Rang e Dale: Farmacologia

Humphrey P. Rang · Capítulo 546 de 751

Páginas do PDF

Rang e Dale: Farmacologia

Tratamento da dor neuropática

retirada do Reino Unido devido a preocupações com superdosagem.

 

TRATAMENTO DA DOR NEUROPÁTICA

A dor crônica, que persiste além do tempo normal de cicatrização e que

inclui dor de origem musculoesquelética ou neuropática, envolve não

apenas o processamento de informação nociceptiva, mas também

compreende componentes emocionais e psicossociais (p. ex., humor,

circunstância, estresse, duração, significado, aceitação, expectativa e medo),

mais do que a dor aguda ou aquela relacionada com o câncer (Stannard,

2016). Estes outros componentes podem tornar os fármacos opioides menos

efetivos no tratamento da dor crônica a longo prazo (i. e., tratamento com

duração superior a 12 semanas).16 A British Medical Association concluiu

que “existe uma falta de evidência de qualidade para suportar uma

recomendação clínica forte para o uso a longo prazo de opioides para

pacientes com dor crônica” (BMA, 2017).

Inúmeros fármacos não opioides, que também são utilizados

clinicamente para outros efeitos que não analgésicos, foram descritos como

clinicamente eficazes sobre a dor neuropática (Dworkin et al., 2010; BMA,

2017), em grande parte como resultado de observações casuais, em vez de

um programa racional de descoberta de fármacos.

Os antidepressivos tricíclicos, particularmente a amitriptilina, a

nortriptilina e a desipramina (ver Capítulo 48), são amplamente

utilizados. Tais fármacos atuam centralmente, inibindo a captura de

norepinefrina, e são eficazes para aliviar a dor neuropática em alguns casos,

mas não em todos. Sua ação é independente de seus efeitos antidepressivos.

Fármacos como a duloxetina e venlafaxina, que inibem a captação de

norepinefrina e serotonina, também são eficazes e apresentam um perfil diferente de efeitos adversos, mas os inibidores seletivos da recaptação da

serotonina apresentam pouco ou nenhum benefício.

A gabapentina e seu congênere, pregabalina, são fármacos

antiepilépticos (ver Capítulo 46) que também são eficazes no tratamento da

dor neuropática. Reduzem a expressão das subunidades α2δ dos canais de

cálcio ativados por voltagem na membrana nervosa (ver Capítulo 4) e a

liberação de neurotransmissores. As subunidades α2δ são suprarreguladas

nos neurônios sensoriais danificados, o que pode explicar a razão de esses

agentes serem mais eficazes em certa variedade de estados de dor

associados a lesão neurológica do que em outras formas de dor.

A carbamazepina, outro tipo de fármaco antiepiléptico, é eficaz na

neuralgia do trigêmeo, porém não existem evidências da sua eficácia sobre

outros tipos de dor neuropática. A carbamazepina bloqueia os canais de

sódio controlados por voltagem (ver Capítulo 4), sendo levemente mais

potente no bloqueio dos canais Nav1.8 do que Nav 1.7 e Nav 1.3; acredita-se que todos esses subtipos de canais estejam suprarregulados na lesão

neurológica e contribuam para a sensação de dor. Em concentrações

elevadas, inibe os canais de cálcio ativados por voltagem. Por vezes, a

fenitoína é administrada por via intravenosa no caso de crises.

Outros agentes antiepilépticos, como ácido valproico, lamotrigina,

oxcarbazepina, topiramato e levetiracetam, podem ser eficazes em

alguns estados de dor neuropática.

A lidocaína (lignocaína), um fármaco anestésico local (ver Capítulo

44), pode ser utilizada topicamente no alívio da dor neuropática.

Provavelmente, atua por meio do bloqueio de descargas espontâneas dos

terminais nervosos sensoriais danificados. Alguns fármacos antiarrítmicos

(p. ex., mexiletina, tocainida, flecainida; ver Capítulo 22) são eficazes por

via oral.

A abundância de fármacos e mecanismos criados para aliviar a dor

crônica reflete a atual falta de fármacos que funcionem de modo eficaz e

confiável nesta condição comum e séria, cuja causa é com frequência pouco

clara. Tratamentos psicológicos são muitas vezes usados em conjunto com

os fármacos.

 

Fármacos utilizados no tratamento da dor neuropática

 

• Diferentes antidepressivos (p. ex., amitriptilina, duloxetina) oferecem benefícios

terapêuticos

• A gabapentina e a pregabalina são utilizadas atualmente mais para alívio da dor

neuropática do que como agentes antiepilépticos

• A carbamazepina, assim como outros agentes antiepilépticos que bloqueiam os canais

de sódio, pode ser e caz no tratamento da neuralgia do trigêmeo

• A lidocaína pode oferecer alívio quando aplicada topicamente.

 

Tratamento da fibromialgia

A fibromialgia é uma alteração crônica caracterizada por dor

musculoesquelética generalizada, fadiga e insônia. Sua causa é

desconhecida e não apresenta uma característica patológica óbvia aparente,

estando associada a alodinia. Os analgésicos clássicos (p. ex., AINE e

opioides), apesar de proporcionarem alívio, não são muito eficazes para o

tratamento dessa alteração. Diferentes fármacos antidepressivos (p. ex.,

amitriptilina, citalopram, milnaciprana, duloxetina, venlafaxina; ver

Capítulo 48), agentes antiepilépticos (p. ex., gabapentina, pregabalina; ver

Capítulo 46), benzodiazepínicos (p. ex., clonazepam, zopiclona; ver