Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 516 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Tratamento farmacológico da doença de Parkinson

Atualmente, os principais fármacos usados (Figura 41.5) são:

 

• Levodopa (às vezes, em combinação com carbidopa e entacapona)

• Agonistas da dopamina (p. ex., pramipexol, ropinirol, bromocriptina)

• Inibidores da MAO-B (p. ex., selegilina, rasagilina)

• Antagonistas dos receptores muscarínicos da acetilcolina (p. ex.,

orfenadrina, prociclidina e triexifenidil) são ocasionalmente usados.

 

Nenhum dos fármacos usados para tratar a DP afeta a progressão da doença.

 

Levodopa

A levodopa é o tratamento de primeira linha para a DP e é combinada com

um inibidor da dopadescarboxilase, ou carbidopa ou benserazida, que

reduz a dose necessária em cerca de 10 vezes, e diminui os efeitos adversos

periféricos. Ela é bem absorvida no intestino delgado, processo que

depende de transporte ativo, embora muito dela seja inativado pela MAO na

parede do intestino. A meia-vida plasmática é curta (cerca de 2 horas).

Foram desenvolvidos compostos orais e subcutâneos de liberação lenta. A

conversão da dopamina na periferia, que de outra maneira responderia por

cerca de 95% da dose de levodopa e causaria efeitos adversos

problemáticos, é amplamente impedida pelo inibidor da

dopadescarboxilase. A descarboxilação ocorre rapidamente no interior do

cérebro, porque os inibidores da dopadescarboxilase não penetram a

barreira hematencefálica. Não se sabe se o efeito depende de aumento na

liberação de dopamina por uns poucos neurônios dopaminérgicos

sobreviventes ou de uma “inundação” da sinapse com dopamina formada

em outro local. Como os agonistas sintéticos da dopamina (p. 526) são

igualmente efetivos, a última explicação é mais provável, e os estudos com animais sugerem que a levodopa pode agir mesmo quando não estejam

presentes terminais nervosos dopaminérgicos. Por outro lado, a eficácia

terapêutica da levodopa diminui à medida que a doença avança; assim,

parte de sua ação pode depender da presença de neurônios dopaminérgicos

funcionais. A combinação de levodopa mais um inibidor da

dopadescarboxilase com um inibidor da catecol-O-metil transferase

(COMT) (p. ex., entacapona, tolcapona ou opicapona, ver Capítulo 15),

para inibir sua degradação, é usada nos pacientes com problemas de

flutuações motoras no “final da dose”.

Figura 41.5 Locais de ação dos fármacos utilizados no tratamento de doença de

Parkinson. A levodopa penetra no cérebro e é convertida em dopamina (o neurotransmissor deficiente). A inativação da levodopa na periferia é impedida pelos inibidores de DOPA decarboxilase (DDC) e catecol-O-metil transferase (COMT). A inativação no cérebro é impedida pelos inibidores COMT e monoamina oxidase B (MAO-B). Os agonistas da dopamina atuam diretamente nos receptores estriatais de dopamina. 3-MDopa, 3-metoxidopa; 3-MT, 3-metoxitirosina; DOPAC, ácido di-hidroxifenilacético.

 

■ Eficácia terapêutica

Cerca de 80% dos pacientes mostram melhora inicial com a levodopa,

particularmente da rigidez e da bradicinesia, e cerca de 20% têm as funções

motoras restauradas até o normal. Com o tempo, a efetividade da levodopa

declina gradualmente (Figura 41.6). Em um estudo típico com 100

pacientes tratados com levodopa por 5 anos, apenas 34 estavam melhor do

que no início do ensaio; 32 pacientes tinham morrido e 21 haviam se

retirado do ensaio. É provável que a perda de efetividade reflita

principalmente a progressão natural da doença, porém a infrarregulação dos

receptores e outros mecanismos compensatórios também podem contribuir.

Não há evidências de que a levodopa possa de fato acelerar o processo

neurodegenerativo pela superprodução de dopamina, como se suspeitou em

bases teóricas. De maneira geral, a levodopa aumenta a expectativa de vida

dos pacientes com DP, provavelmente como resultado da melhora da função

motora, embora alguns sintomas (p. ex., disfagia, declínio cognitivo) não

apresentem melhoras.

