Rang e Dale: Farmacologia
Fármacos que intensificam a transmissão colinérgica
▼ A β-bungarotoxina é uma proteína presente no veneno de várias
serpentes da família das najas e tem ação semelhante à da toxina
botulínica, embora seu componente ativo seja uma fosfolipase, e não
uma peptidase. Esses venenos contêm também α-bungarotoxina (ver
Capítulo 3), que bloqueia os receptores pós-sinápticos da ACh, de modo
que, como se vê, esses animais cobrem todas as possibilidades no
sentido de causar paralisia de suas vítimas.
FÁRMACOS QUE INTENSIFICAM A TRANSMISSÃO COLINÉRGICA
Os fármacos que intensificam a transmissão colinérgica atuam inibindo a
colinesterase (o grupo principal) ou aumentando a liberação de ACh. Neste
capítulo, enfocaremos as ações periféricas dessas substâncias; os fármacos
que afetam a transmissão colinérgica do SNC, utilizados no tratamento da
demência senil, são discutidos no Capítulo 41, que também aborda a atrofia
muscular espinal – uma patologia rara caracterizada pela degeneração das
células do corno anterior na medula espinal e dos núcleos motores no
tronco cerebral inferior, resultando em características clínicas reminescentes
de botulismo infantil, causadas pela perda de uma proteína de sobrevivência
no neurônio motor. Esses pacientes podem ser tratados com nusinersena,
um oligonucleotídio antisense desenhado para aumentar a expressão da
proteína de sobrevivência, administrado por via intratecal (ver Capítulos 9,
40 e 41).
Distribuição e função da colinesterase
Há dois tipos distintos de colinesterase, a acetilcolinesterase (AChE) e a
butirilcolinesterase (BuChE, às vezes chamada de pseudocolinesterase),
que apresentam estruturas moleculares muito semelhantes, mas que diferem
com relação à distribuição, à especificidade por substrato e às funções. Ambas são formadas por subunidades globulares catalíticas, que constituem
as formas solúveis encontradas no plasma (BuChE) e no líquido
cefalorraquidiano (AChE). Em outros locais, as unidades catalíticas
encontram-se ligadas a proteínas acessórias, que se ligam, como um grupo
de balões, à membrana basal (na junção neuromuscular) ou à membrana
neuronal nas sinapses neuronais colinérgicas (e também, estranhamente, à
membrana dos eritrócitos, em que a função dessa enzima é desconhecida).
Nas sinapses colinérgicas, a AChE ligada age hidrolisando o
transmissor liberado e encerra sua ação rapidamente. A AChE solúvel
também está presente nas terminações nervosas colinérgicas, em que parece
ter um papel na regulação da concentração de ACh livre, e de onde pode ser
secretada; a função da enzima secretada ainda não está clara. A AChE é
bastante específica para a ACh e para ésteres muito semelhantes a ela, como
a metacolina. Certos neuropeptídios, como a substância P (ver Capítulo 19),
são inativados pela AChE; no entanto, não se sabe se essa ação tem alguma
importância fisiológica. Em geral, há uma fraca correspondência entre a
distribuição das sinapses colinérgicas e a da AChE, tanto no cérebro quanto
na periferia, e é muito provável que a AChE desempenhe outras funções
sinápticas, além de neutralizar a ACh, embora os detalhes permaneçam
obscuros (revisão de Zimmerman e Soreq, 2006).
A BuChE apresenta uma ampla distribuição, sendo encontrada em
tecidos como fígado, pele, cérebro e musculatura lisa gastrintestinal, bem
como no plasma, na sua forma solúvel. Não está particularmente associada
às sinapses colinérgicas, e sua função fisiológica é incerta. Apresenta maior
especificidade de substrato que a AChE. O substrato sintético butirilcolina é
hidrolisado mais rapidamente que a ACh, e ocorre com outros ésteres, como
a procaína, o suxametônio e a propanidida (um agente anestésico de ação
curta; ver Capítulo 42). A enzima plasmática tem função importante na inativação dos fármacos citados. Existem variantes genéticas raras da
BuChE que implicam redução significativa da atividade (ver Capítulo 12),
as quais são parcialmente responsáveis pelas variações observadas na
duração da ação desses fármacos. A duração curta da ação da ACh
administrada por via intravenosa (ver Figura 14.1) é consequência de sua
rápida hidrólise no plasma. Em geral, a AChE e a BuChE mantêm a ACh
do plasma em níveis abaixo do limite de detecção e, por essa razão, a ACh é
estritamente um neurotransmissor, e não um hormônio.
