Rang e Dale: Farmacologia
Farmacologia nos séculos XX e XXI
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FARMACOLOGIA NOS SÉCULOS XX E XXI
No início do século XX, os primeiros ventos da química sintética
começaram a revolucionar a indústria farmacêutica e, com ela, a ciência da
farmacologia. Novos fármacos sintéticos, como os barbitúricos e os
anestésicos locais, começaram a aparecer, e a era da quimioterapia
antimicrobiana foi iniciada com a descoberta por Paul Ehrlich, em 1909, de
compostos arsenicais para o tratamento de sífilis. Na mesma época, William
Blair-Bell ficou mundialmente conhecido pelo seu trabalho pioneiro ao
trabalhar em Liverpool no tratamento de câncer de mama com outro agente
relativamente venenoso, misturas coloidais de chumbo. O pensamento era
que sim, os fármacos eram tóxicos, mas levemente mais tóxicos para um
micróbio ou célula cancerosa. Esta quimioterapia precoce lançou as bases
para grande parte das terapias antimicrobianas e anticancerosas ainda hoje
utilizadas. Avanços posteriores aconteceram quando as sulfonamidas – os
primeiros fármacos antimicrobianos – foram descobertas por Gerhard
Domagk, em 1935, e com o desenvolvimento da penicilina por Chain e
Florey durante a Segunda Guerra Mundial, com base nos trabalhos iniciais
de Fleming.
Esses poucos e bem conhecidos exemplos mostram como o crescimento
da química sintética e o ressurgimento da química dos produtos naturais
causaram expressiva revitalização da terapêutica na primeira metade do
século XX. Cada nova classe de fármacos que apareceu trouxe aos
farmacologistas um novo desafio, e foi então que a farmacologia realmente
estabeleceu sua identidade e seu status entre as ciências biomédicas.
Em paralelo com a intensa proliferação de moléculas terapêuticas –
impulsionada principalmente pela química – que deu aos farmacologistas
muito material para reflexão, a fisiologia também foi fazendo rápidos
progressos, particularmente em relação aos mediadores químicos, que são
discutidos em profundidade ao longo deste livro. Muitos hormônios,
neurotransmissores e mediadores inflamatórios foram descobertos nesse
período, e a percepção de que a comunicação química desempenha papel
crucial em praticamente todos os mecanismos de regulação que o
organismo contém estabeleceu, imediatamente, uma grande área de
embasamento comum entre fisiologia e farmacologia, pois as interações das
substâncias químicas com os sistemas vivos eram exatamente o que
preocupava os farmacologistas desde o princípio. De fato, esses campos se
desenvolveram lado a lado, de modo que independentemente de onde
houver um mecanismo fisiológico ou patológico, a farmacologia poderia
estar lá para explorá-lo com um fármaco. O conceito de “receptor” para
mediadores químicos, proposto inicialmente por Langley, em 1905, foi
rapidamente adotado por farmacologistas como Clark, Gaddum, Schild e
outros, e é um tema constante na farmacologia atual (como você logo
descobrirá ao avançar pelos próximos dois capítulos). O conceito de
receptor e as tecnologias desenvolvidas a partir dele tiveram grande
impacto na descoberta de novos fármacos e na terapêutica. A bioquímica
também apareceu como uma ciência distinta no início do século XX, e a
descoberta de enzimas e a descrição de vias bioquímicas forneceram
subsídios adicionais para a compreensão dos efeitos dos fármacos. O
quadro da farmacologia que surge dessa breve síntese histórica (Figura 1.1)
é o de uma disciplina que se desenvolveu a partir de uma terapêutica pré-
científica muito antiga, que se envolveu no comércio do século XVII em
diante e que ganhou respeitabilidade ao assumir caráter científico, tão logo isso tenha se tornado possível, em meados do século XIX. A farmacologia