térmico), proporcionando, assim,
uma maneira adicional de monitorar danos internos.
É um mistério molecular como uma única família de receptores pode
reconhecer um espectro tão amplo de substâncias químicas diferentes.
Alguns atuam em conjunto (p. ex., TLR 1, 2 e 6), em outros casos,
resolvem o problema recrutando proteínas “acessórias” adicionais que
modulam as suas propriedades de ligação (p. ex., TLR 4). Quando ativados,
os receptores Toll sofrem dimerização e dão início a vias de sinalização
complexas, que, por sua vez, ativam os genes codificadores de proteínas e
os fatores cruciais para o desenvolvimento ou modulação da resposta
inflamatória. Muitos desses fatores são discutidos mais adiante. De forma
notável do ponto de vista farmacológico, o TLR 7 também reconhece certos
compostos antivirais sintéticos, como as imidazolquinolonas. É provável
que a capacidade desses fármacos em provocar a ativação do TLR
fundamente sua eficácia clínica (ver Capítulo 53).
Os TLR estão estrategicamente localizados nas “células-sentinela”, que,
provavelmente, entram mais cedo em contato com os patógenos. As
células-sentinela incluem os macrófagos, os mastócitos e
(fundamentalmente) as células dendríticas, especialmente abundantes na
pele e em outras interfaces exterior-interior, bem como algumas células do
epitélio intestinal que estão expostas a patógenos da comida. Foram
observados defeitos genéticos no sistema TLR. Isso pode levar à
incapacidade para montar uma resposta defensiva efetiva do hospedeiro ou,
por vezes, a uma resposta inflamatória constitutivamente ativa.
Após destacar o modo como os patógenos “não próprios” (non-self) são
detectados pelo sistema imune inato, passaremos à descrição dos eventos
que se seguem ao “disparo do alarme”.
Respostas ao padrão de reconhecimento
■ Eventos vasculares A interação de um PAMP com TLR desencadeia a resposta das células-
sentinela, produzindo uma gama de polipeptídios pró-inflamatórios
denominados citocinas, incluindo o fator de necrose tumoral (TNF)-α e a
interleucina (IL)-1. A maturação e o processamento da IL-1 (e algumas
outras citocinas) são controlados por inflamossomos, complexos
intracelulares multiproteicos que variam de acordo com o tipo de estímulo
inflamatório. Desse modo, o inflamossomo inicia uma resposta inflamatória
organizada, de forma precisa, apropriada à situação (ver Yang et al., 2015,
para uma visão geral recente).
Seja como consequência direta da lesão tecidual ou no seguimento da
estimulação de citocinas, são liberados também mediadores inflamatórios
de baixo peso molecular (como as prostanglandinas e a histamina). Eles
atuam nas células do endotélio vascular das vênulas pós-capilares,
induzindo a expressão de moléculas de adesão na superfície íntima e
aumento da permeabilidade vascular (que permite que as células do sistema
imunológico passem do sangue para o tecido afetado).
Tabela 7.1 Família de receptores Toll-like (TLR) humanos
de reconhecimento de padrões (PRR).
Patógeno ou produto
PRR endógeno Ligante Locais de expressão Localização
reconhecido
TLR 2 (em geral com Bactérias (Gm pos) Lipoproteínas Monócitos/macrófagos Superfície
atuação conjunta com
Mycoplasma Ácido lipoteicoico Algumas células
TLR 1, TLR 6 e
possivelmente TLR 10) Parasitos dendrítricas Âncoras GPI
Linfócitos B
Leveduras Carboidratos da parede
celular Mastócitos
Células hospedeiras Proteínas de choque dani cadas térmico
Lipopolissacarídios
Monócitos/macrófagos
Algumas proteínas
Bactérias (Gm neg)
virais Algumas células
TLR 4a Vírus dendrítricas Proteínas de choque
Células hospedeiras térmico Mastócitos dani cadas
Fibrinogênio Epitélio intestinal
Ácido hialurônico
Monócitos/macrófagos
Algumas células
TLR 5 Bactérias Flagelina
dendrítricas
Epitélio intestinal
Células dendítricas
TLR 3 Vírus dsRNA viral
Linfócitos B
ssRNA viral
TLR 7 Vírus Monócitos/macrófagos
Algumas substâncias
sintéticas
Intracelular
(endossomal)
TLR 8 Vírus ssRNA viral Mastócitos
Componente bacteriano
com CpG
TLR 9 Bactérias Linfócitos B
DNA bacteriano
DNA próprio
a Opera em conjunto com MD-2 (antígeno linfocitário 96, uma proteína de ligação a lipopolissacarídios).
