Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 296 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Derivados de óleo de peixe

▼ Os triglicerídios ômega-3 de origem marinha reduzem as

concentrações de triglicerídios no plasma, mas aumentam o colesterol.

Já não são recomendados na prática clínica em decorrência da ausência

de benefício clínico.

 

MIPOMERSENO

O mipomerseno está aprovado nos EUA, mas não na Europa, até o

momento da redação deste livro, para uma única indicação, a HF

homozigótica. É um oligonucleotídio antissenso complementar à região do

mRNA, que codifica a apoB-100 que, por sua vez, inibe a síntese de apoB-

100 e de LDL. Modificações químicas (ver Capítulo 5) conferem ao

mipomerseno resistência à degradação por nucleases, permitindo que seja

administrado 1 vez/semana, como adjunto de outro tratamento para a HF

homozigótica. Este se acumula no fígado, que é o local da sua ação, mas

também da sua toxicidade – a hepatotoxicidade é um problema grave que

limita a sua utilização, requerendo monitoramento cuidadoso. Outros

efeitos adversos incluem sintomas gripais e edema.

 

LOMITAPIDA

A lomitapida também foi recentemente aprovada como adjunto de outro

tratamento para a HF homozigótica. É uma pequena molécula inibidora da

MTP. A MTP tem um papel-chave na montagem e liberação na circulação

de lipoproteínas que contêm apoB, e a inibição dessa proteína reduz

significativamente os níveis de lipídios no sangue. Esta ação contrasta com

outros fármacos que diminuem os lipídios, mas que atuam principalmente

por meio do aumento da captura de LDL em vez da redução da secreção

hepática de lipoproteína. A lomitapida é administrada por via oral 1 vez/dia, e a dose é individualizada de acordo com a forma como é tolerada.

Distúrbios gastrintestinais são comuns.

 

Fármacos na dislipidemia

 

Os principais fármacos usados em pacientes com dislipidemias são:

• Inibidores da HMG-CoA redutase (estatinas, p. ex., sinvastatina): inibem a síntese de

colesterol, por aumento da expressão de receptores para LDL nos hepatócitos e,

consequentemente, aumento da captação do LDL-C hepático. Reduzem eventos

cardiovasculares e prolongam a vida em indivíduos de risco. Na clínica, compõem a classe

de fármacos mais importantes usados no tratamento de dislipidemias. Os efeitos adversos

incluem mialgias (raramente, lesão muscular grave) e elevação das enzimas hepáticas

• Fibratos (p. ex., gen brozila): ativam os receptores PPARα, aumentam a atividade da

lipoproteína lipase, diminuem a produção hepática de lipoproteínas de muito baixa

densidade e aumentam a depuração de LDL-C pelo fígado. Reduzem acentuadamente os

triglicerídios no sangue e aumentam discretamente o colesterol com lipoproteína de alta

densidade. Os efeitos adversos incluem lesão muscular

• Agentes que interferem na absorção de colesterol, geralmente em associação com dieta

mais estatina:

– Ezetimiba

– Alimentos enriquecidos com estanóis

– Resinas ligantes de ácidos biliares (p. ex., colestiramina, colesevelam)

• Derivados de óleo de peixe – etil ésteres de ácidos ômega-3

• Mipomerseno, lomitapida, alirocumabe e evolocumabe são utilizados como

adjuntos no tratamento de pacientes com a rara forma homozigótica de

hipercolestrolemia familiar.

REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR

Aterosclerose e dislipidemia

Brown, M.S., Goldstein, J.L., 1986. A receptor-mediated pathway for cholesterol homeostasis.

