Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 533 de 751

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Rang e Dale: Farmacologia

Aspectos farmacocinéticos

tais como éter, clorofórmio, tricloroetileno, ciclopropano, metoxiflurano e

enflurano, foram substituídos, na prática clínica, particularmente por

isoflurano, sevoflurano e desflurano, que apresentam propriedades

farmacocinéticas aprimoradas, menos efeitos adversos e não são

inflamáveis. Dos agentes antigos, o óxido nitroso é ainda amplamente

usado (especialmente na prática obstétrica) e o halotano, apenas

ocasionalmente.

 

ASPECTOS FARMACOCINÉTICOS

Uma característica importante de um anestésico inalatório é a velocidade

com a qual a concentração sanguínea arterial, que governa o efeito

farmacológico no cérebro, segue-se às alterações da pressão parcial do

fármaco na mistura gasosa inspirada. De modo ideal, a concentração

sanguínea deve ocorrer o mais rápido possível, de forma que a

profundidade da anestesia possa logo ser controlada. Em particular, a

concentração sanguínea deve cair rapidamente a um nível subanestésico,

quando a administração for interrompida, de maneira que o paciente

recupere a consciência com o mínimo de demora. O estado semicomatoso

prolongado, no qual o vômito é provável e os reflexos respiratórios estão

fracos ou ausentes, é particularmente perigoso.

Os pulmões são a única via quantitativamente importante pela qual os

anestésicos inalatórios entram e saem do corpo. Para os anestésicos

inalatórios modernos, a degradação metabólica é geralmente insignificante

na determinação da duração de sua ação. Os anestésicos inalatórios são

pequenas moléculas lipossolúveis que cruzam rapidamente as membranas

alveolares. São, portanto, as taxas de alcance do fármaco aos pulmões e de

sua retirada, por intermédio (respectivamente) do ar inspirado e da corrente sanguínea, que determinam o comportamento cinético geral do anestésico.

A razão pela qual os anestésicos variam em seu comportamento cinético é

que suas solubilidades relativas no sangue e na gordura corporal variam

entre um fármaco e o outro.

Agentes anestésicos intravenosos

 

• Mais comumente usados para indução da anestesia, seguidos de agente inalatório. O

propofol também é usado para manter a anestesia durante a cirurgia

• O propofol, o tiopental e o etomidato são os mais comumente utilizados: todos agem

em 20 a 30 segundos se administrados por via intravenosa

• Propofol:

– Potente

– Ação e distribuição rápidas

– Rapidamente metabolizado

– Recuperação muito rápida, sem efeito cumulativo

– Útil para cirurgias simples (alta no mesmo dia)

– Baixa incidência de náuseas e êmese

– Risco de bradicardia

– Pode induzir a “síndrome da infusão do propofol” quando administrado em doses

elevadas por períodos prolongados.

• Tiopental:

– Barbitúrico com alta lipossolubilidade

– Ação imediata devido à rápida transferência através da barreira hematencefálica;

curta duração (cerca de 5 minutos), em virtude da redistribuição, principalmente

para o sistema muscular

– Reduz a pressão intracraniana

– Lentamente metabolizado e com probabilidade de acumular-se na gordura corporal;

portanto, pode causar efeito prolongado se administrado repetidamente

– Margem estreita entre a dose anestésica e a dose que causa depressão cardiovascular

– Risco de dano tecidual se injetado acidentalmente na artéria

– Pode precipitar um ataque de por ria em indivíduos suscetíveis (ver Capítulo 12).

• Etomidato:

– Similar ao tiopental, porém metabolizado mais depressa

– Menor risco de depressão cardiovascular

– Pode causar movimentos involuntários durante a indução e tem alta incidência de

náuseas

– Possível risco de supressão das suprarrenais.

• Cetamina:

– Análogo da fenciclidina, com propriedades similares

– Ação diferente da dos outros agentes, provavelmente relacionada com o efeito sobre

os receptores de NMDA

– O início da ação é relativamente lento (1 a 2 minutos)

– Poderoso analgésico

– Produz anestesia “dissociativa”, na qual o paciente pode permanecer consciente,

embora com amnésia e insensível à dor

– Elevada incidência de disforia, alucinações etc. durante a recuperação; usada

principalmente para procedimentos menores em crianças

– Pode aumentar a pressão intracraniana.

 

Os principais fatores que determinam a velocidade da indução e da

recuperação podem ser resumidos a seguir.

• Propriedades do anestésico:

• Coeficiente de partição sangue:gás (i. e., solubilidade no sangue)

• Coeficiente de partição óleo:gás (i. e., solubilidade na gordura)

• Fatores fisiológicos:

• Taxa de ventilação alveolar

• Débito cardíaco.

Solubilidade dos anestésicos inalatórios

Os anestésicos podem ser considerados, físico-quimicamente, gases ideais:

sua solubilidade em diferentes meios é expressa como coeficientes de

partição, definidos como a relação da concentração do agente em duas

fases que se encontram em equilíbrio.