CpG DNA, dinucleotídeo CG não metilado; Gm neg/pos, gram-negativo/positivo (bactérias); GPI, proteínas de ancoragem de
glicosilfosfatidilinositol; ssRNA, RNA de cadeia simples; dsRNA, RNA de cadeia dupla.
Os leucócitos aderem às células endoteliais por meio de interações das
suas integrinas de superfície com as moléculas de adesão presentes nas
células endoteliais, e essa interação possibilita seu fluxo através da
microcirculação. Os leucócitos estão, assim, capacitados para migrar para
fora dos vasos, atraídos pelas quimiotaxinas produzidas pelos próprios
microrganismos ou como resultado de sua interação com os tecidos. As
quimiocinas polipeptídicas liberadas durante a ativação dos TLR
desempenham importante papel nesse evento (as citocinas e quimiocinas
são consideradas separadamente no Capítulo 19).
Os eventos vasculares iniciais incluem a dilatação de pe-quenas
arteríolas, com consequente aumento do fluxo sanguíneo. Em seguida, o
fluxo sanguíneo é retardado (ocorrendo, por fim, estase), e há aumento da
permeabilidade das vênulas pós-capilares, permitindo a exsudação de
líquidos. Essa vasodilatação é induzida por mediadores, incluindo
histamina, prostaglandina (PG)E e PGI (prostaciclina), liberados pelas 2 2 células lesionadas, sendo que alguns atuam em conjunto com as citocinas, a
fim de aumentar a permeabilidade vascular.
O exsudato resultante contém componentes para quatro cascatas
enzimáticas proteolíticas: o sistema do complemento, o sistema da
coagulação, o sistema fibrinolítico e o sistema de cininas (Figura 7.1). Os
componentes dessas cascatas são proteases inativas que são ativadas por
clivagem, de tal modo que cada componente ativado ativa o componente
seguinte da cascata.
▼ O sistema do complemento é constituído de nove elementos
principais, denominados C1 a C9. A ativação da cascata é iniciada por
substâncias derivadas de microrganismos, como paredes de células de
levedura ou endotoxinas. Essa via de ativação é denominada via
alternativa (ver Figura 7.1), em oposição à via clássica, que é discutida
mais adiante. Um dos principais eventos é a quebra enzimática de C3,
dando origem a vários peptídios. Um desses peptídios, C3a
(denominado anafilatoxina), estimula os mastócitos a secretarem mais
mediadores químicos e também pode estimular diretamente a
musculatura lisa. O peptídio C3b (chamado opsonina) fixa-se à
superfície dos microrganismos e facilita sua ingestão pelos fagócitos. O
peptídio C5a, gerado enzimaticamente a partir de C5, também induz a
liberação de mediadores a partir de mastócitos e exerce potente ação
quimiotáxica e ativadora sobre os leucócitos.
Os componentes finais da sequência, que são os mediadores derivados
do complemento (C5 a C9), coalescem para formar um complexo de
ataque à membrana. Este pode se ligar a certas membranas bacterianas
e provocam sua lise. O complemento, portanto, pode mediar a
destruição de bactérias invasoras ou lesionar parasitos pluricelulares,
embora, às vezes, cause lesão ao próprio hospedeiro. As principais
enzimas das cascatas da coagulação e fibrinolítica, trombina e plasmina,
respectivamente, também são capazes de ativar a cascata ao promover
hidrólise de C3, como fazem as enzimas liberadas pelos leucócitos.
O sistema de coagulação e o sistema fibrinolítico são descritos no
Capítulo 25. O fator XII é ativado em XIIa (p. ex., pelo colágeno), e a
fibrina, produto final depositado durante a interação hospedeiro-
patógeno, também serve para limitar a extensão da infecção. A trombina
está adicionalmente envolvida na ativação do sistema das cininas (ver
Figura 7.1) e, de maneira indireta, do sistema fibrinolítico (ver Capítulo
25).
O sistema das cininas é outra cascata de enzimas importante na
inflamação. Diversos mediadores pró-inflamatórios e pró-álgicos são
gerados nesse sistema, em particular a bradicinina (ver Figura 7.1).
Finalmente, o exsudato drena através dos vasos linfáticos para linfonodos
locais ou tecido linfoide, onde os produtos do microrganismo invasor
desencadeiam a fase adaptativa da resposta.