Science 232, 34–47. (Clássico dos ganhadores do Prêmio Nobel; ver Goldstein J.L., Brown M.S.,

1990. Regulation of the mevalonate pathway. Nature 343: 425-430)

Durrington, P.N., 2007. Hyperlipidaemia: Diagnosis and Management, third ed. Hodder Arnold,

London. (Livro especializado de muito fácil compreensão)

Hall, S.H., 2013. Genetics: a gene of rare effect. Nature 496, 152–155. (Novo artigo que descreve a

história da PCSK9 como exemplo de um novo paradigma para a investigação translacional)

Ross, R., 1999. Atherosclerosis – an inflammatory disease. N. Engl. J. Med. 340, 115–126. Stein, O., Stein, Y., 2005. Lipid transfer proteins (LTP) and atherosclerosis. Atherosclerosis 178,

217–230. (Proteínas de transferência de lipídios – ACAT, CETP, LCAT e PLTP – e o potencial

terapêutico de suas modulações)

Estatinas

Hague, W., Emberson, J., Ridker, P.M., 2001. For the Air Force/Texas Coronary Atherosclerosis

Prevention Study Investigators. Measurement of C-reactive protein for the targeting of statin

therapy in the primary prevention of acute events. N. Engl. J. Med. 344, 1959–1965. (As estatinas

podem ser eficazes na prevenção de eventos coronarianos em indivíduos com concentrações

indetectáveis de lipídios no soro, mas com proteína C reativa elevada, um marcador de

inflamação e fator de risco para doença coronariana)

Liao, J.K., Laufs, U., 2005. Pleiotropic effects of statins. Annu. Rev. Pharmacol. Toxicol. 45, 89–118.

(“Muitos efeitos pleiotrópicos são mediados pela inibição de isoprenoides, que servem como

ligações lipídicas para as moléculas de sinalização intracelular. Em particular, a inibição de

pequenas proteínas de ligação ao GTP, Rho, Ras, e Rac, cuja localização na membrana e função

dependem de isoprenilação, pode ter um papel importante na mediação dos efeitos pleiotrópicos

das estatinas”)

Merx, M.W., Liehn, E.A., Graf, J., et al., 2005. Statin treatment after onset of sepsis in a murine

model improves survival. Circulation 112, 117–124. (As estatinas oferecem potencial para o

tratamento eficaz contra a sepse)

Van Doren, M., Broihier, H.T., Moore, L.A., et al., 1998. HMG-CoA reductase guides migrating

primordial germ cells. Nature 396, 466–469. (A expressão regulada da HMG-CoA redutase

fornece um guia espacial para a migração de células germinativas primordiais)

Vasa, M., Fichtlscherer, S., Adler, K., et al., 2001. Increase in circulating endothelial progenitor cells

by statin therapy in patients with stable coronary artery disease. Circulation 103, 2885–2890.

(Pode participar do reparo após lesão isquêmica)

Outras terapias

Ácido nicotínico

Canner, P.L., Furberg, C.D., Terrin, M.L., et al., 2005. Benefits of niacin by glycemic status in

patients with healed myocardial infarction (from the Coronary Drug Project). Am. J. Cardiol. 95,

254–257. (O Coronary Drug Project, realizado entre 1966 e 1974, foi um teste randomizado,

duplo-cego e com controle de placebo em 8.341 homens com infarto agudo do miocárdio prévio;

o ácido nicotínico reduziu significativamente a mortalidade ao longo dos 6,2 anos de tratamento,

além de mais 9 anos de acompanhamento após o teste)

HPS2-THRIVE Collaborative Group, 2013. HPS2-THRIVE randomized placebo-controlled trial in

25 673 high-risk patients of ER niacin/laropiprant: trial design, pre-specified muscle and liver

outcomes, and reasons for stopping study treatment. Eur. Heart J. 34, 1279–1291.

Fibratos

Bloomfield Rubins, H., Davenport, J., Babikian, V., et al., 2001. Reduction in stroke with gemfibrozil

in men with coronary heart disease and low HDL cholesterol. The Veterans Affairs HDL

Intervention Trial (VA-HIT). Circulation 103, 2828–2833. (Evidência de que o aumento do HDL

reduz o AVE)

Gervois, P., Torra, I.P., Fruchart, J.C., et al., 2000. Regulation of lipid and lipoprotein metabolism by

PPAR activators. Clin. Chem. Lab. Med. 38, 3–11. (Revisão)

