Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 489 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Aspectos funcionais

subunidade regulatória 1B da proteína fosfatase 1) é fosforilada. A

DARPP-32 fosforilada inibe a proteína fosfatase 1, atuando, deste

modo, em conjunto com as quinases proteicas como um mecanismo

amplificador, favorecendo a fosforilação de proteínas. Em geral, a

ativação dos receptores D2 opõe-se aos efeitos da ativação do receptor

D1.

Os receptores de dopamina são expressos no encéfalo em áreas distintas,

porém superpostas. Os receptores D 1 são os mais abundantes e os mais generalizados nas áreas que recebem inervação dopaminérgica

(especificamente, o estriado, o sistema límbico, o tálamo e o hipotálamo;

ver Figura 40.3), assim como os receptores D 2, que também ocorrem na

hipófise. Os receptores D 2 encontram-se não apenas nos neurônios dopaminérgicos (no corpo celular, nos dendritos e nos terminais nervosos),

onde funcionam como autorreceptores inibitórios ativados pela dopamina

liberada localmente, mas também nas terminações nervosas

glutamatérgicas, GABAérgicas e colinérgicas (DeMei et al., 2009). Os

receptores D 3 ocorrem no sistema límbico, porém não no estriado. O

receptor D4 é expressado de maneira muito mais fraca, principalmente no córtex e no sistema límbico.

Os receptores de dopamina também medeiam vários efeitos na periferia

(mediados pelos receptores D 1), notavelmente a vasodilatação renal e o aumento da contratilidade miocárdica (a própria dopamina tem sido usada

clinicamente no tratamento do choque circulatório; ver Capítulo 23).

 

ASPECTOS FUNCIONAIS

As funções das vias dopaminérgicas dividem-se de forma ampla em:

• Controle motor (sistema nigroestriado)

• Efeitos comportamentais (sistemas mesolímbico e meso-cortical) • Controle endócrino (sistema túbero-hipofisário).

 

■ Dopamina e sistemas motores

Ungerstedt mostrou, em 1968, que a ablação bilateral da substância negra

nos ratos, que destrói os neurônios nigroestriados, causa catalepsia

profunda, com os animais tornando-se tão inativos que morrem de inanição,

a menos que alimentados artificialmente. A doença de Parkinson (ver

Capítulo 41) é um distúrbio do controle motor associado à deficiência de

dopamina na via nigroestriada.

No tratamento de disfunções do SNC, em geral, deseja-se que

determinado tipo de receptor seja ativado ou inibido em alguma parte do

encéfalo, mas o problema é que os fármacos raramente são seletivos por

regiões e irão afetar um determinado tipo de receptor por todo o encéfalo.

Por exemplo, muitos fármacos antipsicóticos (ver Capítulo 47) são

antagonistas dos receptores D 2, e exercem efeito benéfico ao bloquearem os

receptores D 2 na via mesolímbica. No entanto, sua propriedade de

antagonistas do receptor D 2 também causa seu maior efeito adverso, que é promover alterações do movimento, ao bloquear simultaneamente os

receptores D 2 na via nigroestriada.

 

■ Efeitos comportamentais

A administração de anfetamina aos ratos, que libera tanto a dopamina

quanto a norepinefrina, provoca interrupção no comportamento normal do

“rato” (exploração e experimentação) e o aparecimento de comportamento

“estereotipado” repetido (levantar-se, roer etc.), sem relação com estímulo

externo. Essas alterações motoras induzidas pela anfetamina nos ratos,

provavelmente, refletem hiperatividade no sistema dopaminérgico

nigroestriado e são antagonizadas pelos antagonistas da dopamina e pela destruição dos corpos celulares que contêm dopamina no mesencéfalo,

porém não pelos fármacos que inibem o sistema noradrenérgico.

 

Tabela 40.1 Receptores de dopamina.