Figura 7.1 Quatro cascatas enzimáticas são ativadas quando o plasma extravasa
para dentro dos tecidos em decorrência da aumentada permeabilidade vascular na
inflamação. Os fatores causadores de exsudação estão representados na Figura 7.2. Os mediadores gerados são indicados nos retângulos com borda vermelha. Os componentes do complemento são indicados como C1, C2 etc. A plasmina, quando se forma, tende a aumentar a formação de cininas e a inibir a cascata de coagulação. XIIa, fator XIIa, ver texto. (Adaptada de Dale, M.M., Foreman, J.C., Fan, T-P. (eds), 1994. Textbook of Immunopharmacology. 3rd ed. Blackwell Scientific, Oxford.)
■ Eventos celulares
Entre as células envolvidas na inflamação, algumas (p. ex., células
endoteliais vasculares, mastócitos, células dendríticas e macrófagos
teciduais) estão presentes nos tecidos normais, enquanto outras são células
ativamente móveis (p. ex., leucócitos) e ganham acesso a partir do sangue
circulante.
Leucócitos polimorfonucleares
Os neutrófilos polimorfonucleares, as “tropas de choque” da inflamação,
são os primeiros leucócitos do sangue a entrarem no tecido inflamado ou
danificado (Figura 7.2). O processo todo é coreografado com habilidade:
sob observação direta, é possível ver os neutrófilos inicialmente rolando ao
longo do endotélio ativado; em seguida, a ele aderem e, por fim, migram
para fora do vaso sanguíneo, entrando no espaço extravascular. Esse
processo é regulado pela ativação sucessiva de diferentes famílias de
moléculas de adesão (selectinas, moléculas de adesão intercelular [ICAM;
do inglês, intercellular adhesion molecules] e integrinas) no endotélio
inflamado, as quais se ancoram nos respectivos contraligantes no
neutrófilo, capturando-o à medida que rola pela superfície, estabilizando
sua interação com as células endoteliais e capacitando-o a migrar para fora
do vaso (através do uso de outra molécula de adesão denominada PECAM
[do inglês, platelet endothelium adhesion molecule]). O neutrófilo, então, é
atraído até o patógeno invasor pela ação de substâncias químicas
denominadas quimiotaxinas, algumas das quais (como o tripeptídio formil-
Met-Leu-Fen) são liberadas pelo microrganismo, enquanto outras, como a
C5a, são produzidas localmente ou, em alguns casos, liberadas (p. ex., quimiocinas, entre as quais a IL-8) por células próximas, como os
macrófagos.
Os neutrófilos são capazes de internalizar, matar e digerir os
microrganismos. Assim como os eosinófilos, contêm receptores de
superfície para C3b, que atua como uma opsonina, estabelecendo uma
ligação entre o neutrófilo e a bactéria invasora (uma ligação ainda mais
eficaz pode ser construída por intermédio de anticorpos). Os neutrófilos
matam microrganismos internalizando-os em vacúolos internos. Uma
enzima NADPH oxidase na superfície dos leucócitos regula o transporte de
íons de tal forma que o pH do vacúolo normalmente ácido é aumentado,
podendo ocorrer uma digestão enzimática otimizada do organismo por
proteases neutras. Os radicais de oxigênio tóxicos também são produzidos
por essa enzima, mas acredita-se agora que estes sejam menos importantes
na morte microbiana (Segal, 2016). No entanto, se o neutrófilo for
indevidamente ativado, essas armas bioquímicas podem ser usadas de modo
inadvertido nos tecidos do hospedeiro, causando danos. Quando os
neutrófilos esgotam o seu potencial, sofrem apoptose e são eliminados por
macrófagos fagocíticos. É essa massa de neutrófilos vivos e apoptóticos que
constitui o “pus”.
Mastócitos
Por ser uma importante “célula-sentinela” que expressa TLR, o mastócito
também possui receptores de superfície para IgE e para as anafilatoxinas
C3a e C5a. Os ligantes desses receptores desencadeiam a liberação de
mediadores, assim como o faz um dano físico direto. Uma das principais
substâncias liberadas é a histamina; outros mediadores incluem heparina,
leucotrienos, PGD2, fator ativador de plaquetas (PAF), fator de crescimento de nervos e algumas interleucinas e proteases. Os mastócitos, em raras
ocasiões, contêm pequenas quantidades de citocinas pré-formadas, as quais podem ser instantaneamente liberadas (por exocitose mediada por Ca2+, ver
Capítulo 4) ao serem estimuladas. Isso os torna extremamente eficazes
como agentes desencadeadores da resposta inflamatória.
