Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 6 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Origens e antecedentes

como potenciais medicamentos (ver Capítulo 60), mas o assunto não é

abrangido de outra maneira neste livro.

 

ORIGENS E ANTECEDENTES

A farmacologia pode ser definida como o estudo dos efeitos dos fármacos

no funcionamento de sistemas vivos. Como ciência, nasceu em meados do

século XIX, uma das muitas novas ciências biomédicas baseadas nos

princípios da experimentação, e não nas crenças vigentes naquele período

extraordinário. Muito antes disso – na verdade, desde os primórdios da

civilização –, remédios à base de ervas foram amplamente utilizados,

farmacopeias foram escritas e o mercado dos boticários floresceu. No

entanto, nada que se assemelhasse a princípios científicos foi aplicado à

terapêutica, àquela altura denominada matéria médica.2 Até mesmo Robert

Boyle, que lançou os fundamentos científicos da química em meados do

século XVII, quando lidava com a terapêutica (A Collection of Choice

Remedies, 1692), foi capaz de recomendar misturas de larvas, estrume,

urina e fungos do crânio de um homem morto. O impulso da farmacologia

veio da necessidade de melhorar os resultados das intervenções terapêuticas

pelos médicos, que, naquele tempo, eram hábeis em observação clínica e

diagnóstico, mas, em geral, ineficazes quanto ao tratamento.3 Até o fim do

século XIX, o conhecimento do funcionamento normal e anormal do

organismo era muito rudimentar para permitir, mesmo em bases grosseiras,

a compreensão dos efeitos dos fármacos; ao mesmo tempo, as doenças e a

morte eram consideradas assuntos semissagrados, tratados particularmente

por doutrinas mais autoritárias do que científicas. A prática clínica

frequentemente mostrou obediência a essa autoridade e ignorava o que

pareciam ser fatos facilmente verificáveis. Por exemplo, a casca de

cinchona foi reconhecida como um tratamento específico e eficiente para a malária, e um correto protocolo para seu uso foi estabelecido por Lind em

1765. Em 1804, entretanto, Johnson a declarou insegura até que a febre

tivesse baixado e recomendou, em seu lugar, o uso de altas doses de

calomelano (cloreto mercuroso) nos primeiros estágios – um conselho fatal,

que foi servilmente obedecido pelos 40 anos seguintes.

A motivação para compreender o que os fármacos podem e não podem

fazer vem da prática clínica, mas a ciência somente poderia ser estruturada

a partir de fundamentos seguros de fisiologia, patologia e química. Foi

somente em 1858 que Virchow propôs a teoria celular. O primeiro uso de

uma fórmula estrutural para descrever um composto químico foi em 1868.

A bactéria como causa de doença foi descoberta por Pasteur em 1878.

Antes disso, a farmacologia dificilmente encontraria alguma sustentação, e

podemos admirar a visão corajosa de Rudolf Buchheim, que criou o

primeiro instituto de farmacologia (em sua própria casa), na Estônia, em

1847.

Em seus primórdios, antes da invenção da química orgânica sintética, a

farmacologia se relacionava exclusivamente com a compreensão dos efeitos

de substâncias naturais, principalmente extratos botânicos – e algumas

substâncias químicas (principalmente tóxicas) como mercúrio e arsênico.

Um aperfeiçoamento inicial em química foi a purificação de compostos

ativos de plantas. Friedrich Sertürner, um jovem boticário alemão, purificou

a morfina a partir do ópio em 1805. Outras substâncias rapidamente se

seguiram e, mesmo que suas estruturas fossem desconhecidas, esses

compostos mostraram que os produtos químicos, e não a magia ou as forças

vitais, eram os responsáveis pelos efeitos que os extratos de plantas

produziam nos organismos vivos. Os primeiros farmacologistas

concentraram mais a atenção nesses fármacos derivados das plantas, como

quinina, digital, atropina, efedrina, estricnina e outros (muitos dos quais são utilizados até hoje e serão bem familiares quando você tiver terminado de