Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 281 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Insuficiência cardíaca

ECA, enzima conversora da angiotensina; AT1, receptor da angiotensina II tipo 1.

 

Os anti-hipertensivos de uso comum e seus principais efeitos adversos

estão resumidos na Tabela 23.5.

 

INSUFICIÊNCIA CARDÍACA

A insuficiência cardíaca é uma síndrome clínica caracterizada por sintomas

de falta de ar e/ou fadiga, em geral com sinais de sobrecarga de líquido

(edema, pressão venosa elevada, estertores durante ausculta do tórax). A

anormalidade subjacente fisiológica (ver também Capítulo 22) é um débito

cardíaco inadequado para satisfazer as demandas metabólicas do

organismo, de início durante o exercício, mas, com o progresso da

síndrome, também em repouso. Pode ser causada por doença do próprio

miocárdio (mais comumente em consequência de doença da artéria

coronária mas também de outras patologias, incluindo fármacos

cardiotóxicos como a doxorrubicina e o trastuzumabe – ver Capítulo 57)

ou por fatores circulatórios, como sobrecarga de volume (p. ex.,

regurgitação valvar ou shunts arteriovenosos causados por defeitos

congênitos) ou sobrecarga de pressão (p. ex., valvas estenosadas – ou seja,

estreitadas –, hipertensão sistêmica ou pulmonar). Algumas dessas causas

subjacentes podem ser corrigidas cirurgicamente e, em outras, a doença

subjacente (p. ex., hipertireoidismo; ver Capítulo 35) ou um fator agravante

como anemia (ver Capítulo 26) ou fibrilação atrial (ver Capítulo 22) podem

ser tratados com medicamentos. Nosso foco aqui são os fármacos usados

para tratar insuficiência cardíaca, por si só, independentemente da causa

subjacente.

Quando o débito cardíaco é insuficiente para satisfazer a demanda

metabólica, ocorre aumento do volume de líquido, em parte porque o aumento da pressão venosa incrementa a pressão capilar e, portanto, a

formação de líquido tecidual, e em parte porque a redução do fluxo

sanguíneo renal ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona, causando

retenção de Na+ e água. Independentemente da causa, o panorama para

adultos com insuficiência cardíaca não é bom: 50% daqueles com o grau

mais intenso morrem em 6 meses, e daqueles com doença “leve/moderada”,

50% morrem em 5 anos. As medidas não medicamentosas, incluindo

restrição de sal na dieta e prática de exercício em pacientes moderadamente

afetados,11 são importantes, mas os medicamentos são necessários para

melhorar os sintomas de edema, cansaço e falta de ar, e para melhorar o

prognóstico.

A Figura 23.10 mostra um diagrama simplificado da sequência de

eventos. Um tema comum é que vários dos feedbacks ativados são

“contrarregulatórios”, ou seja, tornam a situação pior, não melhor. Isso

ocorre porque o organismo deixa de distinguir entre o estado hemodinâmico

da insuficiência cardíaca e o da hemorragia, em que seria apropriada a

liberação de vasoconstritores, como a angiotensina II e o ADH.12 Os IECA

e BRA, os β-bloqueadores e os inibidores de receptores da aldosterona

interrompem esses mecanismos neuro-hormonais contrarregulatórios e

demonstraram prolongar a vida na insuficiência cardíaca, embora o

prognóstico continue ruim, mesmo com uma conduta ótima.

Figura 23.10 Esquema simplificado mostrando a patogênese da insuficiência

cardíaca e os pontos de ação de alguns dos fármacos usados em seu tratamento. Os sintomas de insuficiência cardíaca são produzidos por redução da perfusão tecidual, edema e aumento da pressão venosa central. ECA, enzima conversora de angiotensina.

 

Os fármacos usados na insuficiência cardíaca atuam de vários modos

complementares, com os efeitos descritos a seguir.

Aumento da natriurese. Os diuréticos, especialmente os de alça (ver

Capítulo 30), são importantes para aumentar a eliminação de sal e água, em

particular se houver edema pulmonar. Na insuficiência cardíaca crônica, os

fármacos que demonstram melhorar a sobrevivência foram estudados

principalmente em pacientes tratados com diuréticos.

Inibição do sistema renina-angiotensina-aldosterona/potencialização

da NEP. Este sistema permanece inadequadamente ativado em pacientes

com insuficiência cardíaca, especialmente quando tratados com diuréticos.

Os β-bloqueadores inibem a secreção de renina e são usados em pacientes

clinicamente estáveis com insuficiência cardíaca crônica (ver boxe clínico,

p. 306). Os IECA bloqueiam a formação de angiotensina II e os BRA

inibem sua ação, reduzindo, assim, a resistência vascular, melhorando a

perfusão tecidual e reduzindo a pós-carga cardíaca. Causam também

natriurese por inibição da secreção de aldosterona e redução do efeito

estimulante direto da angiotensina II sobre a reabsorção de Na+ e HCO − 3 na porção inicial do túbulo contorcido proximal. O mais importante é o fato de

que prolongam a vida.

▼ As diferenças na farmacologia dos IECA e dos BRA levaram à

hipótese de que a coadministração desses fármacos (“duplo bloqueio”)

poderia conferir mais benefícios do que o aumento da dose de qualquer

um deles administrados como agente único. No entanto, dois grandes

estudos controlados e randomizados, comparando a monoterapia com

IECA ou BRA com a terapia combinada, mostraram que o tratamento

combinado produz mais sintomas atribuídos à hipotensão, e nenhum

benefício na sobrevivência de pacientes com IAM, comparado com a

monoterapia (Pfeffer et al., 2003).

