Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 480 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Glicina

novo fármaco terapêutico.

 

γ-Hidroxibutirato

O γ-hidroxibutirato (oxibato de sódio ou GHB; Wong et al., 2004) ocorre

naturalmente no cérebro como resultado da síntese de GABA. Uma vez que

se trata de um fármaco sintético, pode ser utilizado no tratamento da

narcolepsia e do alcoolismo. Além disso, tornou-se apreciado pelos

fisioculturistas devido à capacidade de liberação do hormônio de

crescimento e também pelos notívagos, dados os seus efeitos de euforia e

desinibição. É também usado como intoxicante e uma das substâncias

usadas no golpe, popularmente conhecido com “Boa noite cinderela”, sendo

fatal em doses mais elevadas. Tal como muitas substâncias de uso abusivo

(ver Capítulo 50), ativa “vias de recompensa” no cérebro e a sua utilização

é atualmente ilícita na maior parte dos países. O GHB é um agonista nos

receptores GABA A que contêm subunidades α4 e δ e um agonista parcial

fraco nos receptores GABA B. Além disso, tem sido postulado um receptor GHB específico, mas a evidência para a sua existência ainda não é

convincente.

 

GLICINA

A glicina é um importante neurotransmissor inibitório na medula espinal e

no tronco encefálico. Está presente em concentrações particularmente

elevadas (5 mol/g) na substância cinzenta da medula espinal. Aplicada

ionoforeticamente aos neurônios motores ou aos interneurônios, ela produz

hiperpolarização inibitória que é indistinguível da resposta sináptica

inibitória. A estricnina, veneno convulsivante que age principalmente na

medula espinal, bloqueia tanto a resposta inibitória sináptica quanto a resposta à glicina. Isso, em conjunto com as medidas diretas da liberação de

glicina em resposta à estimulação nervosa, oferece forte evidência de seu

papel transmissor fisiológico. A β-alanina tem efeitos farmacológicos e

padrão de distribuição muito semelhantes aos da glicina, porém sua ação

não é bloqueada pela estricnina.

O efeito inibitório da glicina é bastante diferente de seu papel de

facilitadora da ativação dos receptores NMDA (p. 490).

▼ O receptor da glicina (Dutertre et al., 2012) assemelha-se ao receptor

GABAA no fato de ser um canal de cloro operado por ligante

pentamérico da alça cys. Não existem receptores metabotrópicos

específicos para a glicina. Foram clonadas cinco subunidades de

receptores de glicina (α1-4, β), e, aparentemente, no cérebro adulto, a

principal forma de receptores de glicina é um complexo heterômero de

subunidades α e β, provavelmente com uma estequiometria de 2α e 3β.

Os homômeros deformados apenas de subunidades α podem formar

glicina e estricnina e ser sensíveis a estas, indicando que o local de

ligação desses fármacos é na subunidade α. Podem também ser muito

mais sensíveis ao bloqueio de canal pela picrotoxina do que os

receptores compostos por subunidades α e β.

Os receptores de glicina estão envolvidos na regulação dos ritmos

respiratórios, do controle motor e do tônus muscular, bem como no

processamento dos sinais da dor. Foram identificadas mutações do

receptor em alguns distúrbios neurológicos associados a espasmos

musculares e hiperexcitabilidade reflexa. Até agora não existem

fármacos terapêuticos que atuem especificamente na modificação dos

receptores de glicina.

A toxina tetânica, toxina bacteriana semelhante à toxina botulínica (ver

Capítulo 14), age seletivamente para impedir a liberação de glicina dos interneurônios inibidores na medula espinal, causando hiperexcitabilidade