Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 287 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Transporte de lipoproteínas

ateromatosa.

 

Elevação do colesterol com lipoproteína de baixa densidade

Redução do colesterol com lipoproteína de alta densidade

Hipertensão (ver Capítulo 23)

Diabetes melito (ver Capítulo 32)

Tabagismo (ver Capítulo 50)

Obesidade (ver Capítulo 33)

Sedentarismo

 

Elevação da proteína C reativa a

Elevação dos fatores de coagulação (p. ex., fator VII, brinogênio)

Elevação de homocisteína

Elevação de lipoproteína(a)b

aAssocia-se fortemente à doença ateromatosa, mas não é causal.

b Potencialmente modi cável, mas fortemente determinado pela genética: o ácido nicotínico efetivamente reduz a

lipoproteína(a).

 

Para compreender o mecanismo pelo qual os fármacos previnem a doença

ateromatosa, é necessário revisar brevemente o transporte de lipoproteínas.

 

TRANSPORTE DE LIPOPROTEÍNAS

Os lipídios e o colesterol são transportados na corrente sanguínea como

complexos de lipídio e proteína denominados lipoproteínas. Esse complexo

consiste em um núcleo central de lipídios hidrofóbicos (incluindo os

triglicerídios e os ésteres de colesteril) envoltos por uma capa de fosfolipídios polares, colesterol livre e apoproteína. Existem quatro

principais classes de lipoproteínas, as quais diferem quanto à proporção

relativa dos lipídios no núcleo e no tipo de apoproteína (diferentes tipos de

apoA e apoB). As apoproteínas ligam-se a receptores específicos que

medeiam a captação de partículas lipoproteicas no fígado, sangue ou outros

tecidos. As lipoproteínas diferem em tamanho e densidade, e esta última

propriedade, que era originalmente medida por ultracentrifugação, mas

atualmente estimada, em geral, por meio de métodos mais simples, é a base

para sua classificação em:

 

• Partículas HDL (contêm apoA1 e apoA2), com diâmetro de 7 a 20 nm

• Partículas LDL (contêm apoB-100), com diâmetro de 20 a 30 nm

• Partículas de lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL) (contêm

apoB-100), com diâmetro de 30 a 80 nm

• Quilomícrons (contêm apoB-48), com diâmetro de 100 a 1.000 nm.

 

Cada classe de lipoproteína desempenha um papel específico no transporte

lipídico, e existem diferentes vias para os lipídios exógenos e endógenos,

assim como vias para o transporte reverso de colesterol (Figura 24.1). Na

via exógena, o colesterol e os triglicerídios absorvidos pelo íleo são

transportados como quilomícrons na linfa e depois no sangue, para os

capilares nos músculos e tecido adiposo. Nesses locais, os triglicerídios são

hidrolisados pela lipoproteína lipase, e os tecidos captam os ácidos graxos

livres e o glicerol resultantes. Os quilomícrons remanescentes, ainda

contendo seu complemento de ésteres de colesteril completo, passam para o

fígado, ligam-se a receptores presentes nos hepatócitos e sofrem exocitose.

O colesterol liberado nos hepatócitos é armazenado, oxidado a ácidos

biliares, secretado inalterado na bile ou pode ingressar na via endógena.

Na via endógena, o colesterol e os triglicerídios recém-sintetizados são

transportados do fígado na forma de VLDL para o músculo e o tecido

adiposo, onde os triglicerídios são hidrolisados originando ácidos graxos e

glicerol; estes produtos passam para os tecidos como descrito

anteriormente. Durante esse processo, as partículas lipoproteicas tornam-se

menores, porém retêm um complemento total de ésteres de colesteril e se

tornam partículas LDL. O LDL fornece a fonte de colesterol para

incorporação em membranas celulares e para a síntese de esteroides (ver

Capítulos 34 e 36), mas também é essencial para a aterogênese. As células

captam o LDL por endocitose por meio dos receptores LDL que

reconhecem a apoB-100. Os receptores LDL são essenciais na

determinação da concentração de LDL circulante e, consequentemente, para

o desenvolvimento e progressão da doença ateromatosa. As estatinas, os

fármacos mais utilizados na prevenção dessa doença, atuam ao bloquear a

síntese de colesterol nos hepatócitos, que respondem aumentando a

expressão dos receptores LDL na superfície membranar (ver adiante, p.

312). Uma nova classe de fármacos, os inibidores PCSK9, também

influencia a densidade dos receptores LDL, mas por um mecanismo

diferente, designadamente reduzindo a degradação lisossomal dos

receptores LDL internalizados, levando a um aumento da reciclagem dos

receptores LDL funcionais na superfície membranar (ver adiante, p. 315).

Dos tecidos, o colesterol pode retornar ao plasma na forma de partículas

HDL (transporte reverso de colesterol). O colesterol é esterificado com

ácidos graxos de cadeia longa em partículas HDL, e os ésteres de colesteril

resultantes são transferidos para partículas VLDL ou LDL por intermédio

de uma proteína de transferência presente no plasma conhecida como CETP

(cholesteryl ester transfer protein). Uma espécie de LDL associada com

aterosclerose que se localiza em lesões ateroscleróticas denomina-se lipoproteína(a), ou Lp(a). A Lp(a) contém uma apoproteína única, a apo(a),

que apresenta similaridades estruturais com o plasminogênio (ver Capítulo

25). A Lp(a) compete com o plasminogênio pelo seu receptor nas células

endoteliais. O plasminogênio normalmente é o substrato para o ativador de

plasminogênio, que é secretado pelas células endoteliais e a estas se liga,

dando origem à enzima fibrinolítica plasmina (ver Figura 25.10). O efeito

da ligação da Lp(a) é a diminuição de formação de plasmina, inibição de

fibrinólise e promoção de trombose.

▼ As proteínas de transferência de lipídios foram associadas à

aterogênese (Stein e Stein, 2005). A ACAT (acil coenzima A: colesterol

aciltransferase), que é expressa em duas formas, catalisa a síntese

intracelular do ésteres de colesteril em macrófagos, córtex da

suprarrenal, intestino e fígado. O tamoxifeno, usado no tratamento e

prevenção do câncer de mama (ver Capítulos 36 e 57), é um potente

inibidor de ACAT (de Medina et al., 2004). A CETP está envolvida na

transferência de colesterol entre diferentes classes de partículas de

lipoproteína no plasma. A proteína de transporte microssômico de

triglicerídios (MTP; do inglês, microsomal transport protein) é uma

proteína de transferência de lipídios presente no lúmen do retículo

endoplasmático responsável pela ligação e transferência de lipídios

entre membranas. A inibição da MTP interfere na secreção da apoB e na

montagem do LDL, e a lomitapida, um desses inibidores, é utilizada

em conjunto com a dieta e outras medidas na hipercolesterolemia

familiar homozigótica.