Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 139 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Modelos cinéticos mais complexos

Até então, consideramos um modelo farmacocinético de compartimento

único, no qual assume-se que as velocidades de absorção, metabolismo e

excreção sejam diretamente proporcionais à concentração do fármaco no

compartimento a partir do qual a transferência esteja ocorrendo. Essa é uma

maneira útil de ilustrar alguns princípios básicos, mas é, claramente, uma

grande simplificação fisiológica. As características das diversas partes do

organismo, como cérebro, tecido adiposo e músculo, são bastante diferentes

em termos de irrigação sanguínea, coeficiente de partição dos fármacos e

permeabilidade dos capilares para fármacos. Essas diferenças, que são

ignoradas no modelo de compartimento único, podem afetar de modo

importante a evolução temporal da distribuição e ação do fármaco, e muito

trabalho teórico foi despendido na análise matemática de modelos mais

complexos (Atkinson et al., 2012; Rowland e Tozer, 2010). Eles estão além

dos objetivos desta obra e, talvez, além dos limites do que seja realmente

útil, pois os dados experimentais sobre as características farmacocinéticas

dos fármacos raramente são acurados ou reprodutíveis o suficiente para

possibilitar que modelos complexos sejam testados criticamente.

O modelo de dois compartimentos, que introduz um compartimento

separado “periférico” para representar os tecidos, em comunicação com o

compartimento “central” plasmático, é o que mais se aproxima da situação

real sem incluir complicações excessivas.

 

MODELO DE DOIS COMPARTIMENTOS

O modelo de dois compartimentos é uma aproximação amplamente

utilizada, na qual os tecidos são agrupados como um compartimento

periférico. As moléculas do fármaco podem entrar e sair do compartimento

periférico apenas por meio do compartimento central (Figura 11.6), que geralmente representa o plasma (ou plasma mais algum espaço

extravascular, no caso de alguns fármacos cuja distribuição seja

especialmente rápida). A adição de um segundo compartimento ao modelo

acarreta a introdução de um segundo componente exponencial na evolução

temporal predita da concentração plasmática, de modo que ele apresente

uma fase rápida e uma lenta. Esse padrão é observado com frequência

experimentalmente e é mais claramente observado quando os dados de

concentração são plotados semilogaritmicamente (Figura 11.7). Se, como é

quase sempre o caso, a transferência do fármaco entre os compartimentos

central e periférico for relativamente rápida em comparação com a

velocidade de eliminação, então a fase rápida (em geral, denominada fase

α) pode representar a redistribuição do fármaco (i. e., a passagem das

moléculas do fármaco do plasma para os tecidos e, assim, rapidamente

reduzindo a concentração plasmática). A concentração plasmática

alcançada após o término da fase rápida, mas antes de ter ocorrido uma

eliminação considerável, possibilita uma medida da combinação dos

volumes de distribuição dos dois compartimentos; a meia-vida da fase lenta

(a fase β) fornece uma estimativa de kel. Se um fármaco for rapidamente metabolizado ou eliminado, as fases α e β não são bem distintas, e o cálculo

em separado dos valores V d e kel para cada fase não é simples. Problemas também aparecem com fármacos (p. ex., fármacos muito lipossolúveis) para

os quais não seja realista agrupar todos os tecidos periféricos como um só.

Figura 11.6 Modelo farmacocinético de dois compartimentos.