Óleo de peixe

GISSI-Prevenzione Investigators (Gruppo Italiano per lo Studio della Sopravivenza nell’Infarto

Miocardico), 1999. Dietary supplementation with n-3 polyunsaturated fatty acids and vitamin E

after myocardial infarction: results of the GISSI-Prevenzione trial. Lancet 354, 447–455. (11.324

pacientes sobreviventes de infarto agudo do miocárdio foram aleatoriamente designados a

suplementos de ω-3 PUFA, 1 g por dia, vitamina E, ambos, ou nenhum por 3,5 anos. O desfecho

primário foi óbito, infarto agudo do miocárdio não fatal e derrame combinado. A suplementação

dietética com ω-3 PUFA levou a um benefício, clínica e estatisticamente, significativo. A

vitamina E não demonstrou benefícios)

Ezetimiba

Kosoglou, T., Statkevich, P., Johnson-Levonas, A.O., et al., 2005. Ezetimibe – a review of its

metabolism, pharmacokinetics and drug interactions. Clin. Pharmacokinet. 44, 467–494.

Lomitapida

Cuchel, M., Meagher, E.A., du Toit Theron, H., et al., 2013. Efficacy and safety of a microsomal

triglyceride transfer protein inhibitor in patients with homozygous familial

hypercholesterolaemia: a single-arm, open-label, phase 3 study. Lancet 381, 40–46. (Ver também

o editorial que o acompanha: Raal, F.J., pp. 7-8.)

Mipomerseno

Merki, E., Graham, M.J., Mullick, A.E., 2008. Antisense oligonucleotide directed to human

apolipoprotein B-100 reduces lipoprotein(a) levels and oxidized phospholipids on human

apolipoprotein B-100 particles in lipoprotein(a) transgenic mice. Circulation 118, 743–753.

Terapias em potencial

de Medina, P., Payrá, B.L., Bernad, J., et al., 2004. Tamoxifen is a potent inhibitor of cholesterol

esterification and prevents the formation of foam cells. J. Pharmacol. Exp. Ther. 308, 1542–1548.

(Modelagem molecular revela similaridade entre o tamoxifeno e o inibidor de ACAT)

Ikenaga, M., Higaki, Y., Saku, K., 2016. High-density lipoprotein mimetics: a therapeutic tool for

atherosclerotic diseases. J. Atheroscler. Thromb. 23, 385–394. (Os tratamentos para o HDL que

incluem a apolipoproteína (Apo) A-IMilano reconstituída, os peptídios miméticos ApoA-I ou a

ApoA-I inteira são altamente eficazes nos modelos animais. O peptídio mimético Apo A-I FAMP

aumenta a função do HDL sem elevar o HDL-colesterol)

____________

1 O termo dislipidemia é preferível a hiperlipidemia, visto que a baixa

concentração plasmática de colesterol-lipoproteína de alta densidade é tida

como deletéria e constitui um alvo terapêutico.

2 PCSK9 refere-se à pró-proteína convertase subtilisina/quexina tipo 9.

3 À medida que aprendemos a lidar com a expressão genética, mesmo

quando isso parece uma banalidade, pode demonstrar-se menos imutável do

que se pensava (ver Capítulo 5 e adiante, p. 317).

4 A cerivastatina é uma estatina potente, inicialmente recomendada em

dose relativamente alta, e que foi retirada do mercado em função de

rabdomiólise que ocorria particularmente em pacientes tratados com

genfibrozila – discutida mais adiante neste capítulo.

5 ”PPAR” significa peroxisome proliferator-activated receptors (receptores

ativados por proliferador de peroxissomos) – nem pergunte! (Os

peroxissomos são organelas ausentes em células humanas; portanto, há aqui

um problema de nomenclatura). As tiazolidinedionas, empregadas no

tratamento do diabetes, atuam em receptores PPARγ, que são correlatos; ver

Capítulo 31.

6 Por vários motivos, inclusive tendência a permanecer imóvel durante

períodos prolongados com convulsões generalizadas subsequentes, e

delirium tremens.

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