 

■ Efeitos adversos

Existem dois tipos principais de efeitos adversos:

 

1. Movimentos involuntários (discinesia), que não aparecem inicialmente,

porém desenvolvem-se na maioria dos pacientes depois de 2 anos do

início do tratamento com levodopa. Esses movimentos afetam em geral

a face e os membros e podem tornar-se muito graves. Eles ocorrem no

momento do pico do efeito terapêutico, e a margem entre o benefício e o

efeito discinético torna-se progressivamente mais estreita. A levodopa é

de ação curta, e a flutuação da concentração plasmática do fármaco

pode favorecer o desenvolvimento das discinesias, uma vez que os

agonistas da dopamina com ação mais prolongada são menos

problemáticos nesse aspecto.

2. Rápidas flutuações no estado clínico, em que a bradicinesia e a rigidez

podem subitamente piorar por período de alguns minutos a algumas

horas e, em seguida, melhorar novamente. Esse “efeito liga-desliga”

(on-off) não é visto nos pacientes com DP não tratada ou com outros

fármacos anti-DP. O “efeito desliga” (off) pode ser tão súbito que o

paciente para durante a deambulação e se sente preso naquele lugar ou

fica incapacitado de levantar de uma cadeira, tendo se sentado

normalmente alguns momentos antes. Assim como as discinesias, o

problema parece refletir a flutuação da concentração plasmática da

levodopa, e sugere-se que, conforme a doença avança, a capacidade dos

neurônios de armazenar dopamina é perdida, de maneira que o benefício

terapêutico da levodopa depende cada vez mais da formação contínua

de dopamina extraneuronal, o que exige suprimento contínuo de

levodopa. O uso de preparações com liberação sustentada ou a

coadministração de inibidores da COMT, como a entacapona, podem

ser feitos para contrabalançar as flutuações na concentração plasmática

de levodopa.

Figura 41.6 Comparação entre levodopa/benserazida, levodopa/benserazida/selegilina e bromocriptina na progressão dos sintomas da doença de Parkinson. Os pacientes (249-271, em cada grupo de tratamento) foram avaliados com uma escala padrão de grau de incapacidade. Antes do tratamento, a taxa média de declínio foi de 0,7 unidade/ano. Os três tratamentos produziram melhora nos graus iniciais por 2 a 3 anos, porém o efeito declinou, ou por causa da refratariedade aos fármacos ou pela progressão da doença. A bromocriptina pareceu levemente menos efetiva que os regimes com levodopa, e houve maior taxa de abandono por causa dos efeitos adversos neste grupo. (De Parkinson’s Disease Research Group, 1993. Br. Med. J. 307, 469-472.)

 

 

Além desses efeitos adversos de desenvolvimento lento, a levodopa produz

vários efeitos agudos, que são experimentados pela maioria dos pacientes

no início, porém tendem a desaparecer depois de algumas semanas. Os

principais são os seguintes:

• Náuseas e anorexia. A domperidona, um agonista da dopamina que

atua na zona do gatilho do quimorreceptor (em que a barreira

hematencefálica é permeável), mas sem acesso aos núcleos da base,

pode ser útil para evitar esse efeito

• Hipotensão. A hipotensão postural é um problema reconhecido,

particularmente em pacientes mais velhos

• Efeitos psicológicos. Aumentando a atividade da dopamina no cérebro,

a levodopa pode produzir uma síndrome esquizofrenia-símile (ver

Capítulo 47), com delírios e alucinações. Mais comumente, em cerca de

20% dos pacientes, ela causa confusão, desorientação, insônia ou

pesadelos.