O coeficiente de partição sangue:gás é o principal fator que determina a

velocidade de indução e de recuperação de um anestésico inalatório, e

quanto menor o coeficiente de partição sangue:gás, mais rápidas a indução

e a recuperação (Tabela 42.2). Isso ocorre devido ao fato de a pressão

parcial do gás no espaço alveolar reger a concentração no sangue. Quanto

mais baixo o coeficiente de partição sangue:gás, mais rapidamente a

pressão parcial do gás no espaço alveolar se igualará à que está sendo

administrada no ar inspirado (ver adiante).

O coeficiente de partição óleo:gás, uma medida da solubilidade na

gordura, determina a potência de um anestésico (como já discutido) e

também influencia a cinética de sua distribuição no corpo, tendo como

principal efeito a elevada solubilidade lipídica, causando seu acúmulo no

tecido adiposo e atrasando a recuperação da anestesia. Os valores dos

coeficientes de partição sangue:gás e óleo:gás para alguns anestésicos são

mostrados na Tabela 42.2.

 

Tabela 42.2 Características dos anestésicos inalatórios.

 

Coe ciente de partição

Concentração Principal(is) alveolar efeito(s)

Fármaco Sangue:gás Óleo:gás Indução/recuperação Notas

mínima (% adverso(s) e v/v) desvantagem(ns)

Óxido a 0,5 1,4 100 Rápida Poucos efeitos Bom efeito

nitroso adversos Risco de analgésico A

anemia (com o uso baixa potência

prolongado ou impossibilita o

repetido) Acúmulo uso como

em cavidades agente

gasosas anestésico

único –

normalmente

combinado

com outros

agentes

inalados

Poucos efeitos

adversos Possível Amplamente

risco de isquemia usado

Iso urano 1,4 91 1,2 Média

coronariana nos Alternativa ao

pacientes halotano

suscetíveis

Usado para

cirurgias mais

simples por

causa da

Irritação do trato

indução e

Des urano 0,4 23 6,1 Rápida respiratório, tosse,

recuperação

broncospasmo

rápidas

(comparáveis

com as do

óxido nitroso)

Poucos relatos Risco

teórico de Similar ao

Sevo urano 0,6 53 2,1 Rápida

toxicidade renal des urano

pelo uoreto

Halotano 2,4 220 0,8 Média Hipotensão Pouco

Arritmias cardíacas utilizado

Hepatotoxicidade atualmente

(com o uso Metabolização

repetido) signi cativa a

Hipertermia tri uoracetato

maligna (rara)

Risco de convulsões Uso declinou

En urano 1,9 98 1,7 Média (leve) Hipertermia Pode induzir

maligna (rara) convulsões

Agora

obsoleto,

Irritação

exceto

respiratória

Éter 12,0 65 1,9 Lenta quando não

Náuseas e vômitos

houver

Risco de explosão

instalações

modernas

a Valor teórico com base em experimentos em condições hiperbáricas.

 

Indução e recuperação

O fluxo sanguíneo cerebral é uma fração substancial (~15%) do débito

cardíaco, e a barreira hematencefálica é livremente permeável aos

anestésicos, de forma que a concentração do anestésico no cérebro é muito

próxima daquela no sangue arterial. A cinética de transferência do

anestésico entre o ar inspirado e o sangue arterial determina, portanto, a

cinética do efeito farmacológico.

Quando um anestésico volátil é administrado pela primeira vez, as

primeiras inalações são diluídas no volume residual de gás nos pulmões,

resultando na redução da pressão parcial alveolar do anestésico, quando

comparado com a mistura de gás inalada. Com as inalações subsequentes, a pressão parcial alveolar aumenta e gera o equilíbrio. Para um anestésico

com coeficiente de partição sangue:gás baixo, a absorção para o sangue será

mais lenta, de modo que, com repetidas aspirações, a pressão parcial no

espaço alveolar aumentará mais rapidamente do que no caso de um agente

com um elevado coeficiente de partição sangue:gás. Por consequência, com

número menor de inalações (i. e., em tempo menor) será possível alcançar o

equilíbrio. Portanto, ao contrário do que se pode intuitivamente supor,

quanto menor a solubilidade no sangue, mais rápido é o processo de

equilíbrio. A Figura 42.3 mostra o equilíbrio muito mais rápido para o

óxido nitroso, um agente de baixa solubilidade, do que para o éter, um

agente de alta solubilidade.

▼ A taxa de absorção no sangue pode ser aumentada por meio da

administração de um anestésico volátil em conjunto com óxido nitroso

O movimento rápido do óxido nitroso dos alvéolos para o sangue

concentra o anestésico volátil nos alvéolos, o que vai aumentar o seu

movimento em direção ao sangue – referido como efeito de

concentração. Além disso, o volume de óxido nitroso transferido dos

alvéolos para o sangue é substituído pelo gás inspirado, aumentando,

assim, o aporte do anestésico volátil para os alvéolos e acelerando a sua

absorção – referido como o segundo efeito do gás.

