Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 414 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Mineralocorticoides

A utilização clínica dos glicocorticoides sistêmicos é resumida no boxe

clínico a seguir. A dexametasona tem um uso especial: é usada para avaliar

a função do eixo HHSR. No teste de supressão com dexametasona é

administrada uma dose relativamente baixa, em geral à noite. Espera-se que

isso suprima o hipotálamo e a hipófise, resultando em secreção reduzida de

ACTH e produção diminuída de hidrocortisona no plasma cerca de 9 h

depois. A falta de supressão indica hipersecreção de ACTH ou de

glicocorticoides (síndrome de Cushing).

 

MINERALOCORTICOIDES

O principal mineralocorticoide endógeno é a aldosterona. Sua principal

ação é aumentar a reabsorção de Na+ pelos túbulos distais no rim, com

aumento concomitante na eliminação de K+e H+ (ver Capítulo 30). A

secreção excessiva de mineralocorticoides, como ocorre na síndrome de

Conn, leva à retenção importante de Na+ e água, com aumento no volume

do líquido extracelular, hipopotassemia, alcalose e hipertensão. A secreção

reduzida, como ocorre em alguns pacientes com a doença de Addison,

causa perda maior de Na+ e queda acentuada no volume do fluido

extracelular. Há redução concomitante na eliminação de K+, resultando em

hiperpotassemia.

Ações dos glicocorticoides

 

Os fármacos mais comumente usados são hidrocortisona, prednisolona e dexametasona.

 

Ações metabólicas

• Carboidratos: redução da captação e utilização de glicose, e aumento da gliconeogênese, o

que causa tendência à hiperglicemia

• Proteínas: aumento do catabolismo e redução do anabolismo

• Lipídios: efeito permissivo sobre os hormônios lipolíticos e redistribuição da gordura, como

se observa na síndrome de Cushing.

 

Ações reguladoras

• Hipotálamo e adeno-hipó se: efeito de retroalimentação (feedback) negativa, resultando

em liberação reduzida de ACTH e, portanto, de glicocorticoides endógenos

• Sistema cardiovascular: redução da vasodilatação, redução da exsudação de líquidos

• Musculoesqueléticas: redução da atividade osteoblástica e aumento da atividade

osteoclástica

• In amação e imunidade:

– Na in amação aguda: redução do recrutamento e da atividade dos leucócitos

– Na in amação crônica: redução da atividade das células mononucleares, redução da

angiogênese, brose diminuída

– Nos tecidos linfoides: redução da expansão clonal das células T e B e redução da ação

das células T secretoras de citocinas. Troca da resposta Th1 para Th2

– Redução da produção e da ação de muitas citocinas pró-in amatórias, inclusive

interleucinas (IL), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α e do fator estimulador de

colônias de granulócitos e macrófagos

– Produção reduzida de eicosanoides

– Produção reduzida de IgG

– Redução dos componentes do complemento no sangue

– Aumento da liberação de fatores anti-in amatórios como interleucina (IL)-10, IL-1ra

e anexina-1

• Efeitos gerais: redução da atividade da resposta imunológica inata e adquirida, mas

também ocorre redução dos sinais protetores da resposta in amatória e, às vezes,

diminuição da cicatrização.

 

Regulação de síntese e liberação de aldosterona

A regulação de síntese e liberação de aldosterona dependem principalmente

da composição eletrolítica do plasma e da atividade do sistema da

angiotensina II (ver Figura 34.4; Capítulos 23 e 30). O nível de Na+

plasmático baixo ou concentrações plasmáticas de K+ elevadas estimulam

diretamente a liberação de aldosterona das células da zona glomerulosa da

suprarrenal. A perda de Na+ também ativa o sistema renina-angiotensina

(ver Capítulo 23, Figura 23.4). Um dos efeitos da angiotensina II é

aumentar a síntese e a liberação de aldosterona (ver Capítulo 30, Figura

30.5).