▼ Tanto a AChE quanto a BuChE pertencem à classe das serina
hidrolases, que engloba muitas proteases, dentre as quais a tripsina. O
ponto ativo da AChE compreende duas regiões distintas (Figura 14.8):
um ponto aniônico (resíduo de glutamato), que se liga à porção básica
(colina) da ACh; e um ponto esterásico (catalítico) (histidina + serina).
Como ocorre com outras serina hidrolases, o grupo ácido (acetil) do
substrato é transferido para o grupo hidroxila da serina, e essa
transferência produz (transitoriamente) uma molécula de enzima
acetilada e uma molécula de colina livre. A hidrólise espontânea do
grupo acetil da serina ocorre rapidamente, e o número global de
moléculas recicladas (o turnover) de AChE é extremamente alto (mais
de 10.000 moléculas de ACh hidrolisadas por segundo por um único
ponto ativo).
Fármacos que inibem a colinesterase
Os agentes anticolinesterásicos de ação periférica, resumidos na Tabela
14.8, podem ser divididos em três grupos principais de acordo com a
natureza de sua interação com o ponto ativo, que determina a duração de
sua ação. A maioria deles inibe a AChE e a BuChE de modo
aproximadamente igual. Os anticolinesterásicos de ação central,
desenvolvidos para o tratamento da demência, são discutidos no Capítulo
41.
■ Anticolinesterásicos de ação curta
O único fármaco importante desse tipo é o edrofônio, um composto de
amônio quaternário que se liga apenas ao ponto aniônico da enzima. A
ligação iônica formada é facilmente reversível, e a ação do fármaco é muito
breve. É utilizado principalmente com finalidades diagnósticas, visto que a
melhora da força muscular observada com o uso de um anticolinesterásico é
característica da miastenia gravis (pp. 195-196), mas não ocorre quando a
fraqueza muscular é resultante de outras causas.
Figura 14.8 Ação dos fármacos anticolinesterásicos. Anticolinesterásico reversível (neostigmina): a recuperação da atividade por meio da hidrólise da enzima carbamilada requer vários minutos. Anticolinesterásico irreversível (diflos): a pralidoxima promove a reativação da enzima fosforilada. A representação do ponto ativo é puramente esquemática, não representando a estrutura real da molécula.
■ Anticolinesterásicos de duração intermediária
Estes englobam a neostigmina (prostigmina) e a piridostigmina, que são
compostos de amônio quaternário de importância clínica, e a fisostigmina
(eserina), uma amina terciária, que ocorre naturalmente na fava-de-calabar.7
Todos esses fármacos são carbamil-ésteres, em vez de acetil-ésteres, e
contêm grupos básicos que se ligam ao ponto aniônico. A transferência do
grupo carbamil para o grupo hidroxila da serina do ponto esterásico ocorre
da mesma forma que com a ACh, mas a enzima carbamilada sofre hidrólise
muito mais lentamente (ver Figura 14.8), levando minutos em vez de
microssegundos. Os fármacos anticolinesterásicos são, portanto,
hidrolisados, mas a uma velocidade insignificante quando comparados com
ACh; e a recuperação lenta da enzima carbamilada indica que a ação desses
fármacos é bastante prolongada.
A donepezila é um fármaco ativo no SNC, desenvolvido para o
tratamento da doença de Alzheimer (ver Capítulo 41).
■ Anticolinesterásicos irreversíveis
Os anticolinesterásicos irreversíveis (ver Tabela 14.8) são compostos de
fósforo pentavalente que contêm um grupo lábil, como o fluoreto (no
diflos), ou um grupo orgânico (no paration e no ecotiopato). Esse grupo é
liberado, deixando fosforilado o grupo hidroxila da serina da enzima
(Figura 14.8). A maioria desses compostos organofosforados, dos quais
existem vários, foram desenvolvidos como armas, tais como o sarin, e o
mais potente VX (10 mg em contato com a pele podem ser fatais), que ganharam notoriedade como um agente de assassinato patrocinado pelos
governos.8 Alguns são utilizados como pesticidas, bem como na prática
clínica. Interagem apenas com o ponto esterásico da enzima e não
apresentam um grupo catiônico. O ecotiopato é uma exceção, uma vez que
dispõe de um grupo com nitrogênio quaternário que também se liga ao
ponto aniônico.
