Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 402 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Fatores genéticos e obesidade

como diminuição da função dos receptores β 3-adrenérgicos no tecido adiposo marrom; alternativamente, a proteína desacopladora UCP-2 nos

adipócitos pode ser disfuncional.

Outra sugestão é que alterações na função de receptores nucleares

específicos, como o PPARα, β e γ possam desempenhar algum papel na

obesidade. Isso porque eles regulam a expressão gênica de enzimas

associadas à homeostase de lipídios e glicose, além de promoverem a

formação de tecido adiposo. O PPARγ é expresso preferencialmente nas

células de gordura e torna-se sinérgico com outro fator de transcrição, o

C/EBPα, na conversão de células precursoras em células de gordura

(Spiegelman; Flier, 1996). O gene das UCP nas células de gordura branca

também tem pontos reguladores que respondem ao PPARα e ao C/EBPα. A

pioglitazona, usada para tratar diabetes melito tipo 2 (ver Capítulo 32),

ativa o PPARγ e causa ganho de peso. A fisiopatologia da obesidade pode

envolver alteração(ões) em qualquer um dos múltiplos outros fatores do

balanço energético.

 

FATORES GENÉTICOS E OBESIDADE

Análises de estudos em larga escala de mais de 100.000 pares de gêmeos

humanos mono e dizigóticos indicam que 50 a 90% da variação do IMC

podem ser atribuídos a fatores genéticos e sugerem um papel relativamente

menor para fatores ambientais (Barsh et al., 2000). O Mapa Genético da

Obesidade Humana atualizado (Rankinen et al., 2006) identificou mais de

250 localizações de traços quantitativos7 que contribuem para a obesidade

nos humanos. O ponto de vista prevalente é de que a suscetibilidade à

obesidade é amplamente determinada por fatores genéticos, enquanto os

fatores ambientais determinam a expressão da doença.

A obesidade é classificada convencionalmente como monogênica,

sindrômica ou comum (poligênica), dependendo do contexto genético para

a doença. Tal como o nome indica, a obesidade monogênica surge pela ação

de um único gene. A descoberta de que mutações espontâneas originadas

em genes únicos (p. ex., o genótipo Ob/Ob) produziam fenótipos obesos em

camundongos levou à busca por genes equivalentes no homem. Uma

revisão identificou mais de 170 casos humanos de obesidade, que puderam

ser rastreados até mutações gênicas únicas em 10 genes diferentes (Pérusse

et al., 2005). As mutações no POMC, o gene para o FTO (gene associado a

massa gorda e obesidade), o próprio gene da leptina ou o gene para os seus

receptores são, algumas vezes, os culpados. As mutações do receptor MC4 de melanocortina são as mais comuns nos pacientes obesos (1 a 6%), mas

há muitos outros potenciais candidatos (Barsh et al., 2000).

A obesidade poligênica (comum) compreende a maioria dos casos da

doença. Nela, a obesidade é, em geral, resultado da contribuição de muitos

genes, cada um dos quais tendo um pequeno efeito no fenótipo global.

Outros genes que podem influenciar a obesidade incluem os receptores de

neurotransmissores envolvidos no processamento central do

apetite/dispêndio de energia (p. ex., os receptores CB 1, D2, 5-HT2C), o

receptor β3-adrenérgico e o receptor glicocorticoide. A diminuição da

função do gene do receptor β3-adrenérgico poderia estar associada ao comprometimento da lipólise na gordura branca ou à termogênese na

gordura marrom. Mutação desse gene demonstrou estar relacionada a

obesidade abdominal, resistência à insulina e diabetes melito tipo 2 de

início precoce em alguns indivíduos, além de propensão acentuada para

ganho de peso em um grupo separado de pessoas com obesidade mórbida.

Alterações da função do receptor de glicocorticoides poderiam estar ligadas

à obesidade devido ao efeito permissivo que eles têm sobre vários aspectos do metabolismo de gorduras e balanço calórico. A importância dos

polimorfismos no gene na grelina já foi mencionada.

A obesidade sindrômica está associada a um quadro clínico específico.

A síndrome de Prader-Willi é a mais comum (com 1 em 15.000 a 25.000

nascidos vivos) e está associada a defeitos na expressão do gene no

cromossomo 15q. O quadro clínico é multifacetado, e a obesidade é apenas

um componente.

Recentemente, a interpretação dos dados genéticos na obesidade tornou-

se ainda mais complicada com o reconhecimento da importância da

modificação epigenética do genoma. Esse assunto não pode ser discutido

aqui, mas é bem revisto por Lopomo et al. (2016). Notadamente, vai levar

algum tempo até haver uma compreensão clara de todos esses aspectos.