 

Agonistas da dopamina

A bromocriptina, a pergolida e a cabergolina apresentam uma ligeira

maior seletividade pelos receptores D 2/3 do que pelos receptores D1 (ver

Capítulo 40). A bromocriptina, que inibe a liberação de prolactina pela

adeno-hipófise, foi inicialmente introduzida para o tratamento da

galactorreia e da ginecomastia (ver Capítulo 34). Embora seja eficaz no

controle dos sintomas da DP, a sua utilidade é limitada pelos efeitos

adversos, tais como náuseas e vômitos, sonolência e risco de reações

fibróticas nos pulmões, retroperitônio e pericárdio. Essas desvantagens

levaram à sua substituição por pramipexol e ropinirol, que são seletivos

para D 2/3 e mais bem tolerados, e não mostram flutuações na eficácia associada à levodopa. Entretanto, eles causam sonolência e às vezes

alucinações, e evidências recentes sugerem que eles podem levar à

predisposição de comportamento compulsivo, como vício em apostas,8 em

alimentos e excesso sexual, relacionado com a função de “recompensa” da

dopamina (ver Capítulo 50).

Uma desvantagem dos atuais agonistas da dopamina é a sua curta meia-

vida plasmática (6 a 8 horas), necessitando de dosagem 3 vezes/dia, embora formulações de liberação lenta diária estejam disponíveis.

A rotigotina é um agente mais novo, administrado como adesivo

transdérmico, com eficácia e efeitos adversos similares.

A apomorfina, administrada como injeção, às vezes é utilizada para

controlar o “efeito desliga” com a levodopa. Devido à sua potente ação

emética, deve ser combinada com um fármaco antiemético oral. Apresenta

outros efeitos adversos graves (alterações de humor e comportamentais,

disritmias cardíacas e hipotensão) e é a última escolha, caso todos os outros

fármacos falhem.

 

Inibidores da MAO-B

A seleginina é inibidor seletivo para a MAO-B,9 que não tem os efeitos

periféricos adversos dos inibidores não seletivos da MAO usados para tratar

a depressão (ver Capítulo 48) e, em contraste com eles, não provoca a

“reação ao queijo” ou interage tão frequentemente com outros fármacos. A

inibição da MAO-B protege a dopamina da degradação intraneuronal e foi,

a princípio, usada como adjunto da levodopa. Os ensaios clínicos a longo

prazo mostraram que a combinação de seleginina e levodopa era mais

efetiva que a levodopa sozinha para o alívio dos sintomas e prolongamento

da vida. O reconhecimento do papel da MAO-B na neurotoxicidade (p. 524)

sugeriu que a seleginina podia ser neuroprotetora, em vez de meramente

reforçar a ação da levodopa, porém isso não é sustentado pelos estudos

clínicos. Um ensaio clínico em larga escala (ver Figura 41.6) não mostrou

diferenças quando a seleginina foi adicionada ao tratamento com

levodopa/benserazida. A seleginina é metabolizada a anfetamina e às vezes

causa excitação, ansiedade e insônia. A rasagilina, um fármaco muito

semelhante, não apresenta esse efeito adverso e pode, de alguma forma,

retardar a progressão da doença, assim como aliviar os sintomas (Olanow et al., 2009). A safinamida inibe tanto a MAO-B quanto a síntese de

dopamina.

 

Outros fármacos usados na doença de Parkinson

 

■ Amantadina

▼ A amantadina foi introduzida como fármaco antiviral e, em 1969,

descobriu-se por acidente que ela era benéfica na DP. Muitos possíveis

mecanismos para sua ação foram sugeridos com base na evidência

neuroquímica de aumento na liberação de dopamina, inibição da

captação de aminas ou ação direta nos receptores de dopamina. Mais

recentemente, apresentou-se uma ação antagonista nos receptores

NMDA por meio da estabilização do estado fechado do canal, e isso

pode constituir um novo alvo para os fármacos usados na doença de

Parkinson.

A amantadina é menos eficaz que a levodopa ou a bromocriptina no

tratamento da DP, mas é eficaz na redução da discinesia induzida pelo

tratamento prolongado com levodopa (p. 525).

 

■ Antagonistas da acetilcolina

▼ Por mais de um século, até que a levodopa fosse descoberta, a

atropina e os fármacos relacionados eram a principal forma de

tratamento da DP. Os receptores muscarínicos da acetilcolina exercem

efeito inibitório nos terminais nervosos dopaminérgicos, cuja supressão

compensa a falta de dopamina. Os efeitos adversos dos antagonistas

muscarínicos (ver Capítulo 14) – boca seca, constipação intestinal,

comprometimento da visão, retenção urinária – são problemáticos, e

hoje esses antagonistas são raramente usados, exceto para tratar os

sintomas parkinsonianos nos pacientes que recebem fármacos

antipsicóticos (que são antagonistas da dopamina e, assim, anulam o

efeito da L-dopa; ver Capítulo 47). Os fármacos utilizados são

orfenadrina, prociclidina e triexifenidil.