A enzima fosforilada inativa é geralmente muito estável. Com fármacos
como o diflos, não ocorre uma hidrólise apreciável, e a recuperação da
atividade enzimática depende de síntese de novas moléculas da enzima, um
processo que pode levar semanas. Com outros fármacos, como o ecotiopato,
ocorre hidrólise no decorrer de alguns dias, de modo que sua ação não é
estritamente irreversível. O diflos e o paration são substâncias apolares
voláteis com alta lipossolubilidade, rapidamente absorvidas através das
membranas mucosas e até mesmo através da pele íntegra e da cutícula dos
insetos; o uso desses agentes como arma química (gases tóxicos) ou como
inseticidas baseia-se nessa propriedade. A ausência de um grupo
quaternário que confira especificidade indica que a maioria desses fármacos
bloqueia outras serina hidrolases (p. ex., tripsina e trombina), embora seus
efeitos farmacológicos decorram principalmente da inibição da
colinesterase.
■ Efeitos dos fármacos anticolinesterásicos
Os inibidores da colinesterase afetam tanto as sinapses colinérgicas
periféricas quanto as centrais.
Além disso, alguns compostos organofosforados são capazes de
produzir uma forma grave de neurotoxicidade.
Efeitos sobre as sinapses colinérgicas autonômicas. Esses efeitos
refletem principalmente o aumento da atividade da ACh nas sinapses pós-ganglionares parassimpáticas (i. e., aumento das secreções das glândulas
salivares, lacrimais, brônquicas e gastrintestinais; aumento da atividade
peristáltica; broncoconstrição; bradicardia e hipotensão; constrição pupilar;
fixação da acomodação da visão para perto; queda da pressão intraocular).
Doses grandes são capazes de estimular e, posteriormente, bloquear, os
gânglios autônomos, produzindo efeitos autônomos complexos. O bloqueio,
quando ocorre, consiste em um bloqueio por despolarização e está
associado ao acúmulo de ACh no plasma e nos líquidos orgânicos. A
neostigmina e a piridostigmina tendem a afetar mais a transmissão
neuromuscular que o sistema autônomo, ao passo que a fisostigmina e os
organofosforados mostram padrão oposto. O motivo não está claro, mas o
uso terapêutico tira proveito dessa seletividade parcial.
A intoxicação aguda por anticolinesterásicos (p. ex., pelo contato com
inseticidas ou com gases tóxicos utilizados em armas químicas) causa
bradicardia grave, hipotensão e dificuldade para respirar. Quando ocorre
também bloqueio neuromuscular despolarizante e efeitos centrais (adiante),
o resultado pode ser fatal.
Efeitos sobre a junção neuromuscular. Os agentes anticolinesterásicos
aumentam a força da contração de um músculo estimulado por meio de seu
nervo motor, graças à descarga repetitiva na fibra muscular associada a um
prolongamento do ppt. Em geral, a ACh é hidrolisada tão rapidamente, que
cada estímulo dá início a apenas um potencial de ação na fibra muscular.
Contudo, quando a AChE está inibida, surge uma curta série de potenciais
de ação na fibra muscular e, como consequência, uma tensão maior. Muito
mais importante, no entanto, é o efeito produzido quando a transmissão é
bloqueada por um agente bloqueador não despolarizante, como o
pancurônio. Nesse caso, a adição de um anticolinesterásico pode restaurar
drasticamente a transmissão. Quando um grande número de receptores é bloqueado, a maior parte das moléculas de ACh encontrará geralmente
moléculas de AChE, e será destruída por elas antes de alcançar um receptor
vago. A inibição da AChE dá às moléculas de ACh uma chance maior de
encontrar um receptor vago antes de serem destruídas e, como
consequência, aumenta o ppt de tal modo, que ele alcança o limiar. Na
miastenia gravis (pp. 195-196), a transmissão não ocorre porque há
pouquíssimos receptores da ACh, e, nesse caso, a inibição da colinesterase
melhora a transmissão, assim como faz com o músculo curarizado.