Em contraste com a experiência decepcionante de combinar BRA com

IECA, uma combinação fixa de sacubitril com valsartana é usada em pacientes sintomáticos com insuficiência cardíaca crônica e redução da

ejeção cardíaca. Em comparação com um IECA (enalapril),

sacubitril/valsartana reduziu de forma útil a mortalidade cardíaca e por

todas as causas nesses pacientes, e Jhund e McMurray (2016) argumentam

que essa combinação deve substituir um IECA como a base do tratamento

da insuficiência cardíaca sintomática.

▼ A escolha de valsartana como BRA nesta associação é apoiada pela

sua semelhança farmacocinética com o sacubritil. Sacubitril,

sacubitrilato e valsartana estão altamente ligados às proteínas

plasmáticas (94 a 97%), mas o sacubitril atravessa a barreira

hematencefálica de forma limitada (0,28%). A depuração de Aβ no

líquido cefalorraquidiano (LCR) em macacos cynomolgus jovens é

reduzida por sacubitril/valsartana. A administração da combinação

durante 2 semanas a indivíduos saudáveis aumentou a Aβ1-38 no LCR

sem alteração na Aβ1-40 e 1-42. A relevância clínica disso não é

conhecida, e o produto está sujeito o monitoramento de segurança

contínua.

Os efeitos adversos e as interações medicamentosas observados durante

o tratamento com valsartana/sacubitril estão alinhados com aqueles dos seus

dois componentes. Hipotensão, hiperpotassemia e insuficiência renal são os

efeitos adversos mais comumente observados. O angioedema ocorreu

durante o ensaio clínico principal em 0,5% dos pacientes tratados com a

associação, em comparação com 0,2% dos pacientes tratados com enalapril.

O uso concomitante de sacubitril com IECA é contraindicado, uma vez que,

de acordo com a experiência com o omapatrilate mencionado, a inibição

concomitante da NEP e da ECA aumenta o risco de angioedema. Os

inibidores da PDE5 (ver Capítulo 22), incluindo o sildenafila, que funcionam por meio da sinalização do GMPc, são potencializados pelo

sacubitril.

A angiotensina II não é o único estímulo para secreção de aldosterona e,

durante o tratamento crônico com IECA, as concentrações de aldosterona

circulante retornam aos valores anteriores ao tratamento (um fenômeno

conhecido como “escape da aldosterona”). Isso forneceu embasamento para

a combinação de espironolactona (um antagonista da aldosterona; ver

Capítulo 34) com o tratamento empregando IECA, para reduzir ainda mais

a mortalidade. A eplerenona é um antagonista da aldosterona com menos

efeitos estrógeno-símiles adversos que a espironolactona; mostrou também

melhorar a sobrevida em pacientes com insuficiência cardíaca quando

acrescentada à terapia convencional. Os pacientes com função renal

comprometida foram excluídos desses ensaios, sendo importante o

cuidadoso monitoramento da concentração plasmática de K+ quando são

tratados com um IECA ou BRA em combinação com um antagonista da

aldosterona.

Bloqueio de receptores β-adrenérgicos. A insuficiência cardíaca é

acompanhada por ativação potencialmente perigosa do sistema nervoso

simpático, bem como do sistema renina-angiotensina, fornecendo um

embasamento para o uso de β-bloqueadores. A maioria dos médicos

mostrou-se muito preocupada com essa estratégia pela ação inotrópica

negativa desses fármacos, porém, quando iniciados em doses baixas e

aumentados lentamente, o metoprolol, o carvedilol e o bisoprolol

melhoram a sobrevida quando acrescentados a tratamento ideal em

pacientes clinicamente estáveis com insuficiência cardíaca crônica.

O trinitrato de glicerila (ver Capítulo 22) é infundido por via

intravenosa para o tratamento da insuficiência cardíaca aguda. Seu efeito

venodilatador reduz a pressão venosa, e seus efeitos sobre a complacência arterial e reflexão de onda reduzem ainda mais o trabalho cardíaco. A

combinação de hidralazina (para reduzir a pós-carga) com um nitrato

orgânico de ação prolongada (para reduzir a pré-carga) em pacientes com

insuficiência cardíaca crônica melhorou a sobrevida em um ensaio

controlado aleatório (randomizado) na América do Norte, mas os resultados

sugeriram que o benefício se restringia a pacientes de origem africana. Este

grupo étnico é geneticamente muito heterogêneo e não se sabe quais outros

grupos se beneficiariam de tal tratamento, que é subutilizado em pacientes

de origem africana (Taylor et al., 2004; Cole et al., 2014).

Aumento da força de contração cardíaca. Os glicosídios car-díacos

(ver Capítulo 22) são usados em pacientes com insuficiência cardíaca que

também apresentem fibrilação atrial rápida crônica (nos quais melhora a

função cardíaca por meio da diminuição da frequência ventricular e,

consequentemente, do enchimento ventricular, além do benefício da sua

ação inotrópica positiva), ou em pacientes que continuem sintomáticos

apesar de tratamento com um diurético e um IECA. A digoxina não reduz a

mortalidade em pacientes insuficientes com ritmo sinusal que estejam de

maneira geral sendo tratados de forma ideal, mas realmente melhora os

sintomas e reduz a necessidade de internações. Diferentemente, os

inibidores de fosfodiesterase (ver Capítulo 22) elevam o débito cardíaco,

mas aumentam a mortalidade na insuficiência cardíaca, provavelmente por

conta de arritmias cardíacas. A dobutamina (um agonista β1-adrenérgico

seletivo; ver Capítulo 22) é usada IV quando se necessita de uma resposta

rápida a curto prazo – por exemplo, após cirurgia cardíaca.