 

Novas abordagens farmacológicas

▼ Novos potenciais tratamentos para a DP em várias fases de ensaios

clínicos são revisados por Oertel e Schulz (2016). A imunização ativa e

passiva contra a α-sinucleína e inibidores ou moduladores da agregação

da α-sinucleína podem prevenir a progressão da doença. Outras

abordagens farmacológicas visam ao alívio sintomático após o

desenvolvimento da doença. Por exemplo, a pimavanserina, um

agonista inverso do receptor 5-HT 2A, foi recentemente introduzida para

tratar alucinações e delírios associados à psicose na DP. Outros

potenciais tratamentos da DP incluem antagonistas dos receptores A2A

de adenosina (p. ex., istradefilina e preladenant), antagonistas dos

receptores 5-HT 1A (p. ex., sarizotana) e antagonistas do receptor do

glutamato ou moduladores alostéricos negativos (que atuam nos

receptores mGluR5, AMPA ou NMDA), bem como os novos inibidores

de COMT.

 

Transplante neural, terapia genética e estimulação cerebral

▼ A doença de Parkinson foi a primeira doença neurodegenerativa na

qual o transplante neural foi tentado, em 1982, em meio a grande

publicidade. Várias abordagens com transplantes foram tentadas, com

base na injeção de células fetais dissociadas (neuroblastos) diretamente

no estriado. Os ensaios clínicos nos pacientes com DP (Barker et al.,

2013) envolveram principalmente injeção de neurônios do mesencéfalo

de fetos humanos abortados. Embora tenha sido demonstrado que tais

transplantes sobreviveram e estabeleceram ligações dopaminérgicas

funcionais, essa abordagem deixou de ser utilizada recentemente.

Alguns pacientes desenvolveram sérias discinesias, possivelmente pela

superprodução de dopamina. O uso de material fetal é, com certeza,

bastante difícil do ponto de vista ético (em geral, células de cinco ou

mais fetos são necessárias para um transplante), e as esperanças para o

futuro repousam principalmente no desenvolvimento de transplantes de

células-tronco (Nishimura et al., 2013); estão em curso pequenos

ensaios clínicos.

Fármacos usados na doença de Parkinson

 

• Os fármacos agem contrabalançando a de ciência de dopamina nos núcleos da base ou

bloqueando os receptores muscarínicos. Nenhum dos fármacos disponíveis afeta a

neurodegeneração subjacente

• Os fármacos incluem:

– Levodopa (precursor da dopamina; ver Capítulo 15), administrada com um inibidor

da dopa descarboxilase periférica (p. ex., carbidopa) para minimizar os efeitos

adversos; às vezes, um inibidor da catecol-O-metil transferase (p. ex., entacapona)

também é administrado, especialmente para os pacientes com utuações motoras no

“ nal da dose”

– Agonistas do receptor da dopamina (pramipexol, ropinirol, rotigotina,

bromocriptina); a rotigotina está disponível como adesivo dérmico

– Inibidor da monoamina oxidase B (selegilina, rasagilina)

– Amantadina (que pode reforçar a liberação de dopamina)

– Orfenadrina (antagonista do receptor muscarínico, usado para o parkinsonismo

causado pelos fármacos antipsicóticos)

Neurotransplante, ainda em fase experimental, pode ser e caz, porém os resultados são

•

variáveis, e pode ocorrer discinesia de desenvolvimento lento.

 

A terapia genética (ver Capítulo 5) na DP tem como objetivo o aumento da

síntese de fatores neurotransmissores e neurotróficos, tais como:

• Dopamina no nível do estriado – por meio da estimulação da tirosina

hidroxilase ou dopa descarboxilase

• GABA no núcleo subtalâmico – por meio da sobre-estimulação da

descarboxilase do ácido glutâmico (para reduzir a expressão excitatória