Em grandes doses, como pode acontecer nas intoxicações, os
anticolinesterásicos causam inicialmente espasmos musculares. Isso ocorre
porque a liberação espontânea de ACh pode dar origem a potenciais de ação
na placa terminal que alcançam o limiar de disparo. Posteriormente, pode
surgir paralisia em decorrência de bloqueio por despolarização, que está
associado a um acúmulo de ACh.
Efeitos sobre o SNC. Os compostos terciários, como a fisostigmina, e
os organofosforados apolares atravessam livremente a barreira
hematencefálica e afetam o cérebro. O resultado é uma excitação inicial,
que pode causar convulsões, seguida de depressão, que pode causar perda
da consciência e insuficiência respiratória. Esses efeitos centrais resultam
principalmente da ativação de receptores muscarínicos da ACh e são
antagonizados pela atropina. O uso de anticolinesterásicos no tratamento da
demência senil é discutido no Capítulo 41.
Colinesterase e fármacos anticolinesterásicos
• Há duas formas principais de colinesterase: a acetilcolinesterase (AChE), que está
sobretudo ligada a membranas, é relativamente especí ca para a acetilcolina e é
responsável pela rápida hidrólise da acetilcolina nas sinapses colinérgicas; e a
butirilcolinesterase (BuChE) ou pseudocolinesterase, que é relativamente não seletiva e
encontrada no plasma e em muitos tecidos. Ambas as enzimas pertencem à família das
serina hidrolases
• Há três tipos principais de fármacos anticolinesterásicos: de ação curta (edrofônio); de
duração média (neostigmina, sostigmina); e irreversíveis (organofosforados,
di os e ecotiopato). Diferem quanto à natureza da interação química que estabelecem
com o ponto ativo da colinesterase
• Os efeitos dos fármacos anticolinesterásicos são resultantes principalmente da
intensi cação da transmissão colinérgica nas sinapses colinérgicas autonômicas e na
junção neuromuscular. Os anticolinesterásicos que atravessam a barreira hematencefálica
(p. ex., sostigmina, organofosforados) também causam efeitos acentuados sobre o
sistema nervoso central. Os efeitos autonômicos incluem bradicardia, hipotensão, excesso
de secreções, broncoconstrição, hipermotilidade gastrintestinal e redução da pressão
intraocular. A ação neuromuscular causa fasciculação muscular e aumento da força de
contração e pode produzir bloqueio por despolarização
• O envenenamento por anticolinesterásicos pode resultar da exposição a inseticidas ou
gases neurotóxicos
Toxicidade dos organofosforados. Muitos organofosforados podem
provocar um tipo grave de degeneração tardia de nervos periféricos, que
causa fraqueza e comprometimento sensorial progressivos. Esse problema
não é observado com os anticolinesterásicos utilizados na clínica, mas ocasionalmente resulta do envenenamento acidental por inseticidas ou por
gases neurotóxicos. Em 1931, cerca de 20.000 indivíduos nos EUA foram
intoxicados, alguns de modo fatal, após ingestão de suco de fruta
contaminado com um inseticida organofosforado, e outros surtos
semelhantes já foram registrados. O mecanismo dessa reação é apenas
parcialmente compreendido, mas parece resultar da inibição de uma
esterase-alvo de neuropatia distinta da colinesterase. A exposição crônica
de trabalhadores agrícolas e outros profissionais a baixos níveis de
pesticidas organofosforados foi associada a perturbações
neurocomportamentais (Blanc-Lapierre et al., 2013). Outras hidrolases de
serina além da acetilcolinesterase podem ser alvos organofosforados
secundários, incluindo esterases-alvo de neuropatia, lipases e hidrolases de
endocanabinoides (Casida, 2017).
Os principais usos dos anticolinesterásicos estão resumidos no boxe
clínico (a seguir).
Usos clínicos dos anticolinesterásicos
• Reversão da ação de fármacos bloqueadores neuromusculares não despolarizantes depois
de uma cirurgia (neostigmina). A atropina deve ser administrada para limitar os efeitos
parassimpáticos
• Tratamento da miastenia gravis (neostigmina ou piridostigmina)
• Como auxílio diagnóstico de miastenia gravis e para diferenciar a fraqueza causada por
superdosagem de um anticolinesterásico (“crise colinérgica”) da fraqueza observada na
miastenia propriamente dita (“crise miastênica”): edrofônio, um fármaco de ação curta
administrado por via intravenosa
• Na doença de Alzheimer (p. ex., donepezila; ver Capítulo 41)
• No glaucoma (colírio à base de ecotiopato).