Figura 7.2 Diagrama simplificado dos eventos que culminam na migração dos
leucócitos polimorfonucleares (PMN) em uma reação inflamatória aguda local. Em resposta à ativação dos receptores de reconhecimento de padrões, os macrófagos teciduais liberam as citocinas pró-inflamatórias interleucina (IL)-1 e o fator de necrose tumoral (TNF)-α. As citocinas atuam nas células endoteliais das vênulas pós-capilares, provocando a exsudação de fluidos e a expressão de fatores de adesão que reconhecem contraligantes nos neutrófilos veiculados pelo sangue. Os neutrófilos livres na circulação sanguínea são inicialmente “capturados” por seletinas nas células endoteliais ativadas. Em seguida, rolam ao longo do endotélio até serem aprisionados pela ação das integrinas e aderirem à parede do vaso. As células ativadas, em seguida, se arrastam ao longo do endotélio até encontrarem um lugar apropriado para a transmigração. Em pequena parte dos casos, os neutrófilos conseguem se mover mesmo através das células endoteliais (transmigração transcelular), mas eles principalmente migram através das junções entre as células endoteliais (transmigração paracelular). Depois são recrutadas mais moléculas de adesão para guiar a célula pelos espaços. As células migratórias também necessitam migrar através dos espaços da camada de pericitos (células contráteis) que circundam as vênulas, e da membrana basal (constituída por tecido conjuntivo). Gradientes quimiotáticos, formados pela liberação de substâncias do patógeno, guiam a célula até seu alvo, onde esta pode matar ou fagocitar o invasor. De forma característica, os neutrófilos morrem depois desse evento e, nesse caso, entram em apoptose e são fagocitados pelos macrófagos, terminando o evento da inflamação. Detalhe: fotomicrografia da microcirculação normal e não inflamada do mesentério do rato (imagem à esquerda) e após um período de inflamação (imagem à direita). As setas indicam os neutrófilos aderindo ao epitélio, bem como alguns que já transmigraram. (Diagrama modificado de Nourshargh et al., 2010. Imagem cortesia de Drs. S. Yazid, G. Leoni e D. Cooper.)
Monócitos/macrófagos
Os monócitos seguem os polimorfos para dentro das lesões inflamatórias
depois de um atraso temporal (por vezes, até de várias horas). A adesão ao
endotélio e a migração pelo tecido seguem um padrão similar de ligação de
molécula adesiva ao observado com os neutrófilos, embora a quimiotaxia
dos monócitos envolva quimiocinas adicionais, como MCP-13 (que, de
forma suficientemente razoável, significa monocyte chemoattractant
protein-1 [proteína quimiotáxica para monócitos-1]) e RANTES (que, de
forma bastante injustificada, representa regulated on activation normal T
cell expressed and secreted [regulada sob ativação e expressa e secretada
pela célula T normal]: aqui a nomenclatura imunológica se superou!).
Uma vez nos tecidos, os monócitos sanguíneos se diferenciam em
macrófagos.4 A célula recém-diferenciada pode adquirir um fenótipo M1 ou
M2, dependendo dos tipos de citocinas que secreta. Em geral, o fenótipo
M1 é considerado pró-inflamatório, enquanto o fenótipo M2 provavelmente
está mais envolvido na reparação e na cura dos tecidos (embora essa
distinção simplista seja atualmente objeto de debate: ver Martinez e
Gordon, 2014). Os macrófagos têm, de fato, uma notável gama de capacidades, sendo não só muito versáteis em suas funções, como também
os melhores em muitas delas.
A ativação dos TLR monócitos/macrófagos estimula a síntese e a
liberação de quimiocinas e outras citocinas que atuam sobre as células
endoteliais vasculares, atraem outros leucócitos para o local e produzem as
manifestações sistêmicas da resposta inflamatória, como a febre (muitos
desses mediadores inflamatórios têm propriedades pirogênicas). Os
macrófagos internalizam debris teciduais e células mortas, bem como
fagocitam e destroem a maioria (mas infelizmente nem todos) dos
microrganismos. Os macrófagos também desempenham importante papel
na apresentação de antígenos. Quando estimulados por glicocorticoides, os
macrófagos também secretam anexina-1 (um potente polipeptídio anti-
inflamatório; ver Capítulo 34), que controla o desenvolvimento da reação
inflamatória local, ajudando a limitar qualquer dano colateral.