Farmacocinética e ações adversas dos glicocorticoides

 

• A administração pode ser oral, tópica ou parenteral. Os fármacos são transportados no

sangue pela globulina de ligação de corticosteroides e entram nas células por difusão. São

metabolizados no fígado

• Os efeitos adversos são observados principalmente após uso sistêmico prolongado, como

agentes anti-in amatórios ou imunossupressores, mas não habitualmente na terapia de

reposição. Os mais importantes são:

– Inibição da resposta a infecções

– Supressão da síntese endógena de glicocorticoides

– Ações metabólicas

– Osteoporose

– Síndrome de Cushing iatrogênica (ver Figura 34.7).

Uso clínico dos glicocorticoides

 

• Terapia de reposição em pacientes com insu ciência suprarrenal (doença de Addison)

• Tratamento anti-in amatório/imunossupressor (ver também Capítulo 27):

– Na asma (ver Capítulo 29)

– Por via tópica, em várias condições in amatórias de pele, olhos, orelha ou nariz (p.

ex., eczema, conjuntivite alérgica ou rinite; ver Capítulo 28)

– Estados de hipersensibilidade (p. ex., reações alérgicas graves)

– Em doenças com componentes autoimunes e in amatórios (p. ex., artrite reumatoide

e outras do “tecido conjuntivo”, doenças in amatórias intestinais, algumas formas de

anemia hemolítica, púrpura trombocitopênica idiopática)

Para prevenir a doença do enxerto versus hospedeiro após transplante de órgãos ou

– medula óssea

– Em doenças neoplásicas (ver Capítulo 57):

– Em combinação com agentes citotóxicos no tratamento de doenças malignas

especí cas (p. ex., doença de Hodgkin, leucemia linfocítica aguda)

– Para reduzir o edema cerebral em pacientes com tumores cerebrais metastáticos ou

primários (dexametasona).

 

Mecanismo de ação

Como outros hormônios esteroides, a aldosterona atua por meio de

receptores intracelulares específicos da família dos receptores nucleares.

Diferentemente do receptor de glicocorticoide, que está presente na maioria

das células, o receptor de mineralocorticoide (também chamado receptor

corticosteroide tipo I) é restrito a poucos tecidos, como o rim e o epitélio

transportador do cólon e bexiga. As células que contêm receptores de mineralocorticoides também contêm a enzima 11β-hidroxiesteroide

desidrogenase do tipo 2, que converte a hidrocortisona (cortisol) em

cortisona inativa, mas não inativa a aldosterona. Isso assegura que as

células sejam apropriadamente afetadas apenas pelo próprio hormônio

mineralocorticoide. Curiosamente, essa enzima é inibida pela

carbenoxolona, um composto derivado do alcaçuz (e previamente usado

para tratar úlceras gástricas; ver Capítulo 31). Se essa inibição for marcada,

o cortisol se acumula e atua no receptor mineralocorticoide, produzindo um

efeito semelhante à síndrome de Conn (hiperaldosteronismo primário), mas

sem a concentração de aldosterona circulante aumentada.

A exemplo dos glicocorticoides, a interação da aldosterona com seu

receptor inicia a transcrição e a tradução de proteínas específicas,

resultando em aumento do número de canais de sódio na membrana apical

da célula tubular renal e, em seguida, do número de moléculas de Na+/K+-

ATPase na membrana basolateral (ver Figura 30.5), levando ao aumento da

eliminação de K+ (ver Capítulo 30). Além dos efeitos genômicos, existem

evidências de um efeito rápido, não genômico, da aldosterona no influxo de

Na+, pela ação no trocador de Na+-H+ na membrana apical.

 

Uso clínico dos mineralocorticoides e antagonistas

O principal uso clínico dos mineralocorticoides ocorre na terapia de

reposição de pacientes com a doença de Addison. O fármaco utilizado com

mais frequência é a fludrocortisona (ver Tabela 34.2 e Figura 34.4), que

pode ser administrada por via oral para suplementar a reposição necessária

de glicocorticoides. A espironolactona é um antagonista competitivo da

aldosterona, que também impede os efeitos mineralocorticoides de outros

esteroides da suprarrenal no túbulo renal (ver Capítulo 30). Os efeitos

adversos incluem ginecomastia e impotência, porque a espironolactona também bloqueia receptores de andrógenos e de progesterona. É usada no