Rang e Dale: Farmacologia
Perspectivas para o futuro
restante que não foi aprovado.10
PERSPECTIVAS PARA O FUTURO
Desde 1990, aproximadamente, o processo de descoberta de fármacos tem
estado no meio de substancial revolução metodológica, seguindo-se à
rápida ascendência da biologia molecular, genética e informática, entre
grandes expectativas de que isso poderia trazer dividendos marcantes em
termos de rapidez, custo e taxa de sucesso. A avaliação em grande escala
emergiu indubitavelmente como uma poderosa tecnologia para o encontro
do guia; no entanto, de maneira geral, os benefícios não estão ainda
esclarecidos: os custos aumentaram progressivamente, a taxa de sucesso
não melhorou e os tempos de desenvolvimento não diminuíram.
A Figura 60.2 ilustra a tendência no número de novos fármacos
lançados nos principais mercados mundiais, que havia até recentemente
diminuído de forma constante, apesar dos custos crescentes e da melhora da
tecnologia, causando sérias preocupações à indústria. Houve muita
especulação sobre as causas do declínio, sendo a visão otimista que menos
fármacos, porém melhores, estavam sendo introduzidos, e que a revolução
genômica ainda não havia causado o seu impacto. Esse otimismo pode ser
bem fundado, porque, como mostra a Figura 60.2, o número de aprovações
tem mostrado uma recuperação encorajadora nos últimos anos.
Se os novos fármacos que estão em desenvolvimento melhorarem a
qualidade dos cuidados médicos, existe espaço para otimismo. Nos últimos
anos (“pré-revolucionários”), fármacos sintéticos visando a novos alvos (p.
ex., os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, estatinas, inibidores
da quinase e vários anticorpos monoclonais) têm trazido grandes
contribuições para os cuidados dos pacientes. A capacidade das novas tecnologias de criar novos alvos disponíveis para a máquina de descoberta
de fármacos está começando a ter um efeito real nos cuidados do paciente.
A criatividade permanece elevada, apesar dos custos crescentes e dos lucros
em declínio, que constituem um desafio para a indústria farmacêutica.
As tendências incluem o crescente arsenal de produtos
biofarmacêuticos. Exemplos de sucesso recentes incluem anticorpos
monoclonais como o trastuzumabe (um anticorpo dirigido contra o
receptor do fator de crescimento epidérmico humano 2 – HER2 – que é
usado para tratar cânceres da mama que superexpressam esse receptor; ver
Capítulo 57) e o infliximabe (um anticorpo contra o fator de necrose
tumoral para tratar doenças inflamatórias; ver Capítulo 27); muitos
fármacos semelhantes já estão disponíveis, e mais são esperados. Outra
alteração provável será no uso da genotipagem para “individualizar”
tratamentos farmacológicos a fim de reduzir a probabilidade de administrar
fármacos a “não respondedores” (ver Evans e Relling, 2004; e Capítulo 12,
que resume o estado atual da “medicina personalizada”). As implicações
para a descoberta de fármacos serão profundas, uma vez que a
compartimentação (ou estratificação como é por vezes conhecida)
terapêutica da população de pacientes irá significar que os mercados vão
diminuir de tamanho, terminando a dependência dos fármacos “arrasa
quarteirão” referidos anteriormente. Ao mesmo tempo, os ensaios clínicos
passarão a ser mais complexos (e dispendiosos), pois diferentes grupos
genotípicos terão de ser incluídos no desenho do ensaio. A esperança é que
a eficácia terapêutica será melhorada, e não que será uma rota para
desenvolver fármacos com menor custo e mais rapidez. Contudo, há
concordância geral de que o modus operandi atual é comercialmente
insustentável (Munos, 2009). Os custos e os requisitos regulamentares
continuam a aumentar, e a utilização antecipada da genômica para definir subgrupos de pacientes que apresentam tendência para responder a
determinados agentes terapêuticos (ver Capítulo 12) significará
fragmentação do mercado, à medida que nos afastamos do enfoque “um
fármaco que funcione para todos”, que encorajou as companhias
farmacêuticas a focalizarem seus esforços na produção de fármacos “arrasa
quarteirão”. Será necessário maior número de fármacos direcionados para
pequenos grupos de pacientes, embora o custo para desenvolver esse tipo de
fármaco e um “arrasa quarteirão” seja o mesmo, assim como o risco de
falhar, e em um mercado mais limitado – fatores que exigem preços mais
elevados do que no passado.
Figura 60.2 Gasto com pesquisa e desenvolvimento (P&D), vendas e registros de
novos fármacos, 1980 a 2017. Os registros referem-se a novas entidades químicas (incluindo biofármacos e excluindo novas formulações e combinações dos compostos existentes e registrados). O declínio nos registros até 2010 viu, desde então, alguma inversão nos anos mais recentes. (Dados de várias fontes, como Centre for Medicines Research, Pharmaceutical Research and Manufactures Association of America.)