Células dendríticas
Estas células estão presentes em numerosos tecidos, especialmente
auxiliando barreiras funcionais (p. ex., a pele, onde, às vezes, são referidas
como células de Langerhans, em homenagem a seu descobridor). Trata-se
de uma “célula-sentinela” importante, capaz de detectar a presença de
patógenos e, ao ser assim ativada, migrar para os tecidos linfoides, onde
desempenha papel crucial na apresentação de antígenos.
Eosinófilos
Essas células apresentam capacidades semelhantes às do neutrófilo, mas,
assim como os mastócitos, também são “armadas” com uma bateria de
substâncias armazenadas em seus grânulos. Estes, ao serem liberados,
matam os parasitos pluricelulares (p. ex., helmintos). Tais substâncias
incluem a proteína catiônica eosinofílica, uma enzima peroxidase, a proteína básica principal eosinofílica e uma neurotoxina. O eosinófilo é
considerado por muitos uma célula de importância fundamental na
patogênese da fase tardia da asma, onde se sugere que as proteínas
granulares secretadas causem lesão do epitélio bronquiolar (ver Figura
29.4).
Basófilos
Em diversos aspectos, os basófilos se parecem com os mastócitos. Exceto
em algumas doenças inflamatórias, como as infecções virais e as doenças
mieloproliferativas, o conteúdo de basófilos nos tecidos é normalmente
desprezível, sendo que, no indivíduo sadio, essas células correspondem a
apenas < 0,1% dos leucócitos circulantes.
Células endoteliais vasculares
Atualmente, sabe-se que as células do endotélio vascular (ver Capítulos 23
e 24), originalmente consideradas células de revestimento passivas, têm
participação ativa na inflamação. As células endoteliais das pequenas
arteríolas secretam óxido nítrico (NO), promovendo o relaxamento da
musculatura lisa subjacente (ver Capítulo 21), vasodilatação e aumento do
aporte de plasma e células sanguíneas para a área inflamada. As células
endoteliais das vênulas pós-capilares regulam a exsudação de plasma e,
assim, o aporte de mediadores derivados do plasma (Figura 7.1). As células
endoteliais vasculares expressam diversas moléculas de adesão (moléculas
das famílias ICAM e selectinas; Figura 7.2), bem como uma variedade de
receptores, entre os quais aqueles para histamina, acetilcolina e IL-1. Além
do NO, essas células sintetizam e liberam os agentes vasodilatadores PGI2 e
PGE2, o vasoconstritor endotelina, o ativador de plasminogênio, o PAF e diversas citocinas. As células endoteliais também participam da angiogênese que ocorre na fase de resolução da inflamação, durante a
inflamação crônica e no câncer (ver Capítulos 6, 7 e 57).
Plaquetas
As plaquetas estão envolvidas principalmente na coagulação e nos
fenômenos trombóticos (ver Capítulo 25), mas também tomam parte na
inflamação. Contêm receptores de baixa afinidade para IgE, e podem
contribuir para a ocorrência da primeira fase da asma alérgica (ver Figura
29.1). Além de gerarem tromboxano (TX)A 2 e PAF, são capazes de produzir radicais livres e proteínas catiônicas pró-inflamatórias. O fator de
crescimento derivado de plaquetas contribui para os processos de reparo
que se seguem às respostas inflamatórias ou às lesões nos vasos sanguíneos.
Células natural killer
As células natural killer (NK) constituem um tipo de linfócito
especializado. Em uma inversão incomum do conceito de receptor, as
células NK matam seus alvos (p. ex., células infectadas por vírus ou células
tumorais) que não contêm ligantes para seus próprios receptores inibitórios.
Tais ligantes são conhecidos como moléculas do complexo de
histocompatibilidade principal (MHC; do inglês, major histocompatibility
complex), e quaisquer células em que tais moléculas estejam ausentes
tornam-se alvo do ataque das células NK. Essa estratégia é às vezes
chamada de “estratégia da mamãe peru”.5 As proteínas do MHC são
expressas na superfície da maioria das células do hospedeiro e, em termos
simples, são específicas para cada indivíduo. Desse modo, ao reconhecê-las,
as células NK conseguem evitar lesar às células do seu hospedeiro. As
células NK apresentam outras funções: são equipadas com receptores para
Fc e, na presença de anticorpos dirigidos contra uma célula-alvo, podem
matar essa célula por citotoxicidade dependente de anticorpos.