A transferência do anestésico entre o sangue e os tecidos também afeta

a cinética do equilíbrio. A Figura 42.4 mostra um modelo muito simples de

circulação, no qual dois compartimentos de tecidos estão incluídos. A

gordura corporal tem baixo fluxo sanguíneo, porém apresenta alta

capacidade de captura de anestésicos e constitui cerca de 20% do volume

em um humano não obeso. Portanto, para um fármaco como o halotano,

que é cerca de 100 vezes mais solúvel na gordura do que na água, a

quantidade presente na gordura após o equilíbrio completo seria, aproximadamente, 95% da quantidade total no corpo. Por causa do baixo

fluxo sanguíneo para o tecido adiposo, são necessárias muitas horas para

que o fármaco entre e saia da gordura, o que resulta em uma fase lenta

pronunciada de equilíbrio em seguida à fase rápida associada às trocas

sangue:gás (ver Figura 42.3). Quanto mais lipossolúvel o anestésico e

quanto mais obeso o paciente, mais pronunciada essa fase lenta se torna e

mais tardia será a recuperação.

 

Figura 42.3 Taxa de equilíbrio dos anestésicos inalatórios em humanos. As curvas mostram a concentração alveolar (que reflete de perto a concentração no sangue arterial), como função do tempo durante a indução. A velocidade inicial de equilíbrio reflete a solubilidade no sangue. Há, também, uma fase lenta de equilíbrio, mais acentuada com os fármacos altamente lipossolúveis (éter e halotano), por causa da lenta transferência entre o

sangue e a gordura (ver Figura 42.4). (Adaptada de Yasuda, N., Lockhart, S.H., Eger, E.I. II et al., 1991. Comparison of kinetics of sevoflurane and isoflurane in humans. Anesth. Analg. 72, 316-324.)

 

Dentre os fatores fisiológicos que afetam a velocidade de equilíbrio dos

anestésicos inalatórios, a ventilação alveolar é o mais importante. Quanto

maior o volume por minuto (respiração da ventilação volume corrente),

mais rápido é o equilíbrio, particularmente para os fármacos que

apresentem altos coeficientes de partição sangue:gás. Fármacos depressores

respiratórios, como a morfina (ver Capítulo 43), podem retardar a

recuperação da anestesia. O efeito das mudanças do ritmo cardíaco na taxa

de equilíbrio é mais complexo. Ao reduzir a perfusão alveolar, uma redução

do ritmo cardíaco reduz a absorção alveolar do anestésico e, assim, acelera

a indução, mas isso é em parte compensado por uma diminuição do fluxo

sanguíneo cerebral que abranda a distribuição para o cérebro.

 

Figura 42.4 Fatores que afetam a taxa de equilíbrio dos anestésicos inalatórios no

corpo. O corpo está representado como dois compartimentos. Tecidos magros, incluindo o cérebro, apresentam grande fluxo sanguíneo e baixo coeficiente de partição para os anestésicos e, portanto, equilibram-se rapidamente com o sangue. Os tecidos gordurosos apresentam baixo fluxo sanguíneo e grande coeficiente de partição e, por isso, equilibram-se lentamente, agindo como um reservatório do fármaco durante a fase de recuperação.

 

A recuperação da anestesia envolve os mesmos processos da indução,

porém ao contrário, sendo a fase rápida de recuperação seguida de lenta

“ressaca”. Por causa desses fatores cinéticos, as buscas por anestésicos

inalatórios aprimorados concentraram-se nos agentes com baixa

solubilidade sanguínea e tecidual. Os fármacos mais novos, que mostram

propriedades cinéticas similares às do óxido nitroso, porém com maior

potência, incluem o sevoflurano e o desflurano (ver Tabela 42.2 e Figura

42.3).

 

Metabolismo e toxicidade

O metabolismo, embora não quantitativamente importante como via de

eliminação dos anestésicos inalatórios, pode gerar metabólitos tóxicos (ver

Capítulo 58).7 Essa é a principal razão pela qual os agentes que estão

obsoletos ou ultrapassados – tais como o clorofórmio, o metoxiflurano e o

halotano – foram substituídos por alternativas menos tóxicas, apresentadas

a seguir.

A hipertermia maligna é uma reação idiossincrática importante mas rara

(ver Capítulo 58), causada pela produção de calor no músculo esquelético,

devido a uma liberação excessiva de Ca2+ do retículo sarcoplasmático. Os

resultados são contração muscular, acidose, aumento do metabolismo e

elevação dramática da temperatura corporal, o que pode ser fatal, a menos

que seja tratada imediatamente. Os ativadores incluem anestésicos

halogenados e fármacos bloqueadores neuromusculares despolarizantes (ver

Capítulo 14). A suscetibilidade possui base genética, sendo associada a

mutações no gene que codifica o receptor de rianodina, que controla a

liberação de Ca2+ do retículo sarcoplasmático (ver Capítulo 4). A hipertermia maligna é tratada com o dantroleno, um fármaco relaxante