 

Tipo D Tipo D 12

Papel

D D D D D 1 5 2 34

funcional

Distribuição

Córtex Alerta, humor +++ — ++ — +

Emoção,

Sistema límbico comportamento +++ + ++ +++ +

estereotípico

Secreção de

Estriado +++ + ++ + +

prolactina

Partes ventral

do hipotálamo Secreção de

– — ++ + —

e anterior da prolactina

hipó se

Agonistas a

Dopamina AC AC AC AC AC

Apomor na AC AP AP AP AP

Bromocriptina AP AC AC AP Ant

Quimpirol Inativo Inativo AC AC AC

Antagonistas

Clorpromazina ++ ++ ++ ++ ++

Haloperidol ++ + +++ ++ +++

Espiperona ++ + +++ +++ +++

Sulpirida — — ++ ++ +

Clozapina + + + + ++

Ariprazol — — +++(AP) — ++

Racloprida — — +++ ++ +

 

Transdução do sinal Acoplamento à G Acoplamento à G /G – inibe a adenilato ciclase, i o – ativa a s + 2+ ativa os canais de K , inibe os canais de Ca , pode adenilato ciclase

também ativar a fosfolipase C

Principalmente inibição pós- Inibição pré e pós-sináptica Estimulação/inibição

Efeito

sináptica da liberação do hormônio

a Os agonistas geralmente exibem potência mais baixa nos receptores D e D em comparação com os receptores D , D e D .

1 5 2 3 4

Ant, antagonista; AC, agonista completo; AP, agonista parcial.

(Dados baseados no conteúdo do IUPHAR/BPS Guide to Pharmacology www.guidetopharmacology.org.)

 

A anfetamina e a cocaína (que inibem o transportador de dopamina),

assim como outros fármacos de uso abusivo (ver Capítulos 49 e 50), ativam

vias de “recompensa” dopaminérgicas mesolímbicas para produzir sensação

de euforia em seres humanos. O principal receptor envolvido parece ser o

D , e o rato transgênico sem receptores D comporta-se como se estivesse 1 1 geralmente desmotivado, com redução na ingestão de alimento e

insensibilidade à anfetamina e à cocaína.

 

Função neuroendócrina

A via dopaminérgica túbero-hipofisária (ver Figura 40.3) inibe a secreção

de prolactina por meio da liberação de dopamina. Esse sistema é de

importância clínica. Muitos fármacos antipsicóticos (ver Capítulo 47), pelo

bloqueio dos receptores D2, aumentam a secreção de prolactina e podem causar o desenvolvimento das mamas e lactação, até mesmo no sexo

masculino. A bromocriptina, um agonista do receptor de dopamina

derivado do ergot, é clinicamente usada para suprimir a secreção de

prolactina pelos tumores hipofisários.

Em indivíduos normais, a produção do hormônio do crescimento é

aumentada pela dopamina, porém a bromocriptina, paradoxalmente, inibe a

secreção excessiva responsável pela acromegalia (provavelmente porque

dessensibiliza os receptores de dopamina, em contraste com a liberação de

dopamina, que é pulsátil) e tem efeito terapêutico útil, desde que seja

administrada antes que o crescimento excessivo tenha ocorrido. Hoje ela é

utilizada raramente, pois os outros agentes são mais efetivos (ver Capítulo

34). A bromocriptina e outros antagonistas da dopamina, como a

cabergolina, aumentam a libido e o desempenho sexual.

 

■ Vômitos

As evidências farmacológicas sugerem fortemente que os neurônios

dopaminérgicos têm um papel na produção da náuseas e do vômito. Assim,

quase todos os agonistas do receptor de dopamina (p. ex., bromocriptina) e

outros fármacos que aumentam a liberação de dopamina no encéfalo (p. ex.,

levodopa; ver Capítulo 41) causam náuseas e vômitos como efeito adverso,

enquanto muitos antagonistas da dopamina (p. ex., fenotiazinas,

metoclopramida; ver Capítulo 31) apresentam atividade antiemética. Os

receptores D2 ocorrem na área do bulbo (quimiorreceptores da zona de

gatilho), associada ao desencadeamento do vômito (ver Capítulo 31), e

presume-se que medeiem esse efeito.