Reativação da colinesterase
A hidrólise espontânea da colinesterase fosforilada é extremamente lenta;
assim, o envenamento por organofosfatos necessita de atenção e cuidados
prolongados. A pralidoxima (ver Figura 14.8) reativa a enzima ao levar um
grupo oxima à estreita proximidade do ponto esterásico fosforilado. Esse
grupo tem forte ação nucleofílica, que atrai o grupo fosfato e o afasta do
grupo hidroxila da serina da enzima. A Figura 14.9 mostra a eficácia da
pralidoxima na reativação da atividade da colinesterase plasmática de um
indivíduo que sofreu envenenamento. A principal limitação no emprego
dessa substância como antídoto para o envenenamento por
organofosforados consiste no fato de que, em poucas horas, a enzima
fosforilada sofre alteração química (“envelhecimento”) que a torna não
mais suscetível à reativação; por essa razão, a pralidoxima precisa ser
administrada o mais cedo possível para que funcione. A pralidoxima não penetra no cérebro, mas já foram desenvolvidos compostos afins para
tratamento dos efeitos centrais do envenenamento por organofosforados.
Figura 14.9 Reativação da colinesterase (ChE) plasmática em um voluntário por
injeção intravenosa de pralidoxima.
■ Miastenia gravis
▼ A junção neuromuscular é uma estrutura robusta que raramente
falha; duas das poucas perturbações da junção neuromuscular são a
miastenia gravis e a síndrome miastênica de Lambert-Eaton (p. 196). A
miastenia gravis acomete cerca de 1 em 2.000 indivíduos, com
frequência, mas nem sempre, mulheres jovens que são particularmente
suscetíveis a patologias autoimunes. É caracterizada por aumento de
fraqueza e fatigabilidade dos músculos esqueléticos, resultante do
comprometimento da transmissão neuromuscular. A tendência para
falha da transmissão durante atividades repetitivas pode ser observada
na Figura 14.10. Os músculos não conseguem produzir uma contração
prolongada, resultando na característica queda das pálpebras e visão
dupla na tentativa de sustentar o olhar conjugado lateral. A eficácia dos
fármacos anticolinérgicos na melhora da força muscular na miastenia
foi descoberta em 1931, muito antes de se compreender a fisiopatologia
da doença.
O motivo da falha na transmissão consiste em uma resposta autoimune
que leva aos nAChR da junção neuromuscular. Essa causa foi
identificada pela primeira vez em estudos que mostraram que o número
de pontos para ligação da bungarotoxina nas placas terminais de
pacientes miastênicos estava reduzido em cerca de 70%, quando
comparado com o dos indivíduos normais. Suspeitava-se de que a
miastenia tivesse uma base imunológica, porque a doença é por vezes
acompanhada de um tumor do timo, e a exerese tímica melhora os
sintomas motores. A imunização de coelhos com receptores purificados
da ACh provoca, após algum tempo, uma doença muito semelhante à
miastenia gravis humana. A presença de anticorpos contra a proteína
dos receptores da ACh pode ser detectada no soro de pacientes
miastênicos, mas a razão do desenvolvimento da resposta autoimune em
humanos é desconhecida (Gilhus, 2016).
Figura 14.10 Transmissão neuromuscular em indivíduo normal e em paciente com
miastenia. A atividade elétrica foi registrada com um eletrodo de agulha colocado no músculo adutor do polegar em resposta à estimulação do nervo ulnar (3 Hz) no punho. No indivíduo normal, as respostas elétrica e mecânica são bem sustentadas. No paciente miastênico, a transmissão falha rapidamente quando o nervo é estimulado. O tratamento com neostigmina melhora a transmissão. (De Desmedt, J.E., 1962. Bull. Acad. R. Med. Belg. VII 2, 213.)
A melhora da função neuromuscular resultante do tratamento com
anticolinesterásicos (mostrada na Figura 14.10) pode ser notável;
contudo, se a doença progredir muito, o número de receptores
remanescentes poderá ser insuficiente para produzir um ppt adequado e,
como consequência, os fármacos anticolinesterásicos deixarão de ser
eficazes.